domingo, dezembro 10, 2006

Assim como nós.....

Ignorado nos cinemas, Blade Runner construiu sua reputação de grande cult nas locadoras. Baseado no livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip Kindred Dick, publicado em 1967, o filme de Ridley Scott traçou linhas profundas em temas abissais como a vida artificial, a morte e o encontro com a própria identidade, influenciando bastante o cinema de FC do século passado - e mantendo-se, cada vez mais, como um dos grandes clássicos do gênero.

Sombrio, pessimista e de clima notadamente noir, o primeiro filme hollywoodiano do diretor britânico Ridley Scott nos conduz através de cidades noturnas e úmidas, com recorrentes imagens de trânsito com hovercars, gigantescos outdoors, anúncios de Coca-Cola e de fast foods japoneses para nos situar em uma terra futurista do século XXI (o retrato típico do futuro próximo ciberpunk – magistralmente temperado com influências estético-visuais que vão da pintura flamenga às histórias em quadrinhos, passando pela pintura moderna americana, ricamente emolduradas pela hipnótica trilha de Vangelis), relegada aos seres humanos incapazes de viver no espaço – no caso, uma L.A. do ano de 2019, high tech e terrivelmente opressora, estilizada como um rápido comercial de TV. Nesse cenário, uma grande corporação desenvolve um tipo de andróide plasticamente igual, porém mais forte e ágil que o ser humano - e com ele equiparando em inteligência. São empregados como escravos na colonização e exploração de outros planetas. Essas máquinas fascinantes não têm passado, pois elas já nascem “prontas”, para durar apenas quatro anos, são emocionalmente virgens e reúnem incansavelmente um contínuo acervo de memória visual – memórias ou simples fotografias, que são colecionadas como um bem precioso, algo que lhes confere dimensão humana: a prova que eles vivem e atravessam as vidas uns dos outros. Eles são denominados “replicantes” – o nome alude a réplica - mas aqui não falamos de clonagem, e sim da criação de vida puramente artificial, dotada de inteligência, visão de si e consciência de sua existência transitória. Não seriam essas grandezas que definem o ser humano como um fim, para Kant, e, assim, o dotam de dignidade humana? Nesses termos, muitos dos dilemas morais envolvidos na tecnologia da clonagem (caso típico de um desenvolvimento por caminhos próprios, eterno anátema da FC especulativa) valem para o caso dos replicantes, pois o que se trabalha é a inteligência – o próprio nome do livro já questiona sobre o conteúdo dos sonhos dos andróides, numa clara referência ao seu subconsciente...
Um dia, um grupo de replicantes provoca um motim em uma colônia, com trágicas conseqüências para os humanos. Em razão disso, são banidos e considerados proibidos na Terra – é formado um grupo especial de policiais, os Blade Runners (termo “emprestado” de William S. Burroughs), que é encarregado de encontrar e eliminar – remover é o termo usado – os andróides que, depois da proibição, conseguem viver na Terra fazendo-se passar por seres humanos...

Rick Deckard (Harrison Ford, muito bom no papel) é um desses bounty hunters, que um dia é destacado para caçar seis replicantes de uma série especial, muito aprimorada. Nessa sua incrível jornada em busca aos andróides, sob o pano de fundo de um filme de ação, discute-se a transcendência do que identifica, afinal, a própria vida, o que ela significa, com todas as suas ansiedades e desilusões. E essa jornada conduz Deckard através de profundas descobertas acerca de si próprio...

Há muito da boa ficção científica em Blade Runner (no Brasil, “O Caçador de Andróides”), que conta também no elenco, além de Ford, com gente como Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh. O livro de 1967 foi um dos precursores da estética ciberpunk, que posteriormente se cristalizou como uma nova escola de FC. O filme, lançado em 1982 lhe faz justiça, apesar das óbvias adaptações e alterações para a estética do cinema. Em 1992, ele reapareceu em uma segunda e definitiva versão, um director’s cut com cenas a mais – e a menos, também facilmente identificável pela ausência do voice over da versão original.
A versão de 1992, afora várias cenas de tráfego com carros voadores, altera em profundidade o conceito desenvolvido na versão de 1982, para uma ótica mais radical. Numa das cenas acrescentadas, Dackard sonha com um unicórnio – sendo que, na cena anterior o Blade Runner encontra um origami de um unicórnio deixado num elevador por Rachel – a pista para que se admita que o caçador e as presas pertencem à mesma espécie. A cena retirada na segunda versão é uma bem no final, quando Rick comenta com Rachel que ela é especial, por não ter o prazo de vida fixado em 04 anos, como os demais replicantes – e por isso mesmo, mais humana, porque não teria um prazo certo para deixar de funcionar...
Simplesmente imperdível.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Em meu coração, o frio do outono

O interesse por bandas apenas preocupadas em tocar e produzir bom rock, sem modismos ou frescuras do gênero, é bastante pendular, de modo que nesse meio, a sobrevivência é bastante difícil.
Na cena brasileira, uma banda ímpar, o VIOLETA DE OUTONO continua na ativa, a cada novo movimento escrevendo uma História brilhante e arrojada, onde não há espaço para a mediocridade.

Num meio musical permeado pelo efêmero e descartável, é cômico ver uns e umas por aí “descobrindo” bandas e artistas “sensacionais”, em geral a partir de páginas de revistas antenadas, ao mesmo tempo que ignoram completamente as poucas e boas coisas disponíveis que ainda valem a pena. Talvez seja isso, o Violeta é bom demais para esse pessoal, não dá para estabelecer a ponte de mediocridade entre o público e o artista, vital para a visibilidade em nossa contínua idade das trevas.

O Violeta aglutina fãs de gêneros como o progressivo, gótico, pop, psicodélico e ainda assim mantém uma assinatura sonora inconfundível. E olhe, que inconfundível aqui passa longe de significar algo redundante como uma “marca brasileira” no som. Não, meus filhos, o som dos caras é pessoal mesmo – o que já é um mérito e tanto. O conjunto liderado pelo vocalista, guitarrista, compositor e produtor Fabio Golfetti, dá provas do que poderia ser (ou ter sido) a nossa cena independente, ao manter-se artisticamente instigante e conceitualmente tão longe da pasmaceria infantilóide/intelectualóide (há lixo para todas as idades e desgostos musicais) que inunda nossos sentidos, que acaba servindo de critério para separar quem curte boa música de quem não curte.

As origens da banda remontam ao ano de 1981, quando Fabio fazia parte de uma banda chamada Lux, voltada para o jazz experimental. O projeto Lux durou de maio daquele ano até março de 1982. Com o fim do Lux, Fabio tocou o projeto AMT-1, na mesma seara experimental, onde ficou até junho de 1983. Na aventura seguinte, a banda Ultimato - já influenciada pelo pos-punk do final dos anos 70 - ele topou com o baterista Claudio Souza. Os dois tocaram na primeira formação do Zero (a banda do Guilherme "agora eu sei" Isnard) até maio de 1985, e chegaram até a gravar um single com o grupo, "Heróis", antes de pularem do barco para formar uma banda com outra sonoridade, mais ligada aos anos 60. Chamaram o fotógrafo e baixista Angelo Pastorello, e "Scott" (o jornalista José Augusto Lemos, mais conhecido por seu trabalho na revista Bizz). Essa banda era o Violeta de Outono... “Scott” ficou apenas até outubro de 1985, quando o grupo se assumiu como um trio e lapidou continuamente sem som, que juntando adoração pelo Pink Floyd e o Led Zeppelin (em especial no que tange às harmonias orientais) - sem falar na cena de Canterbury -, com bandas eighties como o Echo and the Bunnymen, cristalizou um som complexo e ao mesmo tempo despojado. Vieram os shows, algum público e um convite da loja de discos/selo Wop-Bop para lançarem um EP. Fabio era cliente da loja desde 1975 e Claudio escrevia para um fanzine do René Ferri, Spalt.
O EP começou a ser disputado pelos fãs e a Wop-Bop acabou comercializando o que inicialmente seria um mero brinde. O disco, segundo Fabio, sedimentou toda a estética que o grupo sempre procurou, o instrumental progressivo/pós punk e as letras redundantes e soturnas... A música "Outono" inclusive virou um mini-hit e o grupo acabou caindo nas graças de uma major, a RCA, através de um selo menor da gravadora chamado "Plug". Nessa época eles poderiam, quem sabe, ter virado um estouro de mídia, pois consta que receberam um convite da Rede Globo para colocarem "Outono" em uma abertura de novela. A banda recusou o convite. A RCA ficou decepcionada com essa decisão, mas mesmo assim seguiu em frente com a banda. Lançaram um belo primeiro LP, homônimo, e que continha uma regravação de "Outono", uma cover de "Tomorrow Never Knows" dos Beatles, e ainda “Declínio de Maio”, outro eterno hino cult.

Em 1989 saiu o segundo disco pelo selo Plug, “Em Toda Parte”, que foi muito trabalhado – a produção foi excelente – mas que acabou ficando confuso e meio distante do som original que pretendiam fazer, mais uma vez em desacordo com a visão da RCA, que queria algo bem próximo do primeiro trabalho...Fabio informou que as idéias eram muitas e elas acabaram sendo mal traduzidas para o tape. Logo após o disco, o selo Plug foi extinto e a banda ficou sem o apoio da gravadora. Os dois discos venderam aproximadamente 40 mil cópias: 25 mil do primeiro e 15 mil do segundo.

Nesse período, o Violeta lançou uma fita K-7, The Early Years, pela Wop-Bop, contendo quatro canções de bandas dos anos 60: "Within You Without You" (Beatles), "Citadel" (Rolling Stones), Interstellar Overdrive (Pink Floyd) e "Blues for Findlay" (Gong), num pacote que incluía um zine com fotos, história e um flexi-disc solo de Fabio Golfetti, “Numa Pessoa Só”, sob a alcunha de "Opera Invisivel", na verdade um projeto "de anos" do guitarrista. Nesse período, Fabio lançou seu selo próprio, batizado também de “Invisível”.

Iniciou-se, então um verdadeiro período de invisibilidade da banda, que fez somente alguns shows. Naqueles dias, ocorreu o afastamanto de Cláudio Souza. Fabio voltou-se para o projeto "Invisible Opera of Tibet", idealizado por David Allen, do grupo inglês Gong. Os shows eram sempre vazios: os experimentalismos não estavam na moda...Em 1994 Fabio chama Souza e Pastorello para uma das jams do Invisible, e, por brincadeira, colocam no cartaz o nome “Violeta de Outono”. A casa lota, isso numa quarta-feira, com divulgação apenas de panfletos. Era o sinal de que a banda estava viva e o seu pequeno público, ávido por novidades. Em 1997, o grupo se apresenta no Rio Art Rock Festival, com participação especial do tecladista Fabio Ribeiro. Essa apresentação depois ganharia registro em CD. Em 1999, aparece o magnífico “Mulher na Montanha”, que foi editado pelo selo independente inglês Voiceprint, do qual Fabio se tornara representante comercial. Acessível, psicodélico e bem sintonizado com a linha de Canterbury, o álbum torna-se um clássico da música independente do Brasil. Nessa época, Claudio e Angelo deixaram novamente o grupo, frustrados com a pouca receptividade comercial e outros compromissos profissionais. Fabio agitou uma nova formação com Sandro Garcia (baixo) e Gregor Izidro (bateria), que afinal influiu na concepção sonora da Banda. Gregor era um baterista mais vigoroso do que Cláudio – que tocava bem no padrão marcial do pos punk inglês - e Sandro manejava habilmente um baixo Rickenbacker, que deu uma sonoridade mais sensual, gordurosa, ao som do grupo, quando comparamos com o som mais bruto do baixo Fender (Classic) de Angelo. Essa formação não lançou nenhum trabalho. Em julho de 2001, Sandro deixa a banda e Angelo volta. O grupo fez dezenas de apresentações, chegando a abrir para o Focus em São Paulo e tocar no Rio Art Rock Festival daquele ano. Em 2003 Gregor deixa a banda e retorna à bateria Claudio Souza, que havia praticamente abandonado o meio musical..

Em 2004 Fabio reativou o selo Invisivel e lançou, ao longo do ano, mais de 30 CDs, reunindo tudo que já gravou , desde o Lux até o Invisible Opera e projetos solos, inclusive uma extended version da Early Years - a Complete, com nada menos do que 14 canções, passando por sobras de estúdios e versões ao vivo. Na seqüência, o ano de 2005 trouxe grandes novidades, em especial o lançamento do CD “Ilhas”, gravado entre 2002 e 2003, contando ainda com Gregor, na bateria. Nesse ano, eu estava de passagem em São Paulo, e, apesar das difíceis circunstâncias, assisti a banda ao vivo pela primeira vez... Nos shows, com a volta de Claudio, o grupo deu um outro rumo ao som, trabalhando suas raízes progressivas, inclusive com a adição em tempo integral do tecladista Fernando Cardoso (Yessongs). “Ilhas” mostra a banda mais madura, em grandes momentos como "Blues","Língua de Gato em Gelatina" e a bela “Jupiter”. As apresentações que se seguiram permitiram ao Violeta inclusive gravar um DVD com uma orquestra, que saiu em 2006.

Em outubro de 2005 Angelo Pastorello deixou novamente o grupo, sendo substituído por Gabriel Costa, do Compacta Trio e Jack Rock Revival. Segundo fontes que assistiram shows em 2006, o estilo de Gabriel é mais próximo ao som de Canterbury... Fica a curiosidade de que vem por aí...
Não pare por aqui. Para saber mais sobre o Violeta de Outono, acesse o link
http://www.violetadeoutono.com.br/

domingo, novembro 05, 2006

Futuro atual








“Você pode matar um homem, mas não um ideal”.




V de Vingança (versão em português para V for Vendetta) é uma graphic novel escrita por Alan Moore, e em grande parte desenhada por David Lloyd. A obra foi publicada originalmente na Inglaterra entre 1982 e 1983, em preto e branco, pela Warrior, no entanto, sem finalização. Em 1988, por intermédio da DC Comics, a série foi finalizada e também ganhou uma edição colorida em sua versão norte-americana, para óbvio desagrado dos puristas. Fundamental, trata-se da maior obra já editada sob a forma de “quadrinhos”.

A história se desenvolve numa espécie de futuro/passado alternativo, no qual, após uma grande guerra que culmina em um hecatombe nuclear, a Inglaterra é governada por um regime fascista-totalitário. Nessa realidade alternativa, um anarquista, “V”, luta para destruir o regime, mesmo que tal intento leve à destruição da sociedade – ou a seu renascimento.

Triste e Sombria, dotada de uma visão política clara e radical sobre o papel do estado, “V” segue a linha de obras como 1984, de George Orwell - não como uma mera derivação, mas como um outro exemplar do gênero. Em seu mundo fascista fictício e noir, onde todos os aspectos da vida cotidiana são censurados (e também livros, músicas, teatro, cinema etc), os opositores ou indesejáveis são encarcerados em campos de concentração, torturados, mortos e submetidos a horripilantes “experiências” científicas e psicológicas, o texto de Alan Moore evidencia sempre a importância da cultura para a manutenção das liberdades individuais e ataca a ignorância dos detentores do poder, de seus instrumentos políticos/jurídicos e daqueles que os justificam, em várias seqüências e momentos memoráveis. Num sistema em que o estado vigia a liberdade, a pergunta primordial nasce espontaneamente: quem vigia os vigilantes? Tudo isso magistralmente representado nas páginas em preto e branco do original, compondo uma narrativa memorável e revolucionária.

Nesse contexto, surge um opositor do regime, uma personagem cativante e enigmática, “V”, que sempre se mostra com o rosto destruído recoberto por uma máscara -não, não se trata de um herói infantil como o Super Homem ou mesmo Batman – Moore vai muito além disso. Em tal aspecto, a história ganha mais pontos por não enveredar por um mero proselitismo messiânico, com tolices infantis como a idéia tosca de que “um libertador virá” e outras soluções abjetas . “V”, retratado pelo governo como um terrorista louco, antes de tudo, quer vingança...seu ódio irresistível e suas atuações teatrais, aliados ao fato de o mesmo não possuir um rosto próprio, o tornam uma das mais instigantes figuras literárias contemporâneas, uma idéia conceitual muito bem trabalhada por Moore.


Levada ao cinema pelos produtores de Matrix (os irmãos Wachowski), a história perdeu muito de seu impacto original, como se era de esperar, pois falamos aqui de uma trama que se desenrola no decurso de vários anos. O elenco está ok, Hugo Weaving, Natalie Portman e Stephen Rea estão muito bem - mas seus caracteres, vítimas do roteiro simplificante e supressivo, parecem meras sombras das personalidades que representam. “V” (Weaving) adquire ares românticos, apaixonando-se por Evey (Portman), que por sua vez já é mostrada como uma heroína decidida e questionadora, ao invés de uma adolescente atormentada que lentamente se transforma em uma mulher revolucionária, como na graphic novel. O detetive Finch (Rea) também é pintado com cores mais heróicas, ao invés do escombro atormentado do original, que compreende “V” a partir de uma viagem de LSD. Afora isso, no que tange ao aspecto ideológico, sai de cena o radical discurso anarquista do original, de um mundo sem líderes, para ganhar espaço a desgastada defesa da democracia. Entretanto, mesmo frisando que o próprio Moore declarou que sua oba fora desfigurada "completamente", o filme tem seus méritos, por não transformar “V” em um ser sobrenatural, um mutante ou outra coisa do gênero. Ao contrário, ele demonstra o insucesso da ação isolada em sua meta de destruir o presente e criar um novo futuro - mesmo que tal fururo seja trágico. Ainda que mitigada em sua força, e até mesmo algo infantilizada, a adaptação de “V” guarda alguns bons momentos. Mas, claro, o ideal é beber na fonte. No Brasil já foi editada de três formas distintas: uma minissérie em cinco capítulos coloridos, uma versão encadernada colorida e, por fim, em dois volumes em preto-e-branco. Basta escolher...

sexta-feira, novembro 03, 2006

Um pouco sobre a escuridão...

You know the day destroys the night Night divides the day Tried to run Tried to hide Break on through to the other side Break on through to the other side Break on through to the other side, yeah
Jim Morrison

Muitas das coisas que às vezes nos parecem óbvias na realidade carregam consigo mistérios e encantos insondáveis. Um dia desses, recebi um e-mail de uma leitora do blog, onde ela perguntava, ao final de sua mensagem: “por que a noite é escura?”...
Se a questão for encarada de um ponto de vista poético, ou mesmo filosófico, podemos compreender a resposta sob o seu aspecto de contraste, de mudança – e também de que trevas se levantam e obscurecem a luz (ponto de opinião negativo) ou de que a luz próxima – a do sol – se retrai e nos deixa contar as estrelas (ponto de opinião positivo), assim, obteríamos nossa resposta como uma explicação de que a natureza não admite a uniformidade, e nesse aspecto atribuímos valor à luz ou à escuridão. Entretanto, do ponto de vista científico, essa mesma questão, denominada tecnicamente de “O enigma da escuridão”, não apresenta facilidade em seu desmonte. Nem ao menos, na indicação do caminho que se possa seguir para por fim, explicá-lo.
Uma das constatações mais simples que podemos fazer é que o céu é escuro, à noite. É interessante notar que esse fato, sobre o qual ninguém opõe dúvidas, e que à primeira vista parece tão compreensível e óbvio para qualquer pessoa, tenha dado tanto o que pensar durante tanto tempo. Afinal, por que mesmo a noite é escura?
Avançando sobre o modelo Cartesiano, o primeiro estudioso que reconheceu as implicações da escuridão noturna foi o físico e astrônomo Johannes Kepler (1571-1630), em 1610. Kepler rejeitava veementemente a idéia de um universo infinito recoberto de estrelas, que nessa época estava ganhando vários adeptos principalmente depois da comprovação por Galileu Galilei de que a Via Láctea era composta de uma miríade de estrelas. Kepler usou o fato de que o céu é escuro à noite como argumento para provar que o universo era finito, como que encerrado por uma parede cósmica de matéria escura.

O tema foi revisitado por Edmund Halley (1656-1742) no século XVIII e por Heinrich Wilhelm Mattäus Olbers (1758-1840) em 1826 (ele também descobriu os dois asteróides, Palas (1802) e Vesta (1807)), quando passou a ser conhecido com o o“paradoxo de Olbers”.

Imaginemos o seguinte: primeiro, suponha que as estrelas estejam distribuídas de maneira uniforme em um espaço conceptualmente infinito. Para um observador em qualquer lugar (ponto de observação), o volume de uma esfera com centro nele aumentará com o quadrado do raio dessa esfera (dV = 4R2 dr). Portanto, à medida que ele olha mais longe, vê estrelas que crescem com o quadrado da distância. Como resultado, sua linha de visão sempre interceptará uma estrela, seja lá qual for a direção que ele olhe....


Como o brilho das estrelas cai com o quadrado da distância (conforme demonstrado por Johannes Kepler em Óptica, de 1604), enquanto o número de estrelas se incrementa com o quadrado da distância, podemos presumir que o céu deveria ser tão brilhante quanto a superfície de uma estrela média, pois estaria completamente coberto delas!

Mas obviamente não é isso que vemos e, portanto, o raciocínio está errado. Por que?
Algumas propostas de solução para o problema da escuridão:

1. A metéria interestelar (stardust) retém a luz das estrelas.

Essa foi a solução adotada pelo próprio Olbers. Seu problema é que, com o passar do tempo, à medida que fosse absorvendo radiação estelar, a matéria entraria em equilíbrio térmico com as estrelas, e passaria a brilhar tanto quanto elas....

2. A expansão do universo degrada a energia, de uma maneira que a luz de objetos muito distantes chega muito desviada para o vermelho e, portanto, muito fraca – e mesmo invisível (?)

O desvio para o vermelho ajuda na solução, pois sabe-se que o desvio é proporcional ao raio do Universo, mas a matemática contemporânea mostra que a degradação da energia pela expansão do universo não é suficiente para solucionar o paradoxo – afinal, falamos em desaparecimento e não apenas em escurecimento.

3. O universo não existiu por todo o sempre.
Essa é a solução por ora aceita para o Paradoxo de Olbers. Como o universo tem uma idade finita (iniciou-se com o dito big bang), e a luz tem uma velocidade finita, conclui-se a luz das estrelas mais distantes ainda não teve tempo de chegar até nós...Portanto, o universo que enxergamos é limitado no espaço, por ser finito no tempo – lembremos aqui que o tempo é a 5ª dimensão conhecida. Ora, sob esse ponto de vista, a escuridão da noite é uma prova de que o universo teve um início, um marco inicial, uma hora zero.

Usando-se a separação média entre as estrelas de 1 parsec, e o raio médio como o raio do Sol, de 700 000 km, obtém-se que o céu seria tão luminoso quanto a superfície do Sol se o Universo tivesse um raio de 2 ×1015 parsecs, equivalente a 6,6 ×1015 anos-luz. Como o Universo só tem 13,7 bilhões de anos, conclui-se que a idade finita do Universo é a principal explicação ao Paradoxo de Olbers. Por enquanto, claro.

terça-feira, outubro 24, 2006

Desvio para o vermelho

Francis Coppola forneceu mostras de seu gênio ao dar dimensões míticas a uma história cruel e atormentada sobre a juventude e a dilacerante passagem para a idade adulta. À sua maneira, quando estabeleceu seu set em Tulsa, no verão de 1983. Ele criou um clássico, um daqueles do cinema que vale a pena, uma jóia sobre a juventude perdida e a dura e desiludida visão de uma maturidade sem opções.

Baseado no romance homônimo de S.E. Hinton, que co-roteirizou seu texto para a versão cinematográfica, Rumble Fish é um dos melhores filmes de todos os tempos. Encapsulado numa embalagem de um filme adolescente, Rumble Fish é uma fábula seminal de nossos tempos, um retrato magnífico e em preto e branco – com ênfase nas sombras – da impossibilidade da volta e da fragilidade de nossas opções diante da realidade que nos envolve.
De início, o título em português, “O Selvagem da Motocicleta” é uma referência à imagem mítica do rapaz da motocicleta. Na verdade, o título “Rumble Fish”, significa peixe de briga, um peixe japonês capaz de atacar seu próprio reflexo na água. Trata-se uma metáfora fundamental para a compreensão do sentido da história.

Rusty-Jemes vive a romântica idealização da subcultura das gangues, que agoniza sem que ele o perceba. Participa de brigas e se projeta na fama mítica de seu irmão mais velho, o “Rapaz da Motocicleta” - a figura local lendária,que, depois de liderar as gangues da região, “nos bons velhos tempos”, foi embora para a Califórnia (aqui abre-se uma janela para a tradicional imagem da Califórnia como um lugar de sonhos, um ensolarado ponto de fuga, no ideário de uma América sombria e repressiva). Mas ele um dia volta, como em um mito grego. Ele retorna diferente. Cínico, desiludido, amargo. A beleza de Rumble Fish está disponível apenas para quem consegue a ver. O filme é sutil, insinuante. Ele brinca conosco, com nossa capacidade de não enxergarmos nem o que se coloca bem diante de nós. O rapaz da motocicleta revê seu pai, Denis “Easy Rider” Hopper, dilacerado pelo álcool e pela dor do abandono; encontra uma antiga namorada, uma mulher mais velha, professora de literatura, viciada em heroína – escombros de seu passado, que afinal produziu quem ele é. Lawrence Fishburne está ótimo como o traficante local. Tom Waits, impagável como o barman com ondas de filósofo, Benny. Diane Lane, novinha, maravilhosa. Mickey Rourke e Matt Dilon, perfeitos. Os dois irmãos perambulam pelos ícones de uma América vazia e arruinada. Por suas ruas desertas, bares, atalhos apenas para o desespero e a total consciência do vazio da vida que lhes fora reservada. Rusty o vê como um estranho, mas ainda persegue o mito que criou em sua imaginação equivocada. Mas não pode o seguir em seu último ato desesperado.

O visual estilizado do filme reproduz a visão do Rapaz da Motocicleta, "como uma TV em preto e branco com o volume baixo", que não consegue enxergar as cores e é quase surdo. Filmado quase inteiramente em preto e branco (com exceção em relação aos peixes, e uma e outra cena simbólica). Recursos eletrônicos são usados com moderação (cores, nuvens que passam velozes, o relógio que caminha inflexível, os travelings monocromáticos no céu) e trilha sombria de Stewart Coppland costura tudo de forma arrebatadora, nessa bela a angustiante viagem para uma fuga impossível. “Seu irmão é diferente de você, Rusty. Ele é louco” – adverte o pai, entre um gole e outro. Na bela seqüência final, os peixes coloridos explicam o porquê do nome do filme (Rumble Fish).

domingo, outubro 22, 2006

Novidades no front (e um velho conhecido)

O bom e velho rock já teve sua morte clínica decretada pelos antenados de plantão muitas vezes. Vez por outra tem um coitado repetindo por aí a ultrapassada ladainha de que rock é sinônimo de música “jovem” e de novidade – parâmetros que identificam a música pop, que, claro, o rock revolucionou completamente, embora hoje siga seu caminho peculiar, vez por outra, claro, adentrando nessas conhecidas searas. Quanto tempo vamos ter que engolir babaquices de quem não conhece nada de rock arrotando gratuitamente baboseiras como “o hip hop é o novo rock”, “o techno é o novo rock”, “a minha mãe é o novo rock” (sic), kkkkk...esse pessoal nem sequer percebe a contradição desgastada que emerge dessa comparação, esse papo de “ X é o novo rock”. Rock é rock, meus filhos...quem tá vindo agora, depois de tudo, que faça a sua própria História – carona só ontem. Que vivam as “revoluções” retrógadas que pululam por aí. Nesse tumultuado front, é interessante observar alguns trabalhos recentes. Sediado em Londres, O Razorlight, apresenta seu segundo álbum, homônimo. O disco vai muito bem na Inglaterra, e talvez com ele a banda ascenda ao primeiro escalão, o que seria salutar para cena britânica – mas aí a qualidade estaria em xeque, claro. Note-se que foi usado o termo sediada em Londres, pois o line-up do Razorlight conta com um sueco e um norte americano, ao lado dos bretões. O som da banda pode ser considerado retrô, eighties old style, o que sempre é muito bom de se ouvir. De cara, o play engana, parece uma banda obscura lá de 87. As guitarras limpas, estaladas, a bateria marcial, urgente, o vocal solto e cool, as letras sentimentais.... tá tudo lá, numa nova exploração daquele universo fascinante. As composições são muito boas, e tendem para um som pop muito mais americano do que inglês. Esse é o momento da banda. Ao falar em som americano, o rock clássico ganha mais uma obra de grande qualidade, o “Highway Companion”, do sempre bom Tom Petty. Discípulo do rock fundamentalista ianque, Petty pela terceira vez consecutiva grava sem os seus Heartbreakers (da banda só diz presente o guitarrista Mike Campbell), mas, nesse particular, acredito que os seus dois últimos álbuns, “Full Moon Fever” de 1989 e “Wildflowers” de 1994, são seus melhores trabalhos, numa análise orgânica - não estou falando de hits. Mas “Highway Companion”, apesar de recente, já demonstra capacidade de se unir a eles. A mesclagem de diferentes estilos, embalada pelos clássicos acordes abertos da Rickenbaker de Petty, sem falar em sua voz Dylanesca, continua no ponto. Ainda bem. Vindo da Austrália, assíduo celeiro de boas bandas, o Wolfmother vive seu hype com um precocemente clássico primeiro álbum, editado localmente no ano de 2004 e lançado no mercado norte-americano e europeu esse ano. Também homônimo, o trabalho de estréia do power trio é impressionante, por várias razões. De início, provoca uma sensação de que descobrimos uma cápsula do tempo, como ocorre com o Razorlight, só que nesse caso a viagem é mais profunda, nos levando para o hardão progressivo dos 70 – mudanças rítmicas, estruturas recortadas, stoner sound, órgão hammond, Les Pauls, letras místicas. Depois, ao se constatar que a a banda foi formada em 2000, décadas depois do que se acredita ao ouvir seu som, exala uma maturidade difícil de encontrar em uma banda iniciante, apesar do vocal emular ostensivamente Ozzy. Para quem se sentia órfão de lendas como o Blue Cheer, vale conferir. AGORA, ATENÇÃO: é hora de catar a obra-prima do Jesus and Mary Chain, Psychocandy (1985), a pedra de toque da geração sônica, e um dos grandes clássicos do rock. Para a minha geração, esse álbum foi o Velvet Underground and Nico. Claro que depois eu conheci o pai de todos, e então vi como tudo começou. Mas o lance do Psychocandy é afetivo, mesmo – era ouvir e adorar loucamente, simples assim. Ali tá o mapa da mina, a urgência e o barulho branco que mais uma vez tornaram toda uma cena musical possível, a ponte entre o Velvet, Phil Spector e o Beach Boys, entre o texto e a música, entre o silêncio e o barulho, o amor e a pornografia. A bateria seca, o baixo limpo e abafado...e aquela parede maravilhosa de guitarras noise... Esse som magnífico, construído pelos irmãos Reid (Jim, voz, e William, guitarras) com Douglas Hart no baixo e Bobby Gillespie (que depois formou o Primal Scream) na bateria, sai agora pela primeira vez no Brasil. Dá pena ver nos supermercados da vida. É como se um pedaço de nossa alma estivesse no balcão do açougue.

domingo, outubro 15, 2006

Outras viagens


O que é um rebelde?
- Um homem que sabe dizer não
Albert Camus
________________________________


Estradas, paisagens novas, distância de referências ...o imaginário sempre encontra um nova maneira de se expressar através das janelas que os grandes espaços vazios constroem. A simples vontade de partir remete a uma eterna redescoberta, um novo começo. Nesse tipo de jornada, três livros dionisíacos muito interessantes, que encerram diferentes viagens e diferentes descobertas...e que se combinam de uma forma apenas percebida após sua leitura. Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas (Ed. Paz e Terra, 1984)., de Robert M. Pirsig, é um achado, um livro único que deve ser compreendido em suas várias dimensões. O autor, acompanhado por seu filho de 12 anos, Chris, realizou uma extensa viagem de motocicleta através da América. A tônica não seria para onde ele ía, mas como ía. O título do livro não entrega seu conteúdo altamente filosófico – não, não se trata de guia para motociclistas budistas -, pois, além da viagem concreta a factual, uma grande viagem imaginária, do pensamento, também avança através das desérticas rodovias, uma fina análise do nosso pós modernismo social, em uma busca por algum tipo de equilíbrio e sobre o que seriam valores. “A motocicleta funciona inteiramente de acordo com leis racionais, e o estudo da arte da manutenção de motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade”, com esse norte, o autor trabalha na busca de uma funcionalidade da vida, diante das contradições de nossas idéias, observando que as pessoas mergulham em áreas irracionais do pensamento (ocultismo, misticismo, drogas) porque sentem que a razão clássica já não sabe lidar com os novos fatos que são cada vez mais reais – Ora, o mundo inteiro estaria apenas em nossa mente. Como lembramos de Kant, embora todo conhecimento comece com a experiência, não se pode deduzir que ele tenha origem na mesma...em suas páginas encontramos profundas reflexões sobre as grandes verdades analíticas que o senso comum nos impõe - e o que essas mesmas verdades analíticas nos fazem perder, através das observações do autor, pontuadas pelas intervenções de um personagem imaginário, o fantasmagórico Fedro. Pirsig constrói uma narrativa cativante e de final extraordinário. Dreamland - Viagens no Mundo Secreto de Roswell e Área 51(2000), de Phil Patton, mais conhecido como colunista da Esquire. Aqui, trata-se de um relato sobre uma viagem a um local onde o autor não poderia de fato ir - um lugar no deserto de Nevada do tamanho da Bélgica, e que oficialmente não existe. Lá estaria a base aérea onde são feitos os testes de vôo de aeronaves militares experimentais norte-americanas ultra-secretas (as lendárias séries - X) e ao mesmo tempo, o local onde as pessoas que crêem em teorias de conspiração acreditam que o Pentágono esconderia OVNIs e alienígenas. Esse lugar é chamado Dreamland - ou Área 51. Trata-se de uma região interditada, protegida por um perímetro de silêncio denominado “The Box”, uma Disneylândia hi-tech, onde pilotos lendários e fantásticos aviões secretos dividiriam o espaço aéreo com espaçonaves alienígenas...um estudo apaixonado sobre o imaginário dos adeptos das teorias da conspiração, dos fanáticos por tecnologia e dos gênios aeronáuticos, tribos divergentes e altamente sectárias, mas que convergiram continuamente para Dreamland, criando uma mítica própria e fascinante para o local, um mundo à parte da realidade e governado por regras bem peculiares. Patton examina como esse lugar foi construído, quem foram os seus criadores e seus principais atores. Para mim, um grande fã da engenharia aeronáutica radical da Skunk Works, Dreamland é um retrato de um mundo estranho e intrigante, onde cada página misteriosa pode ser saboreada como o ruído daqueles motores fantásticos e o prazeroso gosto de novas descobertas. Por fim, a Conrad lançou no Brasil Memórias de um Anarquista Japonês, de Osugi Sakae. Além da história da formação de um rebelde, um retrato dos primórdios do movimento socialista e anarquista no Japão, cuja sociedade é famosa pela rigidez. Sakae viveu os tempos do final do século XIX e início do século XX. Suas memórias são um raro canal para apreciarmos os desconhecidos movimentos revolucionários japoneses, da coragem daqueles que os perpetuaram e da fluidez de suas idéias pessoais. Individualista e irônico, escreveu pérolas como “Eu gosto do espírito. Seja como for, geralmente detesto quando o espírito é transformado em teoria. Detesto porque nessa passagem para a teoria, ele freqüentemente se torna servil, um colaborador em harmonia com a realidade social presente. Porque isso é uma fraude. Eu odeio o que os cientistas políticos e filósofos chamam democracia e humanismo. Fico doente só de ouvi-los. Eu odeio o socialismo também. E pela mesma razão, eu odeio um pouco o anarquismo. O que eu mais gosto é a ação cega da humanidade: a explosão de espírito."

segunda-feira, outubro 09, 2006

AD ASTRA ET ULTRA




"TODOS SÃO LIVRES PARA ESPECULAR À VONTADE SOBRE O SIGNIFICADO FILOSÓFICO E ALEGÓRICO DE 2001" - Stanley Kubrick



Dizer que 2001 – Uma Odisséia no Espaço é o melhor filme de Ficção Científica já feito pode parecer redundante, mas confesso que me sobram algumas dúvidas para afirmar algo nesse sentido. Entretanto, isso não importa. Ele é um dos filmes eternos do gênero, e a obra mais radical de Kubrick – e justa para com o mais radical gênero literário.
2001 não é um filme fácil, suas idéias complexas e sua visão da evolução permanecem instigantes e abertas a mil interpretações – é pegar ou largar. Seu conceito mítico, fruto da colaboração de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, é visionário e nunca depois foi igualado – e é emocionante, à sua maneira peculiar.
Em linhas gerais, seu argumento é baseado no conto “A Sentinela” (The Sentinel), de Clarke. Poucas vezes a Ficção Científica encontrou, no cinema, um veículo tão bem-acabado quando 2001. O conceito do enigmático monolito negro que permeia a história nasceu de um outro conto seu, “A Muralha das Trevas”: "Quando Shervane olhou para cima, em direção àquela monstruosa chapa de ébano que tanto perturbara sua mente, ela lhe pareceu suspensa e prestes a esmagá-lo com seu peso. Com dificuldade, ele afastou os olhos da visão hipnótica e se aproximou para examinar o material de que era constituída. (...) era fria ao toque. Na verdade, mais fria do que deveria ser (...) Não parecia nem dura nem macia, já que a textura iludia o tato de um modo difícil de analisar." ("A Muralha das Trevas", de "O Outro Lado do Céu", p. 84, Ed. Nova Fronteira), sendo que o primeiro contato com o intrigante objeto negro, em 2001, ocorre na pré-historia.
Desenvolvida a quatro mãos, a história de 2001 permanece, no fundo, como uma grande indagação. O que é o monolito? Quais os limites do infinito? Qual o sentido da existência da humanidade? O que é a memória? Existe tempo? Ou apenas morte? Por que a Discovery viaja até Júpiter? Por que HAL enlouquece? A inteligência desconhecida é esperta e letal, como a humana? É pior, é caprichosa e indiferente... E quer aprender mais ainda. Em paz com o gênero literário que representa, o fime é um exercício de imaginação. 2001 começa nos abismos do passado humano, quando um monolito negro transmite a inteligência na aurora do desenvolvimento dos primeiros hominídeos. Em seguida, viajamos para o futuro, onde a evolução é questionada diante da natureza inexplicável das relações do homem com sua tecnologia, com o Cosmos - quando o contato com o desconhecido e o sentido do seu destino, parece indicar que a nossa existência pode ser apenas um erro.
Os avanços cibernéticos e luta para sobreviver em meio às suas próprias criações, as teorias sobre o amanhecer dos tempos, o renascimento através de uma tecnologia não-humana e inexplicável - Dave Bowman morre ao completar sua missão em Júpiter e retorna à vida na forma embrionária, livre de seu corpo – uma nova mudança? Uma evolução demarcada no arrepiante final, o encontro com a morte, precedido pela emocionante “última ceia do homem” – solitário e despojado de suas memórias, abandonando a humanidade, num rito desprovido de sentido religioso? Quebra-se o cálice, mas o vinho permanece o mesmo, a bela metáfora para a dualidade corpo e espírito, vista numa concepção inovadora e original. Esses temas traçam as grandes linhas de 2001, sempre em paralelo com a grande FC literária. Salvo em raríssimas exceções, o cinema nunca foi tão longe. Mesmo que 2001, uma vez que trata de aspectos da História humana, não corresponda aos padrões da FC Hard, seu conceito corresponde. 2001 é uma típica narrativa de FC Hard, mesmo que ambientada em nosso sistema solar – apenas aparentemente, pois logo, literalmente desdobra-se para o infinito - "meu Deus! Está cheio de estrelas!!" – a essência da prosa hard. Na realidade, esse particular afasta 2001 de boa parte da produção de filmes de FC, pois sua história segue as linhas da FC literária – radical, que caminhou a passos largos para cada vez mais distante do cinema: a esmagadora maioria da produção de FC é meramente aventuresca e ridícula. Conheço gente que adora livros do gênero, mas acha todos os filmes sci-fi, com exceção de 2001 e de Solaris (o russo, claro – outra obra monumental já apresentada aqui), imbecis. Vendo 2001 é fácil concordar com eles, mesmo que a sedução do pulp seja grande, e em várias produções menores possamos identificar conceitos da boa FC. Mas a cisão entre a ficção científica literária e a cinematográfica, que 2001 provou ser lamentável, é cada vez mais acentuada.
Plasticamente, a estética do filme é revolucionária: cenas limpas, espetaculares, futurismo obsoleto sem pudores, longos planos de imagens subjetivas, perfeitamente sincronizados com a trilha sonora magnífica, a psicodelia do “túnel de luz” – a passagem para outro universo, ou uma outra visão do universo? – e a revelação de que a odisséia espacial ocorre num plano muito mais profundo do que se imagina. Curiosidades, como o fato de que apenas 25 minutos depois de iniciado o filme se ouve as primeiras palavras, e ninguém sente falta disso antes – inclusive, dos 139 minutos do filme, apenas em 40 existem diálogos. Em grande parte, 2001 é uma experiência não verbal, um filho único, um laboratório de como se produzir cinema de uma forma nova. A fusão de som/imagem de 2001 em si é um exercício de vanguarda da arte cinematográfica. Lançou muitas técnicas de filmagem utilizadas posteriormente, como a filmagem em vídeo simultânea à película, a câmera ser carregada nas mãos, para acentuar a tensão dos momentos de suspense, o contraste de cores, todas esas inovações, depois de 2001, foram assimilados pela técnica de se fazer cinema.

A odisséia espacial ocorre num plano tudo menos óbvio, e questiona os limites do infinito, nosso e do Cosmos que nos cerca, na sua viagem através da própria eternidade – há melhor definição para a Ficção Científica?




terça-feira, outubro 03, 2006

Notas rápidas como a vida





Há um livro, sobre pegar a estrada e ir até um ponto onde não existe mais volta. Não uma volta em termos geográficos, mas um retorno existencial. Acordem, On The Road foi relançado no Brasil...
Bob Weir disse que seria um “rito de passagem”, algo nesse sentido. Trata-se de uma busca, uma viagem pessoal, à procura da individualidade esquecida em algum ponto - e tudo que isso implicaria: sexo livre, drogas e muita música, no caso do autor, o jazz . Jean-Louis Lébris de Kerouac, Jack Kerouac, também escreveu sobre a vida e a difícil passagem através dela...


Sob muitas dimensões, On The Road reflete o levante da Beat Generation, apesar de Jack Kerouac ser um cara inclassificável - no fundo um agregado dos Beatniks mais conceituais, como Ginsberg e Corso. EUA, anos 50...Os baby-boomers crescem com as TVs gigantes na frente da cara, o conservadorismo ía a mil por hora, a segurança do sistema ditava as normas na explosão de consumo e de intolerância velada, travestida em proteção, que eclodiu no pós-guerra. Os beatniks, marginais e poetas-marginais do final da década de 1940 e início dos anos 50, em Nova York e, logo em seguida, em San Francisco, eram os deslocados, também denominados Hipsters -, vinham desses subúrbios e dos imensos novos conjuntos habitacionais, reluzentes de novos, que surgiam ao logo das freeways e cercanias das grandes cidades. A vida artificial estalava suas novas maravilhas, TVs, eletrodomésticos, ídolos cinematográficos, revistas coloridas, carrões rabos-de-peixe, pessoas inexpressivas e vidas vazias...

_________________________________________________________________


Kerouac foi, na verdade, um romântico extremado e radical; e sua vida, um percurso em busca do impossível: a concretização de seus ideais, de uma ética da pureza, a ressurreição de seus personagens queridos, a recuperação do tempo perdido, da infância idílica, da inocência original do ser humano, da vitória sobre a morte. Nesse percurso, viajou por seu país e por outros lugares do mundo, viveu e atuou intensamente, para, ao fim, fechar-se em copas, recolher-se até morrer, isolado e incompreendido, aos 47 anos de idade”.
Claudio Willer


On The Road (no Brasil, Pé na Estrada, disponível na série pocket da LP&M), escrito na denominada “prosódia bop” – a sua autoral forma de narrativa que buscava levar para o papel o fluxo da consciência, a sucessão de imagens e idéias, o fruir do som e o ritmo das palavras, os valores fonéticos e prosódicos da língua falada, vivos e pulsantes, desconectados de seu sentido imediato – e de sua melodia - como os acordes do free jazz que tanto adorava. Trata-se do relato definitivo de como a beat generation não poderia caber nos estritos liames do novo modo de vida que se aperfeiçoava. Sob muitos aspectos, a contracultura ainda engatinhava, diluída e crua nos subterrâneos, onde aos poucos as sementes das rebeliões juvenis da década de 1960 eram lançadas. Ainda não havia o rock – existia o rockabilly, que criava sua face – mas havia o tépido jazz, mais precisamente, o free jazz, e a mítica da estrada, das freeways, de que algo, algo ainda acontecia – mas muito longe...a Beat Generation acabou por se constituir na última grande revolução literária, e em sua fúria, demonstrou o declínio que acometia esse gênero artístico, que nunca mais se recuperou. On The Road deu uma voz confessional à geração crescida durante a Segunda Guerra mundial, para quem os resultados desta e o mundo surgido após o sangrento conflito não eram suficientes. Mantém-se ainda hoje como um libelo de discordância e da busca da libertação das amarras do complicado mundo moderno – fala, digamos, sobre um estado de espírito.
Kerouac foi realmente um beat? Isso não importa. Sua obra foi, naquilo que os beatniks tiveram de mais sincero e instigante. Em seu período de reclusão que estendeu-se de sua crise em 1961 até sua morte em 1969, ele acreditava que apenas fora um cronista e expectador do levante que aconteceu naqueles anos. Ele tinha divergências profundas, no plano ideológico e da moral, com Ginsberg e muitos outros de seus contemporâneos. Além disso, sua literatura “de estrada” – On the Road, The Dharma Bums, Tristessa , Big Sur, Lonesome Traveller, Desolation Angels – reflete apenas um período de sua vida, e uma das várias facetas de sua complexa e contraditória personalidade, uma cisão que apareceu em outros aspectos e momentos de sua vida. Kerouac sempre transitava nos extremos. Passos de sua via-crucis, por assim dizer; assim como sua pedestalização como arauto beatnik, algo que ele nunca quis.

Sua obra é universal. Em cada um de nós pode está, talvez adormecido, o beat aventureiro e o adulto que deseja recuperar a infância. A eterna derrota contra o Tempo inflexível, a contradição entre o sujeito e o mundo onde este deve viver, as barganhas que negociamos com nós mesmos: aí estão linhas que não são exclusivas de Kerouac, mesmo que soberbamente transcritas em suas frases longas e sem pontuação - que ele não poderia cortar, pois, se as cortasse, o sangue jorraria...e não seria só o dele, o nosso também.





segunda-feira, setembro 25, 2006

Maior de que o sol....






John Coltrane é o saxtenorista mais fantástico do jazz. Nunca houve ninguém como ele. Nascido em Hamlet, Carolina do Norte, John William Coltrane começou a carreira tocando em big bands, após a Segunda Guerra Mundial. De 1955 a 1960 fez parte do histórico quinteto-sexteto de Miles Davis, tendo tocado em discos memoráveis, como Milestones e Kind of Blue, passando em seguida a liderar sua própria banda e gravar alguns dos mais arrepiantes momentos que o free jazz jamais conheceria.



________________________________________

No post anterior eu falei sobre tempo, e como a luz viaja através dele. De como hoje podemos abservar no céu as luzes de estrelas distantes, que muito depois de extintas, só agora seu brilho ilumina nossas noites. De uma maneira irresistível, esses conceitos me fizeram lembrar de John Coltrane. Tinha um texto escrito sobre ele, mas refletindo nos termos de como o tempo e a distância nos pregam peças, percebi uma nova ótica para observar a música desse gigante, de como ela também viaja através do tempo e, ao brilhar forte e ofuscante na nossa escuridão, também parece parte da eternidade. Em suma, John Coltrane é isso - parte da eternidade. Houve a vida, e houve o que ele criou. Coltrane mudou a maneira de se perceber a música, o que, convenhamos, não é pouco. Pobre de quem permanece sem reação diante de sua música - ele apareceu para ser um divisor, um aviso de que un novo passo fora dado. Um dia, Coltrane veio e tornou a antiga visão ultrapassada, estabelecendo um tipo de relação metafísica com a seqüência de acordes que compõem uma melodia, muitas vezes totalmente abstrata e dissonante - uma relação de profunda identificação e abstração. Na verdade, numa análise fria, sua obra parece o produto de um outro mundo, de alguma coisa fora de nossa realidade – de um futuro distante e intangível. Pois o tempo de Coltrane sempre cada vez mais é o que está por vir.
Sua primeira grande fase musical, tocando com Miles Davis, foi marcada por profundos abismos pessoais, aliados a um destruidor vício em heroína. Houve também um período em que ele atuou como sideman e parecia destinado a desaparecer. Entretanto, Coltrane, de uma maneira inexplicável, um dia assombrosamente emergiu de seu pesadelo, e, em 1957 fez sua primeira gravação como líder de banda.
Deixando o conjunto de Miles em 1960, Coltrane iniciou uma nova etapa montando seu legendário quarteto com McCoy Tyner
ao piano, Jimmy Garrison no contrabaixo e o baterista Elvin Jones, deflagrando uma ousada exploração de insuspeitas dimensões sonoras jazzísticas. Coltrane estebeleceu um estilo absolutamente próprio, onde predominavam as chamadas sheets of sound (camadas de som), que se compunham de longas frases de notas rápidas tocadas em legato. Coltrane trabalhava a partir de uma técnica assombrosa, que envolvia a desconstrução harmônica, em longos travelings de improvisações que contruíam muitas vezes paisagens sonoras atonais e estranhas, onde linhas tortuosas e solos climáticos se sobressaíam como cânticos magníficos, num tipo de esplendor indescritível. Essa direção musical coloca a produção de seu quarteto, entre 1960 e 1965 como um marco na história do jazz. As várias, longuíssimas e impressionantes versões de Coltrane para My Favorite Things, tema banal de Rodgers e Hammerstein, são fragmentos de uma genialidade cada vez mais difícil de ser compreendida.
Em 1965 o quarteto cria aquela que é considerada sua obra-prima, a suíte em quatro movimentos A Love Supreme. Conheci o som fenomenal de Coltrane com esse disco fabuloso, por meio de um K-7 de um colega meu. O disco foi gravado em apenas uma noite. Que coisa! Poucas vezes me vi tomado por impressões tão intensas – e me vi obsoleto, retrógado e limitado. Coltrane foi demais para mim! O ano de lançamento de A Love Supreme, 1965, marcou sua ligação com a vanguarda jazzística mais radical, quando se une a músicos free como o baterista Rashied Ali, os saxtenoristas Archie Shepp e Pharoah Sanders, entre outros. Ascension é uma outra obra-prima desse período, já desvinculado de qualquer harmonia tonal, explorando territórios inimagináveis.... Coltrane imprimiu às suas obras de 1965-1967 um forte conteúdo metafísico, quase mesmo religioso – na verdade, um sentimento contemplativo superior, doce e caótico, que parecia destinado a estabelecer alguma forma de conexão entre o homem e o cosmos que o cerca – isso embalado em acordes e dissonâncias de, por assim dizer, uma modernidade nunca antes alcançada por nenhum outro artista. Nessa época, ele já pressentia o fim. Morreu em 1967, aos 40 anos, de câncer no fígado. Após sua partida, uma grande quantidade de gravações inéditas foi sendo localizada e sistematicamente lançada, permitindo ao menos uma avaliação mais objetiva do quão monumental e impressionante é sua obra.
Sobre John Coltrane, escreveu André Francis: "Não poucos medíocres julgaram poder imitar Coltrane. Os que o imitam não passam de aproveitadores. (...) Muitos há que tocam e agem como ele (...) Mas falta-lhes a mesma fé." Uma fé estranha, que regatou a música dos bares enfumaçados e das madrugadas insones, exauridas após as noites intermináveis de todos os excessos, assim, como mágica,
de volta para as estrelas...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Luzes através do Tempo





As setas e os quadrados coloridos indicam a posição de IOK-1.
Saiu semana passada na Reuters, 13 de setembro, o anúncio de que cientistas, através do Telescópio Subaru identificaram a galáxia mais distante até o momento, a quase 13 bilhões de anos-luz. Acredita-se que a descoberta pode ajudar a explicar como as estrelas se formaram nos primórdios da existência do universo.
A galáxia, denominada IOK-1, é tão distante que as ondas de luz que chegam à Terra mostram-na como um sistema de estrelas que existia pouco depois do Big Bang, a explosão de energia que supostamente criou o universo conhecido, há mais de treze bilhões de anos.
Esse período, denominado pelos astrônomos como Idades Negras, correspondeu a formação das primeiras estrelas e galáxias, a partir das partículas elementares. Os cientistas nunca haviam conseguido observar diretamente registros desse estágio da formação do universo até agora.
Os astrônomos que operam o Telescópio Subaru, em Hilo (no Havaí, Est
ados Unidos), desenvolveram um filtro para captar a luz que durante bilhões de anos foi "esmagada" para o espectro vermelho pela expansão do universo - o chamado "desvio para o vermelho".
Os cientistas, que publicam suas conclusões numa recente edição da revista Nature, esperavam encontrar pelo menos seis galáxias semelhantes à IOK-1, que está a 12,88 bilhões de anos-luz (registre-se: um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, o equivalente a 9,46 trilhões de quilômetros). Os pesquisadores acharam só um objeto que puderam identificar como uma galáxia. Independentemente disso, a descoberta mostra que o universo mudou muito nos 60 milhões de anos que separam a IOK-1 das próximas galáxias mais antigas observadas da Terra, conforme os astrônomos. Os cientistas encontraram outro objeto semelhante ao IOK-1, mas não puderam confirmar se se trata de uma galáxia distante ou de outra coisa, como talvez um buraco negro.

sábado, setembro 16, 2006

Marte para sonhadores



Essa semana eu tive o estranho prazer em encontrar uma reedição do clássico “As Crônicas Marcianas” (Martian Chronicles), de Ray Bradbury, novamente disponível no Brasil. Digo que o prazer foi estranho pois, ao mesmo tempo que enche os olhos uma nova edição estalando numa estante como algo novo, algo a ser descoberto, é invariável o reflexo de olhar para os lados, para as pessoas em busca de livros didáticos para as suas pseudo-formações, ou pior, para aqueles que avidamente buscam o refugo literário definido como auto-ajuda, e indagar a mim mesmo: para quem se destina essa edição? Com que propósito esses livros são lançados? O minguado público apreciador desse tipo de obra já está abastecido, via sebos e mercados livres da vida. Acredito que talvez, essas edições se destinem à confecção de trabalhos acadêmicos de literatura inglesa, norte americana, ou pós graduações amorfas, produtos da avacalhação do ensino superior, ou outros fenômenos indesejáveis congêneres. Só pode ser isso. A capacidade de se deixar levar, encantar com esse tipo de narrativa, há muito foi perdida. Tem que existir um louco, um professor “estranho”, para receitar esses títulos “complicados” e o futuro da nação (ou, já os seus líderes, claro) ir buscá-los, primeiro nos sites especializados (êpa, não tem tradução...), não encontrar nada, perguntar nas livrarias e pronto! - As nossas sábias editoras enxergam um nicho para venderem uns mil exemplares ao longo de alguns anos, à preços exorbitantes. Aí está a estranheza do prazer de encontrá-los por aí, pérolas aos porcos da ocasião. Superado o mal-estar, há o descaso estético na apresentação do produto, uma obra de mais de 50 anos de publicação, recheada do lirismo e do futurismo obsoleto típico dos dias de sua concepção, vem embalada numa modorrenta moldura atual: ta lá a foto preto e branco do solo marciano, como aquelas tiradas pelo robô-jipe da NASA. Talvez queiram vender o livro como algo novo, ao invés de algo atemporal, o que lhe faria bem mais justiça. É interessante observar que todas essas ratadas estão baseadas na própria visão que a literatura de Ficção Científica recebe no Brasil. A FC é um gênero maldito aqui, algo que destoa da nossa prosa geral por fatores óbvios, entre eles um acentuado complexo de inferioridade técnica. Nesse terreno não dá para brincar de bom, aí o pessoal ataca. Faço aqui uma citação do professor Gustavo Bernardo, da UERJ, em seu ensaio “A Ficção Cética”, de 2004: “Desconfio que este paradoxo deriva menos dos números do mercado e mais da contaminação de nossa baixa auto-estima em outro terreno: se não produzimos ciência, se não temos sequer um Prêmio Nobel, como poderíamos escrever e publicar ficção científica com um mínimo de qualidade?”. Pois bem, superados esses conclaves, podemos (?) apreciar o livro apenas como a obra literária que ele é.


O material que compõe as Crônicas Marcianas foi publicado originalmente em revistas de pulp fiction na metade final da década de 1950, nos EUA, como histórias autônomas. Em determinado momento, elas foram reunidas por seu autor em um livro único, interligadas por pequenas peças narrativas, lhes dando, assim, a forma final de uma obra unitária. Trata-se de um relato imaginário da colonização de marte pelos homens da terra, e de suas estranhas e problemáticas relações com uma suposta civilização existente nesse planeta nosso vizinho. Nesse aspecto, as 26 narrativas transcendem a visão de homenzinhos verdes com antenas, discos voadores e outros clichês associados ao gênero. Bradbury, antes um escritor de fantasia que de FC (houve um período em que ele se apaixonou pela FC, mas foi curto, em tão longa carreira), nessa sua obra fez uma ponte com a linha dos mestres da FC hard: ele não se deteve em prever o futuro nem muito menos em ser realista ou crítico do nosso cotidiano. Antes, usou um hipotético futuro e um planeta Marte igualmente hipotético, onírico e psicodélico, para apreender, à sua maneira, o “sense of wonder” intrínseco à prosa maior da FC. Compreendido nessa dimensão, seu texto se desdobra numa obra cativante, que ora emociona e ora até desilude. Faz rir e chorar. O Marte de Bradbury existe em seu livro - poderia ser qualquer mundo hipotético, isso não importa - e suas crônicas persistem vivas através dos anos, embalando nossa imaginação com notas cada vez mais distantes – e isso é o que importa.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Hasta siempre!!



Acho interessante como o apelo da mídia, em especial da mídia especializada, subliminar, possui uma força tremenda, principalmente em quem acha que está isento desse tipo de influência. Tenho conversado com algumas pessoas, umas até mesmo que sacam algo de rock brasileiro, e praticamente nenhuma ouviu ou procurou conhecer o novo CD do Marcelo Nova, o fabuloso “Galope do Tempo” (Selo Ouver, nas melhoras casas do ramo). Uns escutam, acham o máximo, e fica nisso, talvez esperando um queima do disco por R$ 3,00, afinal não tá na Bizz, o cara não é gringo, etc. Outros nem querem saber. Bom, essas são coisas da vida, e Marcelo, como sempre, voa bem além das idiossincrasias desse pessoal, que, enfim, não corresponde ao seu verdadeiro público.
Galope do Tempo marca a volta de Marcelo, após 13 anos de sua última aventura no estúdio. Para gente como eu, confesso que essa espera foi desagradável, agravada pela idéia de que talvez o cara desistisse, caísse fora. Muita coisa pode acontecer nesse tempo, afinal. Tiveram os discos ao vivo, solo e com o Camisa, mas a fome era mesmo por sons inéditos. O aguardado “disco existencialista” do cara perigava ficar no vale sombrio das promessas. Mas eis que, um dia, o disco aparece como que por encanto. Descobri pela internet, e dois minutos depois já encomendava o meu. Simplesmente não dava para esperar, “ouvir primeiro”, essas tolices. Como um bom vinho, Marcelo a gente compra já conhecendo o sabor. Mas, justiça seja feita, dessa vez o cara caprichou.

O disco é conceitual, e versa sobre a existência do seu autor. Nessa direção, é interessante notar que nele não há nada com o apelo pop de Robocop, por exemplo. Trata-se um trabalho muito mais maduro e superior. Musicalmente, ele até poderia ser considerado um retorno ao rock visceral do Camisa, com um belo trampo de guitarra e bateria, enriquecido por pianos, violoncelos e outros mimos. Mas ele vai além. Seu conceito também é mais sombrio e carregado que naqueles idos do boom da grande banda baiana. As letras do cara, cada vez maiores (e melhores), acentuam o paralelo que eu gosto de fazer, entre Marcelo e Lou Reed: anunciadas, como que lidas em um texto em prosa;os instrumentos às vezes apenas constroem o clima, a cena que as narrativas descrevem. Autobiográfico, o trabalho alterna melancolia, saudosismo, revolta e reflexões que giram em torno da trajetória de alguém que insiste em desafiar o tempo sem, no entanto, compreender sua lógica indefinida.
Faixas como “Ninguém vai sair vivo daqui”, em que o cantor narra o primeiro contato com o livro “As portas da percepção”, de Huxley, e a faixa que encerra o álbum, a arrepiante “Canção da morte”, percebemos a dimensão do esmero de Marcelo, em versos como “Hei vizinha morte, sinto o seu ruído / Irmã morte, doce o seu gemido / Hei pássaro morte, bata as suas asas / A mante morte, sua cova é rasa/ Amiga morte eu vou para casa/ Velho avô morte/ Seu cheiro não esqueço/ Professora morte, eu lhe agradeço/ Por me mostrar, tudo tem preço/ Hei pai morte, mais um adeus/ Você fez, então, meu Deus/ Seus traços agora... são meus”.

Superada a difícil espera, resta-nos saciar os instintos com essa obra-prima do nosso tão combalido e decadente rock nacional, ao mesmo tempo em que renascem as velhas indagações em nossas cabeças “como será o próximo??”, afinal, treze anos é tempo demais....

terça-feira, setembro 12, 2006

Sons da areia e da praia



Ontem eu conversava no Messenger com uma amiga minha que há algum tempo mora no Havaí. Incrível como a distância e a falta de experiências em comum afasta as pessoas. Mas, em um dado momento, ela, que sabe que eu sou um grande fã do Grateful Dead, me disse que esteve em uma casa noturna lá, onde tinha um grande pôster de uma banda chamada The TriChromes. Ela não conhecia a banda, mas me disse que tinha no cartaz “featuring Bill Kreutzmann from The Grateful Dead”. Era a propaganda para um Show realizado lá no ano de 2002. Eu estava navegando e ouvindo no meu mp3 player o novo álbum do Mark Knopfler, Shan-gri-la. Bom, eu conheço o TriChromes, e, por uma estranha coincidência, a música solta e ensolarada do Shan-gri-la, naquele momento, fez uma ponte com o som dessa banda, uma dos alumni do Dead, formada pelo grande Bill Kreutzmann.
* * *
O The TriChromes nasceu em 2001. Quando o Grateful Dead deu uma parada em suas atividades, em conseqüência da morte de Jerry Garcia, Bill Kreutzmann experimentou uma mudança abrupta em sua vida: após 30 anos de atividade ininterrupta no Dead, ele mudou-se para o Havaí, e lá perdeu a noção do tempo, surfando, pescando, caminhando nas praias, lendo e “vendo a vida passar”. A paixão pela música o levou a participar de pequenos shows em casas noturnas e jams sem compromisso com músicos locais ou amigos de longa data que apareciam naquelas ilhas do pacífico, nada muito sério. O tempo seguiu e, aos poucos, a vontade de tocar foi ficando maior, como era de se esperar. No verão de 2000, Bill Kreutzmann participou da segunda encarnação do The Other Ones, reunida para o Furthur Festival daquele ano. Essa experiência reacendeu em Bill a vontade de partir para o seu meio de novo. Como ele disse após retornar ao Havaí, “Estou procurando voltar a tocar todas as noites...”. A fagulha fora lançada...
Ao mesmo tempo, Steve Parish, um dos mais antigos roadies do Dead, ensaiava febrilmente com Herbie Herbert, conhecido por trabalhar como manager de nomes como Santana, Steve Miller e Journey. Herbie, afastado dos mundo dos negócios, e um grande fã de jam bands além de músico não-profissional, desejava encarar o business musical “em cima de um palco, para variar...”, ele comentou, sorrindo, na Musician, depois da aventura do TriChromes. Na verdade, naquele tempo, Herbie havia produzido uma notável mudança em sua vida, reinventando a si mesmo como um bluesman e adotando o pseudônimo de Sy Klopps, para em seguida projetar-se no circuito de pequenos shows. Quando ocorreu de Parish e Herbie/Sy tocarem no Havaí, e de alguma forma encontrarem Bill Kreutzmann, a mágica se fez presente, surgindo daí o TriChromes. Após várias configurações, que incluiu até mesmo um velho conhecido de Herbie, o guitarrista Neal Schon - aquele que tocou com Santana no início dos anos 70 e depois foi para a corporate band Journey. Registre-se que Neal é uma figuraça, um cara que curte som de primeira e toca como poucos, sendo famoso por aparecer na noite de L.A. anônimo, para tocar em jams com músicos desconhecidos de casas noturnas locais. Outro cara que passou no TriChromes foi o conhecido baixista e doidaço Ira Walker. Oportunamente, a banda definiu um núcleo permanente, com o guitarrista Ralph Woodson (esse aí subiu no palco uma noite para uma jam e acabou ficando de vez com os caras) e o baixista Mike DiPirro. A química entre os músicos foi única e imediata, abastecida pelo amor à improvisação. Kreutzmann mergulhou com especial prazer naquele novo projeto. “A energia de Bill era simplesmente fantástica” Parish lembra. “Era como se fôssemos crianças de novo. Após ensaios de umas oito horas, Bill era o cara que chegava e dizia : ‘Ei, vamos, vamos adiante mais uma hora ou duas’”.

Aqueles shows sem compromisso no Havaí marcaram profundamente os músicos.

Em determinado momento, associados de longa data do Grateful Dead, como Robert Hunter e John Perry Barlow se aproximaram da banda, e contribuíram com letras e muitas idéias para o som. Em pouco tempo, eles já tinham material para um álbum, e assim foi feito, sendo o mesmo batizado com o nome da banda e produzido por L. Henry Sarmiento III, lançado de forma independente. The TriChromes é um biscoito fino, cheio de idéias iluminadas e forte instrumental. O som passa por óbvias influências do Grateful Dead, navegando pelo blues, surf music, música havaiana, e por aí vai. Os pontos altos são a inspirada “None So Blind,” a pujente “Iowa Soldier”, “Simply Nowhere”, com um estranho sabor de reggae e a Afro-pop “Stop, Drop and Roll”. Mas o disco todo é ótimo.

Após mais alguns shows, outros ventos sopraram. Nas estradas da vida, os velhos camaradas do Grateful Dead se reencontraram e decidiram continuar com a tradição da banda. Sem o Grateful, eles partiram de novo para a estrada, agora apenas como The Dead. E, mais uma vez, com eles partiram Bill Kreutzmann e Steve Parish, integrando a última (por ora) encarnação dos mortos agradecidos - uma história para um outro post. O TriChromes, assim, se dissipou em silêncio, e cada um seguiu seu caminho. Mas a memória das jams descontraídas e dos sons esculpidos nas areias das praias havaianas são um capítulo belo e instigante da história das bandas paralelas da profícua família do Grateful Dead....

sábado, setembro 09, 2006

Impressões em códigos

"Você viaja para reviver o seu passado? - Era, a esta altura, a pergunta do Kahn, que também podia ser formulada da seguinte maneira: Você viaja para reencontrar seu futuro?
Os outros lugares são um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá".

Ítalo Calvino
____________________________________________________________

Quando nos movemos através de idéias e conceitos, é interessante observar algumas singularidades que, a depender de cada raciocínio, deflagram diferentes reações naqueles que as vivenciam. Por exemplo, nós aprendemos que o acúmulo de conhecimento conduz a um aperfeiçoamento de um gênero de sabedoria, e que, às vezes, certos filamentos e rumos para um tipo de caminho podem se esgotar em si mesmos. Há uma contradição nesses dois caminhos para se chegar a algum tipo de conhecer. Cada vez mais é perceptível o impasse que deflagrou o declínio de nossa civilização. Ontem, numa conversa casual, tive mais uma vez a oportunidade refletir sobre os limites que, após amordaçarem a alma, agora destroem as últimas setas que identificam os caminhos e os atalhos para as jornadas que faziam a vida ainda valer a pena. Isso me lembra como o ser humano é conservador e cada vez mais atávico. Como em coloquei no post anterior, a depender da estrada, os caminhos de volta já foram fechados - nossa meta tem que ser seguir adiante. Ficamos apenas com as trilhas desbravadas, e a cada dia nossa capacidade de nelas permanecer é menor. Ainda virá outra revolução? As pessoas sentem medo, ou são estúpidas demais para raciocinarem de forma própria. Elas compram Niezstche, Huxley, Blake, Morrison, etc, como meros itens para sinalizar um suposto status de que são cultas, ou no máximo, de que são interessantes, e continuam em suas existências amorfas, uma vez que, enfim, nada daquilo tudo lhe tem alguma outra utilidade. Ou seja, tudo o que se procurou criar, descrever e mudar vira finalmente uma peça de vaidade fútil e estéril. Há uma nota triste em tudo isso. Lembro agora de um poema de Jim Morrison:

"Já não temos os dançarinos, os possessos.
A clivagem dos homens em atores e espectadores
É o fato crucial do nosso tempo. Obcecam-nos
Heróis que por nós vivem e nós punimos.
Ah! Se todas as rádios e televisões fossem
Desligadas, e todos os livros e quadros
Queimados já, todas as salas de espetáculos encerradas...
Essas artes de viver por procuração...

Contentamo-nos com a oferta, na nossa procura de
Sensações. Deu-se a metamorfose do corpo enlouquecido
Pela dança nas colinas num par de olhos
Rasgando a treva”.

Para o Rei Lagarto, ainda poderia haver um recomeço, algo que partisse de novo do zero. Creio que não. Devemos prosseguir de onde paramos. Talvez, como na lenda grega dos primeiros Tebanos, que surgem da terra, semeados por Cadmo com os dentes de uma serpente que matara seus soldados. Muito a descobrir, a explorar – mas por quem? Deitamos e contamos as estrelas, muitas delas já mortas a tantos bilhões de anos. Quais seriam suas impressões de viagem?
Não sabemos. Sabemos que só agora sua luz chega para clarear nossa noite. Talvez tarde demais, para nós. Vivemos outra noite, agora.

domingo, setembro 03, 2006

Histórias de viajantes pt.01





Falar, ou escrever sobre liberdade, é algo impossível, sem lembrar de EASY RIDER. Poucos filmes, para mim, conseguem transmitir sentimentos tão intensos. Lançado no ano do festival de Woodstock, 1969, ele foi filmado no ano dos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy. Naqueles dias, os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnam, Nixon chegava à presidência. Era o colapso do sonho hippie dos sixties. Na verdade, era mais, era o ocaso do próprio sonho do pós guerra norte-americano, naquilo que ele teve de mais ingênuo e sincero. O filme, hoje quando a gente o assiste, deve ser compreendido em suas múltiplas dimensões. Easy Rider pode ser definido com um road movie, um dos primeiros do estilo, um filme independente, daquela nova geração de diretores, já rompida com os grandes estúdios (e em busca de independência), direcionado para o público alternativo, basicamante uma aventura trágica e de final chocante. Mas ele também pode ser percebido como um manifesto da agonia de sua era. Pois Easy Rider se cristalizou através do tempo como uma relíquia beat, um ícone, um instantâneo da contracultura do seu tempo, ao mostrar a jornada iconográfica de seus dois anti-heróis, que montados em suas Harleys e movidos à drogas diversas, penetram no sombrio e desolado território de uma América bem diversa daquela de seus sonhos, em busca de uma liberdade conceitual e sem limites. No Brasil, seu título é “Sem Destino”.
Em seu caminho, eles atravessaram paisagens míticas do inconsciente norte-americano, como o Mountain Valley, cruzam várias cidades através das freeways, conhecem figuras pitorescas, prostitutas e comunidades hippies, ao som primoroso de artistas como Steppenwolf, Jimi Hendrix, The Band, Fraternity Of Man, The Byrds e Bob Dylan. A trilha sonora é extraordinária. Tenho a sorte de ter o LP, um dos mais bem conservados de minha coleção. O CD também saiu no Brasil, é perfeito para ouvir no carro, na estrada, rodando por acaso.

Os nomes dos dois principais personagens, Wyatt, apelidado de “Captain America” e Bill, evocam os lendários cowboys Wyatt Earp e Billy The Kid, ou mesmo Wild Bill Hickcock. Nossos heróis também buscam a fronteira, o território desconhecido do verdadeiro american dream. A trama, em si é simples de resumir: Wyatt e Bill compram cocaína no México, a vendem a um almofadinha norte-americano e, com a grana, partem para o festival Mardi Grass, em New Orleans. Na volta, São mortos por caipiras nos ermos do sul dos estados unidos. O sonho morria com eles.

Peter Fonda e Dennis Hopper estão perfeitos. Karen Black também está presente, ótima como sempre. A participação de Jack Nicholson, como um advogado alcoólatra de uma cidadezinha do interior é brilhante, e é de seu personagem, George Hanson, um dos mais marcantes diálogos, ao advertir os viajantes sobre a mentalidade à margem das freeways:

“Eles não têm medo de vocês, mas do que vocês representam. Para eles vocês representam a liberdade. Mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca diga a alguém que ele não é livre...porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é. Você é que corre perigo.”

Precisa dizer mais?

domingo, agosto 27, 2006

Letras Fantásticas pt. 01




William Hope Hogdson (1875-1918) nasceu no condado de Essex, na Inglaterra. Aos treze anos, deixou a severa casa paterna e fez-se ao mar, servindo por oito anos na marinha mercante britânica, viajando por todo o mundo como marujo e cabineiro. De volta a sua terra natal, empreendeu alguns negócios, mas não obteve êxito como comerciante ou fotógrafo. Começou nessa época a escrever seus primeiros contos de horror, conseguindo rapidamente alguma fama local, antes de mudar-se para a França. O texto de Hogdson ia muito além da temática tradicional do horror contemporâneo. Na realidade ele escrevia narrativas fantásticas, novelas estranhas e exuberantes, além de contos e poesia. Conta-se que sua personalidade era muito marcante, e que ele tinha um grande senso de humor, apesar de suas narrativas sugerirem uma personalidade melancólica e solitária. No início da Primeira Guerra Mundial, regressou à Inglaterra e alistou-se no exército britânico. Serviu na cavalaria real, tendo em seguida sido transferido para a artilharia, combatendo em Ypres. Lá, em um posto de observação, foi atingido por um obus. Seu corpo foi literalmente despedaçado, e seus restos mortais nunca foram encontrados.
Tinha então quarenta e dois anos.

A época vitoriana, para a produção literária britânica, significou uma ruptura com o romantismo, sobretudo na Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial, o utilitarismo e o realismo invadiram a produção literária. A narrativa gótica tradicional deu espaço para a história de fantasmas, o moderno conto de fantasmas onde se destacam a brevidade. Algum humor (negro, outras vezes bem ingênuo) e o realismo se encarregam da construção do caráter dos personagens. Ao lado de longas narrativas excepcionais, como Dracula (1897) de B. Stoker, e A Colina dos Sonhos - Hill of Dreams, de Arthur Machen (esse autor breve será analisado aqui, em especial no que se refere a sua obra “Ornamentos em Jade”), a narrativa fantástica encontrou refúgio nos contos mais curtos, como as produções de S. Le Fanu (1814-1873) e M. R. James (1862-1936), com os quais o conto de fantasmas alcançou seu apogeu. Com o início do século, cristalizou-se uma nova tendência, denominada por J. Bergier como “narrativa materialista do horror”. Aparecem Algernon Blackwood (1869-1951), Ambrose G. Bierce (1838-1914?), Robert W. Chambers (1865-1933), Lord Durisany (1878-1957) e Willian Hope Hodgson (1875-1918), e por último Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), sendo que esse último, fazendo uma magnífica síntese de todos eles, cria com sua personalidade, o horror cósmico moderno, onde o caos psicológico surge das profundezas do inconsciente, ao lado de conceitos afetos à ficção científica especulativa. Machen e Blackwood, como informou Stoker, pertenceram à sociedade secreta Golden Dawn. Ali, o ocultismo injetou em suas veias racionais uma nova de espécie de paganismo, que ganhou alma na mesclagem do mundo mítico dos contos de fadas remanescente da idade média com as mitologias orientais, estabelecendo um novo padrão de exotismo. Especialmente a exploração do panteão greco-romano em Machen, ao lado de semelhante temática em Lovecraft. Algernon Blackwood é creditado como o criador de um novo estilo de prosa pagã, mesmo que hoje em dia, seus textos pareçam conservadores dentro da estética da narrativa fantástica. Seus heróis sentem fascinação pelos elementos naturais, como a neve, o bosque, a água, os mitos da floresta e da criação. Essa concepção de foco sedimentou a narrativa sustentada na força de envolver o leitor em seu universo, fator mais importante do que a narrativa em si mesma. Machen, como quase todos os escritores de Gales, se sentiu atraído desde criança pelo paganismo sobrenatural, pelos vestígios celtas e lendas do interior intocado pelo catolicismo ou protestantismo. Em seus escritos se percebe o mal e o horror como algo ancestral, ligado ao início dos tempos. Fascinado por tal concepção, ele considerava que o caos primitivo ainda poderia ser evocado a partir de ritos ancestrais. Bierce enfocou especialmente o grotesco, o humor negro e a criação de mundos míticos como Carcosa. Chambers, em seu “King of Amarillo”, fala de um livro que não pode ser lido sem despertar forças ancestrais insuspeitas ao homem. Lovecraft integra todos esses elementos com o mundo onírico de Lord Dunsany, como de percebe em narrativas como "Celephais". Em sua obra, se percebe o horror e o fascínio do homem atual, que mesmo armado com a ciência, reconhece sua impotência em face de forças que estão além da razão - o inominável. Nesse caminho, ele se depara com entes ancestrais que reinaram na terra em épocas remotas, cuja existência convertem o homem em um parasita que se desenvolveu à sobra de entidades como Cthulhu, Azathot, Hastur, Dagon, Ithaqua e tantos outros. Um importante grupo de escritores entre os quais se destacam Robert Bloch, Frank Belknap Long, August Derleth e Clark Ashton Smith, entre outros, continuaram desenvolvendo suas idéias, demarcando o horror contemporâneo, que tem suas raízes na ficção científica mística.

Como disse Bachelard "(...) à medida que o horror submerge no inconsciente, à medida que perde seus contornos de terror clássico e se torna ainda mais pagão, se torna cada vez mais factível(...)”. Nesse rumo, o conto materialista de horror vai deixando de lado o aspecto gótico: o cadáver, o castelo, o zumbi, as portas que rangem, os fantasmas, para avançar no horror cotidiano e tecnológico, onde ele invariavelmente encontra a ficção científica.

Hodgson foi um dos pioneiros desse estilo. Em sua obre se encontram duas linhas definidas: os contos do mar, e a linha do horror cósmico, que surge do espaço profundo, unidas em alguns casos (como em Night Land) a técnicas que se identificam com a ficção científica. É possível que nenhum autor, exceto, talvez, Joseph Conrad (1857-1924) ou Herman Melville (1819-1891), expressassem de forma tão ardente a paixão pelo mar. A diferença entre eles está no sentido do mistério que as profundezas dos oceanos abrigam. Dois de seus romances tratam extensamente desse tema: The Boats of the "Glen Carrig" e Ghost Pirates. No último, a tripulação de uma escuna mercante se depara com um tipo de força estranha e mitológica, algo muito diverso do que o título sugere - piratas fantasmas - , enquanto o primeiro introduz uma modalidade estrutural inédita: o corte abrupto de situações. Escrito como o diário de um dos marinheiros náufragos em um gigantesco mar de sargaços povoado de monstros, começa de repente num adiantado momento do relato, como se as primeiras páginas houvessem sido perdidas. Acaba de forma trágica e abrupta, construindo um clima de fato real e verossímil. Night Land, é uma obra de ficção científica monumental, de umas duzentas mil palavras, que se passa em um mundo futuro milhões de anos à frente do nosso. O sol está morto e as trevas reinam sobre a terra. A humanidade se refugiou em um último reduto, uma pirâmide de metal impermeável. Trata-se da última e maior de todas as cidades humanas. E também será seu local de extinção. Após milhões de anos, estranhas criaturas se desenvolveram nas trevas e dominam o mundo escuro. Por séculos eles esperaram, até que as defesas dos homens caiam diante de suas investidas. O pesadelo de imagens em Night Land tem similaridade com alguns dos quadros apocalípticos de Hieronymus Bosch.

E, quanto a House on the Borderland, ("talvez a mais importante das obras de Hodgson", segundo H.P. Lovecraft), sem dúvida representa um marco bastante significativo da narrativa fantástica e livre de formas estilísticas estreitas. Aqui, o real e o que apenas pode ser imaginado brigam pela definição da completa dimensão do enredo. Trata-se de uma obra extraordinária.
Podemos dizer que esse texto apresenta influências notáveis, que passam por Stoker e H.G. Wells. Bram Stoker, também em seu livro Dracula (1897) utiliza um estilo indireto de inserir a narrativa no contexto da realidade. As informações sempre provêem de terceiros, que assim se prevalecem do truque psicológico de o próprio narrador, em princípio, não estar envolvido na trama fantástica, permitindo uma identificação maior do leitor. Da obra de H. G. Wells e de outros precursores da moderna ficção científica ele recorre a inúmeros elementos: a concepção da viagem no tempo, que em sua narrativa, ao invés de ser obtida por meios mecânicos, como uma máquina do tempo, tal evento se deve a forças misteriosas da natureza, mais de acordo com as concepções da fantasia clássica. Como na ilha do dr. Moreau, seres monstruosos e animais conceptos lutam com o homem. Em relação a Wells, observamos, também um sentido apocalíptico, a conduta enlouquecida dos invasores, a idéia de que uma destruição total se aproxima – o sol negro a que tudo consome num futuro indefinível. Claro que Hodgson utiliza tais elementos de forma única, e a narrativa em questão adianta técnicas inéditas ou pouco usuais para a sua época: o acúmulo de expectativas através de coisas comuns, cuidadosamente apresentadas, o horror físico, que aparece através de ruídos suspeitos, de sombras estranhas “(...)um reflexo distorcido da casa, cheio de possibilidades(...)”, que deságuam no fantástico em todo o seu esplendor. Dentro dessa nuance estilística, é necessário observar alguns aspectos importantes: O uso da primeira pessoa, que permite, aos olhos do leitor, a percepção da ambigüidade física e psicológica do narrador. A descrição do narrador é frugal e evasiva. Nem seu nome e apresentado, ele pode ser o próprio Hodgson, ou qualquer um. A presença da irmã do narrador (Mary) funciona como um fabuloso elemento de contraste, através de uma dúvida permanente: Mary parece uma personagem alheia aos caos que se instala. Afinal, qual a realidade que está se passando? O fantástico ocorre de fato ou provém da loucura febril do narrador? A esse respeito, W.Todorov escreveu: "o fantástico advém de um tipo de impressão variada ... frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural... (aquele que) que percebe o acontecimento opta intelectualmente, de forma instintiva, por uma das soluções possíveis, o que foge a regra constitui às vezes uma ilusão para os sentidos... a percepção humana cientificamente é um produto variado entre a percepção e o que a realidade objetivamente produziu”. Ainda sobre a questão da descrição breve dos caracteres e da ambientação, trata-se de um elemento narrativo fundamental de seu período, em tal corrente literária. Esse método consiste em narrar por omissão, onde aspectos que revelem época em que o texto foi escrito são omitidos. Essa técnica permite o estabelecimento de um élan essencial com a narrativa - e não com a História. Quem tentar da sua leitura vampirizar os fatos de sua época, fracassa miseravelmente. Se o texto de Hodgson fosse reescrito para os dias de hoje, ele poderia ser exatamente igual. É uma constatação desconcertante. A relação com a realidade é irrelevante para a história. Essa característica é uma das principais definidoras da science fiction hard, que parte do ponto de não especular sobre a nossa realidade, mas de criar uma outra. O texto é repetitivo, criando a impressão de um relato autêntico. O autor, na apresentação, avisa ao leitor que se absteve de literalizar o manuscrito, permitindo sua apreciação como algo autêntico e verossímil. Por fim, o final abrupto, utilizado anteriormente em "Glen Carrig". Hodgosn utiliza o tempo presente no final, para potencializar o horror final de sua narrativa. Até mesmo Lovecraft se viu atraído por essa técnica primorosa de construção narrativa. Encontramos esses elementos, por exemplo, no final de seu magnífico conto Dagon (1917). Diante dessa argumentação, é importante observar que Hodgson é um dos criadores da verve literária dos múltiplos estados de existência, da existência de dimensões sobrepostas que poderiam ser acessadas por passagens míticas. Diz R. Caillois : "... (o fantástico) trata de negar o espaço essencialmente geométrico: infinito, homogêneo, tridimensional, equivalente; ele trabalho com o tempo abstrato: infinito, irreversível, irreparável". Nesses termos, a “História de Ela” parece revelar também una influencia notável de Rider Haggard (1856-1925), na construção de uma personalidade indefinível, a personificação de um pensamento.

House on the Borderland, com o passar dos anos, tornou-se um tesouro esquecido pelos leitores comuns, e um marco fundamental da narrativa aberrante. R. Llopis disse que o mundo dos arquétipos coletivos de Jung nasceu dos pesadelos do horror moderno, e é mesmo notável como Hodgson utiliza esses mecanismos: nota-se a presença da noite espacial, o abismo insondável de onde surgem monstros híbridos, o proscrito que, na busca de conhecimento, encontra nada senão mais mistérios: o saber sobrenatural, que no homem clássico apenas pode provocar a morte ou a loucura. A presença da água como algo primordial e quase dotada de vida e índole própria. As viagens oníricas que despertam sentimentos indefinidos, de sonhos e pesadelos profundos. A completa impotência do homem e sua ciência presunçosa diante do cosmos indefinível, que por fim o destrói através de um evento natural, apenas para demonstrar que algo muito pior que a morte reclama seu lugar. Trata-se do que aqui se falou sobre percepção, afinal.
No Brasil, House on the Borderland permaneceu criminosamente inédita até 1996, em virtude de seu autor não está no panteão dos nomes mais populares nos mundos literários do Horror e da Ficção Científica. A única edição brasileira, traduzida como “A Casa Sobre o Abismo” saiu no estilo pulp, através da série Newton, desaparecendo logo em seguida. Na época, eu a conheci numa banca de revistas junto a outras preciosidades da mesma série, como Rimbaud e Stevenson. O texto era integral, e o livro, mesmo impresso na Itália e traduzido, custava R$ 2,00. O fato de não ser uma obra de um escritor conhecido como Poe a fez passar desapercebida pela crítica e público, como ocorre com a maioria das obras de fato relevantes. O próprio formato pulp da coleção não atraiu o interesse de nossos intelectualóides. Entusiasmado com o texto, só teria minha curiosidade saciada através da internet, onde por meio de e-books em espanhol e inglês, pude conhecer uma fração maior da obra brilhante e instigadora de William Hope Hogdson. Anos depois, em 2002, a Opera Graphica lançou uma adaptação quadrinizada da obra, dessa vez com o título traduzido como “A Casa do Fim do Mundo” desenhada por Richard Corben. O texto foi imperdoavelmente mexido por Simon Revelstroke, mas muito de sua força primitiva ainda está lá, emoldurado pelas cenas fortes, em preto e branco, criadas pelo traço refinado de Corben. Na verdade, recomendo a leitura dessa graphic novel apenas pelo excelente texto de introdução, a cargo do conhecido Alan Moore. Pois, com alguma sorte, quem tiver interesse, acha o exemplar da Newton em algum mercado livre da vida, ou até num sebo convencional. Talvez não o encontre, mas não é viagem em si o que importa. É o estado de espírito que ela provoca. Nessa busca, o leitor pode se deparar com um Lovecraft, um Arthur Machen, e tantos outros magníficos caminhos para tantas outras viagens. E seguir pelos aberrantes caminhos que sua imaginação (ou sua moral) puder permitir....