AD ASTRA ET ULTRA

"TODOS SÃO LIVRES PARA ESPECULAR À VONTADE SOBRE O SIGNIFICADO FILOSÓFICO E ALEGÓRICO DE 2001" - Stanley Kubrick
Dizer que 2001 – Uma Odisséia no Espaço é o melhor filme de Ficção Científica já feito pode parecer redundante, mas confesso que me sobram algumas dúvidas para afirmar algo nesse sentido. Entretanto, isso não importa. Ele é um dos filmes eternos do gênero, e a obra mais radical de Kubrick – e justa para com o mais radical gênero literário.
2001 não é um filme fácil, suas idéias complexas e sua visão da evolução permanecem instigantes e abertas a mil interpretações – é pegar ou largar. Seu conceito mítico, fruto da colaboração de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, é visionário e nunca depois foi igualado – e é emocionante, à sua maneira peculiar.
Em linhas gerais, seu argumento é baseado no conto “A Sentinela” (The Sentinel), de Clarke. Poucas vezes a Ficção Científica encontrou, no cinema, um veículo tão bem-acabado quando 2001. O conceito do enigmático monolito negro que permeia a história nasceu de um outro conto seu, “A Muralha das Trevas”: "Quando Shervane olhou para cima, em direção àquela monstruosa chapa de ébano que tanto perturbara sua mente, ela lhe pareceu suspensa e prestes a esmagá-lo com seu peso. Com dificuldade, ele afastou os olhos da visão hipnótica e se aproximou para examinar o material de que era constituída. (...) era fria ao toque. Na verdade, mais fria do que deveria ser (...) Não parecia nem dura nem macia, já que a textura iludia o tato de um modo difícil de analisar." ("A Muralha das Trevas", de "O Outro Lado do Céu", p. 84, Ed. Nova Fronteira), sendo que o primeiro contato com o intrigante objeto negro, em 2001, ocorre na pré-historia.
Desenvolvida a quatro mãos, a história de 2001 permanece, no fundo, como uma grande indagação. O que é o monolito? Quais os limites do infinito? Qual o sentido da existência da humanidade? O que é a memória? Existe tempo? Ou apenas morte? Por que a Discovery viaja até Júpiter? Por que HAL enlouquece? A inteligência desconhecida é esperta e letal, como a humana? É pior, é caprichosa e indiferente... E quer aprender mais ainda. Em paz com o gênero literário que representa, o fime é um exercício de imaginação. 2001 começa nos abismos do passado humano, quando um monolito negro transmite a inteligência na aurora do desenvolvimento dos primeiros hominídeos. Em seguida, viajamos para o futuro, onde a evolução é questionada diante da natureza inexplicável das relações do homem com sua tecnologia, com o Cosmos - quando o contato com o desconhecido e o sentido do seu destino, parece indicar que a nossa existência pode ser apenas um erro.
Os avanços cibernéticos e luta para sobreviver em meio às suas próprias criações, as teorias sobre o amanhecer dos tempos, o renascimento através de uma tecnologia não-humana e inexplicável - Dave Bowman morre ao completar sua missão em Júpiter e retorna à vida na forma embrionária, livre de seu corpo – uma nova mudança? Uma evolução demarcada no arrepiante final, o encontro com a morte, precedido pela emocionante “última ceia do homem” – solitário e despojado de suas memórias, abandonando a humanidade, num rito desprovido de sentido religioso? Quebra-se o cálice, mas o vinho permanece o mesmo, a bela metáfora para a dualidade corpo e espírito, vista numa concepção inovadora e original. Esses temas traçam as grandes linhas de 2001, sempre em paralelo com a grande FC literária. Salvo em raríssimas exceções, o cinema nunca foi tão longe. Mesmo que 2001, uma vez que trata de aspectos da História humana, não corresponda aos padrões da FC Hard, seu conceito corresponde. 2001 é uma típica narrativa de FC Hard, mesmo que ambientada em nosso sistema solar – apenas aparentemente, pois logo, literalmente desdobra-se para o infinito - "meu Deus! Está cheio de estrelas!!" – a essência da prosa hard. Na realidade, esse particular afasta 2001 de boa parte da produção de filmes de FC, pois sua história segue as linhas da FC literária – radical, que caminhou a passos largos para cada vez mais distante do cinema: a esmagadora maioria da produção de FC é meramente aventuresca e ridícula. Conheço gente que adora livros do gênero, mas acha todos os filmes sci-fi, com exceção de 2001 e de Solaris (o russo, claro – outra obra monumental já apresentada aqui), imbecis. Vendo 2001 é fácil concordar com eles, mesmo que a sedução do pulp seja grande, e em várias produções menores possamos identificar conceitos da boa FC. Mas a cisão entre a ficção científica literária e a cinematográfica, que 2001 provou ser lamentável, é cada vez mais acentuada.
Plasticamente, a estética do filme é revolucionária: cenas limpas, espetaculares, futurismo obsoleto sem pudores, longos planos de imagens subjetivas, perfeitamente sincronizados com a trilha sonora magnífica, a psicodelia do “túnel de luz” – a passagem para outro universo, ou uma outra visão do universo? – e a revelação de que a odisséia espacial ocorre num plano muito mais profundo do que se imagina. Curiosidades, como o fato de que apenas 25 minutos depois de iniciado o filme se ouve as primeiras palavras, e ninguém sente falta disso antes – inclusive, dos 139 minutos do filme, apenas em 40 existem diálogos. Em grande parte, 2001 é uma experiência não verbal, um filho único, um laboratório de como se produzir cinema de uma forma nova. A fusão de som/imagem de 2001 em si é um exercício de vanguarda da arte cinematográfica. Lançou muitas técnicas de filmagem utilizadas posteriormente, como a filmagem em vídeo simultânea à película, a câmera ser carregada nas mãos, para acentuar a tensão dos momentos de suspense, o contraste de cores, todas esas inovações, depois de 2001, foram assimilados pela técnica de se fazer cinema.
A odisséia espacial ocorre num plano tudo menos óbvio, e questiona os limites do infinito, nosso e do Cosmos que nos cerca, na sua viagem através da própria eternidade – há melhor definição para a Ficção Científica?
2001 não é um filme fácil, suas idéias complexas e sua visão da evolução permanecem instigantes e abertas a mil interpretações – é pegar ou largar. Seu conceito mítico, fruto da colaboração de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, é visionário e nunca depois foi igualado – e é emocionante, à sua maneira peculiar.
Em linhas gerais, seu argumento é baseado no conto “A Sentinela” (The Sentinel), de Clarke. Poucas vezes a Ficção Científica encontrou, no cinema, um veículo tão bem-acabado quando 2001. O conceito do enigmático monolito negro que permeia a história nasceu de um outro conto seu, “A Muralha das Trevas”: "Quando Shervane olhou para cima, em direção àquela monstruosa chapa de ébano que tanto perturbara sua mente, ela lhe pareceu suspensa e prestes a esmagá-lo com seu peso. Com dificuldade, ele afastou os olhos da visão hipnótica e se aproximou para examinar o material de que era constituída. (...) era fria ao toque. Na verdade, mais fria do que deveria ser (...) Não parecia nem dura nem macia, já que a textura iludia o tato de um modo difícil de analisar." ("A Muralha das Trevas", de "O Outro Lado do Céu", p. 84, Ed. Nova Fronteira), sendo que o primeiro contato com o intrigante objeto negro, em 2001, ocorre na pré-historia.
Desenvolvida a quatro mãos, a história de 2001 permanece, no fundo, como uma grande indagação. O que é o monolito? Quais os limites do infinito? Qual o sentido da existência da humanidade? O que é a memória? Existe tempo? Ou apenas morte? Por que a Discovery viaja até Júpiter? Por que HAL enlouquece? A inteligência desconhecida é esperta e letal, como a humana? É pior, é caprichosa e indiferente... E quer aprender mais ainda. Em paz com o gênero literário que representa, o fime é um exercício de imaginação. 2001 começa nos abismos do passado humano, quando um monolito negro transmite a inteligência na aurora do desenvolvimento dos primeiros hominídeos. Em seguida, viajamos para o futuro, onde a evolução é questionada diante da natureza inexplicável das relações do homem com sua tecnologia, com o Cosmos - quando o contato com o desconhecido e o sentido do seu destino, parece indicar que a nossa existência pode ser apenas um erro.
Os avanços cibernéticos e luta para sobreviver em meio às suas próprias criações, as teorias sobre o amanhecer dos tempos, o renascimento através de uma tecnologia não-humana e inexplicável - Dave Bowman morre ao completar sua missão em Júpiter e retorna à vida na forma embrionária, livre de seu corpo – uma nova mudança? Uma evolução demarcada no arrepiante final, o encontro com a morte, precedido pela emocionante “última ceia do homem” – solitário e despojado de suas memórias, abandonando a humanidade, num rito desprovido de sentido religioso? Quebra-se o cálice, mas o vinho permanece o mesmo, a bela metáfora para a dualidade corpo e espírito, vista numa concepção inovadora e original. Esses temas traçam as grandes linhas de 2001, sempre em paralelo com a grande FC literária. Salvo em raríssimas exceções, o cinema nunca foi tão longe. Mesmo que 2001, uma vez que trata de aspectos da História humana, não corresponda aos padrões da FC Hard, seu conceito corresponde. 2001 é uma típica narrativa de FC Hard, mesmo que ambientada em nosso sistema solar – apenas aparentemente, pois logo, literalmente desdobra-se para o infinito - "meu Deus! Está cheio de estrelas!!" – a essência da prosa hard. Na realidade, esse particular afasta 2001 de boa parte da produção de filmes de FC, pois sua história segue as linhas da FC literária – radical, que caminhou a passos largos para cada vez mais distante do cinema: a esmagadora maioria da produção de FC é meramente aventuresca e ridícula. Conheço gente que adora livros do gênero, mas acha todos os filmes sci-fi, com exceção de 2001 e de Solaris (o russo, claro – outra obra monumental já apresentada aqui), imbecis. Vendo 2001 é fácil concordar com eles, mesmo que a sedução do pulp seja grande, e em várias produções menores possamos identificar conceitos da boa FC. Mas a cisão entre a ficção científica literária e a cinematográfica, que 2001 provou ser lamentável, é cada vez mais acentuada.
Plasticamente, a estética do filme é revolucionária: cenas limpas, espetaculares, futurismo obsoleto sem pudores, longos planos de imagens subjetivas, perfeitamente sincronizados com a trilha sonora magnífica, a psicodelia do “túnel de luz” – a passagem para outro universo, ou uma outra visão do universo? – e a revelação de que a odisséia espacial ocorre num plano muito mais profundo do que se imagina. Curiosidades, como o fato de que apenas 25 minutos depois de iniciado o filme se ouve as primeiras palavras, e ninguém sente falta disso antes – inclusive, dos 139 minutos do filme, apenas em 40 existem diálogos. Em grande parte, 2001 é uma experiência não verbal, um filho único, um laboratório de como se produzir cinema de uma forma nova. A fusão de som/imagem de 2001 em si é um exercício de vanguarda da arte cinematográfica. Lançou muitas técnicas de filmagem utilizadas posteriormente, como a filmagem em vídeo simultânea à película, a câmera ser carregada nas mãos, para acentuar a tensão dos momentos de suspense, o contraste de cores, todas esas inovações, depois de 2001, foram assimilados pela técnica de se fazer cinema.
A odisséia espacial ocorre num plano tudo menos óbvio, e questiona os limites do infinito, nosso e do Cosmos que nos cerca, na sua viagem através da própria eternidade – há melhor definição para a Ficção Científica?

