Hasta siempre!!
Acho interessante como o apelo da mídia, em especial da mídia especializada, subliminar, possui uma força tremenda, principalmente em quem acha que está isento desse tipo de influência. Tenho conversado com algumas pessoas, umas até mesmo que sacam algo de rock brasileiro, e praticamente nenhuma ouviu ou procurou conhecer o novo CD do Marcelo Nova, o fabuloso “Galope do Tempo” (Selo Ouver, nas melhoras casas do ramo). Uns escutam, acham o máximo, e fica nisso, talvez esperando um queima do disco por R$ 3,00, afinal não tá na Bizz, o cara não é gringo, etc. Outros nem querem saber. Bom, essas são coisas da vida, e Marcelo, como sempre, voa bem além das idiossincrasias desse pessoal, que, enfim, não corresponde ao seu verdadeiro público.
Galope do Tempo marca a volta de Marcelo, após 13 anos de sua última aventura no estúdio. Para gente como eu, confesso que essa espera foi desagradável, agravada pela idéia de que talvez o cara desistisse, caísse fora. Muita coisa pode acontecer nesse tempo, afinal. Tiveram os discos ao vivo, solo e com o Camisa, mas a fome era mesmo por sons inéditos. O aguardado “disco existencialista” do cara perigava ficar no vale sombrio das promessas. Mas eis que, um dia, o disco aparece como que por encanto. Descobri pela internet, e dois minutos depois já encomendava o meu. Simplesmente não dava para esperar, “ouvir primeiro”, essas tolices. Como um bom vinho, Marcelo a gente compra já conhecendo o sabor. Mas, justiça seja feita, dessa vez o cara caprichou.
O disco é conceitual, e versa sobre a existência do seu autor. Nessa direção, é interessante notar que nele não há nada com o apelo pop de Robocop, por exemplo. Trata-se um trabalho muito mais maduro e superior. Musicalmente, ele até poderia ser considerado um retorno ao rock visceral do Camisa, com um belo trampo de guitarra e bateria, enriquecido por pianos, violoncelos e outros mimos. Mas ele vai além. Seu conceito também é mais sombrio e carregado que naqueles idos do boom da grande banda baiana. As letras do cara, cada vez maiores (e melhores), acentuam o paralelo que eu gosto de fazer, entre Marcelo e Lou Reed: anunciadas, como que lidas em um texto em prosa;os instrumentos às vezes apenas constroem o clima, a cena que as narrativas descrevem. Autobiográfico, o trabalho alterna melancolia, saudosismo, revolta e reflexões que giram em torno da trajetória de alguém que insiste em desafiar o tempo sem, no entanto, compreender sua lógica indefinida.
Faixas como “Ninguém vai sair vivo daqui”, em que o cantor narra o primeiro contato com o livro “As portas da percepção”, de Huxley, e a faixa que encerra o álbum, a arrepiante “Canção da morte”, percebemos a dimensão do esmero de Marcelo, em versos como “Hei vizinha morte, sinto o seu ruído / Irmã morte, doce o seu gemido / Hei pássaro morte, bata as suas asas / A mante morte, sua cova é rasa/ Amiga morte eu vou para casa/ Velho avô morte/ Seu cheiro não esqueço/ Professora morte, eu lhe agradeço/ Por me mostrar, tudo tem preço/ Hei pai morte, mais um adeus/ Você fez, então, meu Deus/ Seus traços agora... são meus”.
Superada a difícil espera, resta-nos saciar os instintos com essa obra-prima do nosso tão combalido e decadente rock nacional, ao mesmo tempo em que renascem as velhas indagações em nossas cabeças “como será o próximo??”, afinal, treze anos é tempo demais....
Galope do Tempo marca a volta de Marcelo, após 13 anos de sua última aventura no estúdio. Para gente como eu, confesso que essa espera foi desagradável, agravada pela idéia de que talvez o cara desistisse, caísse fora. Muita coisa pode acontecer nesse tempo, afinal. Tiveram os discos ao vivo, solo e com o Camisa, mas a fome era mesmo por sons inéditos. O aguardado “disco existencialista” do cara perigava ficar no vale sombrio das promessas. Mas eis que, um dia, o disco aparece como que por encanto. Descobri pela internet, e dois minutos depois já encomendava o meu. Simplesmente não dava para esperar, “ouvir primeiro”, essas tolices. Como um bom vinho, Marcelo a gente compra já conhecendo o sabor. Mas, justiça seja feita, dessa vez o cara caprichou.
O disco é conceitual, e versa sobre a existência do seu autor. Nessa direção, é interessante notar que nele não há nada com o apelo pop de Robocop, por exemplo. Trata-se um trabalho muito mais maduro e superior. Musicalmente, ele até poderia ser considerado um retorno ao rock visceral do Camisa, com um belo trampo de guitarra e bateria, enriquecido por pianos, violoncelos e outros mimos. Mas ele vai além. Seu conceito também é mais sombrio e carregado que naqueles idos do boom da grande banda baiana. As letras do cara, cada vez maiores (e melhores), acentuam o paralelo que eu gosto de fazer, entre Marcelo e Lou Reed: anunciadas, como que lidas em um texto em prosa;os instrumentos às vezes apenas constroem o clima, a cena que as narrativas descrevem. Autobiográfico, o trabalho alterna melancolia, saudosismo, revolta e reflexões que giram em torno da trajetória de alguém que insiste em desafiar o tempo sem, no entanto, compreender sua lógica indefinida.
Faixas como “Ninguém vai sair vivo daqui”, em que o cantor narra o primeiro contato com o livro “As portas da percepção”, de Huxley, e a faixa que encerra o álbum, a arrepiante “Canção da morte”, percebemos a dimensão do esmero de Marcelo, em versos como “Hei vizinha morte, sinto o seu ruído / Irmã morte, doce o seu gemido / Hei pássaro morte, bata as suas asas / A mante morte, sua cova é rasa/ Amiga morte eu vou para casa/ Velho avô morte/ Seu cheiro não esqueço/ Professora morte, eu lhe agradeço/ Por me mostrar, tudo tem preço/ Hei pai morte, mais um adeus/ Você fez, então, meu Deus/ Seus traços agora... são meus”.
Superada a difícil espera, resta-nos saciar os instintos com essa obra-prima do nosso tão combalido e decadente rock nacional, ao mesmo tempo em que renascem as velhas indagações em nossas cabeças “como será o próximo??”, afinal, treze anos é tempo demais....

