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O bom e velho rock já teve sua morte clínica decretada pelos antenados de plantão muitas vezes. Vez por outra tem um coitado repetindo por aí a ultrapassada ladainha de que rock é sinônimo de música “jovem” e de novidade – parâmetros que identificam a música pop, que, claro, o rock revolucionou completamente, embora hoje siga seu caminho peculiar, vez por outra, claro, adentrando nessas conhecidas searas. Quanto tempo vamos ter que engolir babaquices de quem não conhece nada de rock arrotando gratuitamente baboseiras como “o hip hop é o novo rock”, “o techno é o novo rock”, “a minha mãe é o novo rock” (sic), kkkkk...esse pessoal nem sequer percebe a contradição desgastada que emerge dessa comparação, esse papo de “ X é o novo rock”. Rock é rock, meus filhos...quem tá vindo agora, depois de tudo, que faça a sua própria História – carona só ontem. Que vivam as “revoluções” retrógadas que pululam por aí. Nesse tumultuado front, é interessante observar alguns t
rabalhos recentes. Sediado em Londres, O Razorlight, apresenta seu segundo álbum, homônimo. O disco vai muito bem na Inglaterra, e talvez com ele a banda ascenda ao primeiro escalão, o que seria salutar para cena britânica – mas aí a qualidade estaria em xeque, claro. Note-se que foi usado o termo sediada em Londres, pois o line-up do Razorlight conta com um sueco e um norte americano, ao lado dos bretões. O som da banda pode ser considerado retrô, eighties old style, o que sempre é muito bom de se ouvir. De cara, o play engana, parece uma banda obscura lá de 87. As guitarras limpas, estaladas, a bateria marcial, urgente, o vocal solto e cool, as letras sentimentais.... tá tudo lá, numa nova exploração daquele universo fascinante. As composições são muito boas, e tendem para um som pop muito mais a
mericano do que inglês. Esse é o momento da banda. Ao falar em som americano, o rock clássico ganha mais uma obra de grande qualidade, o “Highway Companion”, do sempre bom Tom Petty. Discípulo do rock fundamentalista ianque, Petty pela terceira vez consecutiva grava sem os seus Heartbreakers (da banda só diz presente o guitarrista Mike Campbell), mas, nesse particular, acredito que os seus dois últimos álbuns, “Full Moon Fever” de 1989 e “Wildflowers” de 1994, são seus melhores trabalhos, numa análise orgânica - não estou falando de hits. Mas “Highway Companion”, apesar de recente, já demonstra capacidade de se un
ir a eles. A mesclagem de diferentes estilos, embalada pelos clássicos acordes abertos da Rickenbaker de Petty, sem falar em sua voz Dylanesca, continua no ponto. Ainda bem. Vindo da Austrália, assíduo celeiro de boas bandas, o Wolfmother vive seu hype com um precocemente clássico primeiro álbum, editado localmente no ano de 2004 e lançado no mercado norte-americano e europeu esse ano. Também homônimo, o trabalho de estréia do power trio é impressionante, por várias razões. De início, provoca uma sensação de que descobrimos uma cápsula do tempo, como ocorre com o Razorlight, só que nesse caso a viagem é mais profunda, nos levando para o hardão progressivo dos 70 – mudanças rítmicas, estruturas recortadas, stoner sound, órgão hammond, Les Pauls, letras místicas. Depois, ao se constatar que a a banda foi formada em 2000, décadas depois do que se acredita ao ouvir seu som, exala uma maturidade difícil de encontrar em uma banda iniciante, apesar do vocal emular ostensivamente Ozzy. Para quem se sentia órfã
o de lendas como o Blue Cheer, vale conferir. AGORA, ATENÇÃO: é hora de catar a obra-prima do Jesus and Mary Chain, Psychocandy (1985), a pedra de toque da geração sônica, e um dos grandes clássicos do rock. Para a minha geração, esse álbum foi o Velvet Underground and Nico. Claro que depois eu conheci o pai de todos, e então vi como tudo começou. Mas o lance do Psychocandy é afetivo, mesmo – era ouvir e adorar loucamente, simples assim. Ali tá o mapa da mina, a urgência e o barulho branco que mais uma vez tornaram toda uma cena musical possível, a ponte entre o Velvet, Phil Spector e o Beach Boys, entre o texto e a música, entre o silêncio e o barulho, o amor e a pornografia. A bateria seca, o baixo limpo e abafado...e aquela parede maravilhosa de guitarras noise... Esse som magnífico, construído pelos irmãos Reid (Jim, voz, e William, guitarras) com Douglas Hart no baixo e Bobby Gillespie (que depois formou o Primal Scream) na bateria, sai agora pela primeira vez no Brasil. Dá pena ver nos supermercados da vida. É como se um pedaço de nossa alma estivesse no balcão do açougue.