Marte para sonhadores
Essa semana eu tive o estranho prazer em encontrar uma reedição do clássico “As Crônicas Marcianas” (Martian Chronicles), de Ray Bradbury, novamente disponível no Brasil. Digo que o prazer foi estranho pois, ao mesmo tempo que enche os olhos uma nova edição estalando numa estante como algo novo, algo a ser descoberto, é invariável o reflexo de olhar para os lados, para as pessoas em busca de livros didáticos para as suas pseudo-formações, ou pior, para aqueles que avidamente buscam o refugo literário definido como auto-ajuda, e indagar a mim mesmo: para quem se destina essa edição? Com que propósito esses livros são lançados? O minguado público apreciador desse tipo de obra já está abastecido, via sebos e mercados livres da vida. Acredito que talvez, essas edições se destinem à confecção de trabalhos acadêmicos de literatura inglesa, norte americana, ou pós graduações amorfas, produtos da avacalhação do ensino superior, ou outros fenômenos indesejáveis congêneres. Só pode ser isso. A capacidade de se deixar levar, encantar com esse tipo de narrativa, há muito foi perdida. Tem que existir um louco, um professor “estranho”, para receitar esses títulos “complicados” e o futuro da nação (ou, já os seus líderes, claro) ir buscá-los, primeiro nos sites especializados (êpa, não tem tradução...), não encontrar nada, perguntar nas livrarias e pronto! - As nossas sábias editoras enxergam um nicho para venderem uns mil exemplares ao longo de alguns anos, à preços exorbitantes. Aí está a estranheza do prazer de encontrá-los por aí, pérolas aos porcos da ocasião. Superado o mal-estar, há o descaso estético na apresentação do produto, uma obra de mais de 50 anos de publicação, recheada do lirismo e do futurismo obsoleto típico dos dias de sua concepção, vem embalada numa modorrenta moldura atual: ta lá a foto preto e branco do solo marciano, como aquelas tiradas pelo robô-jipe da NASA. Talvez queiram vender o livro como algo novo, ao invés de algo atemporal, o que lhe faria bem mais justiça. É interessante observar que todas essas ratadas estão baseadas na própria visão que a literatura de Ficção Científica recebe no Brasil. A FC é um gênero maldito aqui, algo que destoa da nossa prosa geral por fatores óbvios, entre eles um acentuado complexo de inferioridade técnica. Nesse terreno não dá para brincar de bom, aí o pessoal ataca. Faço aqui uma citação do professor Gustavo Bernardo, da UERJ, em seu ensaio “A Ficção Cética”, de 2004: “Desconfio que este paradoxo deriva menos dos números do mercado e mais da contaminação de nossa baixa auto-estima em outro terreno: se não produzimos ciência, se não temos sequer um Prêmio Nobel, como poderíamos escrever e publicar ficção científica com um mínimo de qualidade?”. Pois bem, superados esses conclaves, podemos (?) apreciar o livro apenas como a obra literária que ele é.

O material que compõe as Crônicas Marcianas foi publicado originalmente em revistas de pulp fiction na metade final da década de 1950, nos EUA, como histórias autônomas. Em determinado momento, elas foram reunidas por seu autor em um livro único, interligadas por pequenas peças narrativas, lhes dando, assim, a forma final de uma obra unitária. Trata-se de um relato imaginário da colonização de marte pelos homens da terra, e de suas estranhas e problemáticas relações com uma suposta civilização existente nesse planeta nosso vizinho. Nesse aspecto, as 26 narrativas transcendem a visão de homenzinhos verdes com antenas, discos voadores e outros clichês associados ao gênero. Bradbury, antes um escritor de fantasia que de FC (houve um período em que ele se apaixonou pela FC, mas foi curto, em tão longa carreira), nessa sua obra fez uma ponte com a linha dos mestres da FC hard: ele não se deteve em prever o futuro nem muito menos em ser realista ou crítico do nosso cotidiano. Antes, usou um hipotético futuro e um planeta Marte igualmente hipotético, onírico e psicodélico, para apreender, à sua maneira, o “sense of wonder” intrínseco à prosa maior da FC. Compreendido nessa dimensão, seu texto se desdobra numa obra cativante, que ora emociona e ora até desilude. Faz rir e chorar. O Marte de Bradbury existe em seu livro - poderia ser qualquer mundo hipotético, isso não importa - e suas crônicas persistem vivas através dos anos, embalando nossa imaginação com notas cada vez mais distantes – e isso é o que importa.

