domingo, agosto 27, 2006

Letras Fantásticas pt. 01




William Hope Hogdson (1875-1918) nasceu no condado de Essex, na Inglaterra. Aos treze anos, deixou a severa casa paterna e fez-se ao mar, servindo por oito anos na marinha mercante britânica, viajando por todo o mundo como marujo e cabineiro. De volta a sua terra natal, empreendeu alguns negócios, mas não obteve êxito como comerciante ou fotógrafo. Começou nessa época a escrever seus primeiros contos de horror, conseguindo rapidamente alguma fama local, antes de mudar-se para a França. O texto de Hogdson ia muito além da temática tradicional do horror contemporâneo. Na realidade ele escrevia narrativas fantásticas, novelas estranhas e exuberantes, além de contos e poesia. Conta-se que sua personalidade era muito marcante, e que ele tinha um grande senso de humor, apesar de suas narrativas sugerirem uma personalidade melancólica e solitária. No início da Primeira Guerra Mundial, regressou à Inglaterra e alistou-se no exército britânico. Serviu na cavalaria real, tendo em seguida sido transferido para a artilharia, combatendo em Ypres. Lá, em um posto de observação, foi atingido por um obus. Seu corpo foi literalmente despedaçado, e seus restos mortais nunca foram encontrados.
Tinha então quarenta e dois anos.

A época vitoriana, para a produção literária britânica, significou uma ruptura com o romantismo, sobretudo na Inglaterra, onde o desenvolvimento industrial, o utilitarismo e o realismo invadiram a produção literária. A narrativa gótica tradicional deu espaço para a história de fantasmas, o moderno conto de fantasmas onde se destacam a brevidade. Algum humor (negro, outras vezes bem ingênuo) e o realismo se encarregam da construção do caráter dos personagens. Ao lado de longas narrativas excepcionais, como Dracula (1897) de B. Stoker, e A Colina dos Sonhos - Hill of Dreams, de Arthur Machen (esse autor breve será analisado aqui, em especial no que se refere a sua obra “Ornamentos em Jade”), a narrativa fantástica encontrou refúgio nos contos mais curtos, como as produções de S. Le Fanu (1814-1873) e M. R. James (1862-1936), com os quais o conto de fantasmas alcançou seu apogeu. Com o início do século, cristalizou-se uma nova tendência, denominada por J. Bergier como “narrativa materialista do horror”. Aparecem Algernon Blackwood (1869-1951), Ambrose G. Bierce (1838-1914?), Robert W. Chambers (1865-1933), Lord Durisany (1878-1957) e Willian Hope Hodgson (1875-1918), e por último Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), sendo que esse último, fazendo uma magnífica síntese de todos eles, cria com sua personalidade, o horror cósmico moderno, onde o caos psicológico surge das profundezas do inconsciente, ao lado de conceitos afetos à ficção científica especulativa. Machen e Blackwood, como informou Stoker, pertenceram à sociedade secreta Golden Dawn. Ali, o ocultismo injetou em suas veias racionais uma nova de espécie de paganismo, que ganhou alma na mesclagem do mundo mítico dos contos de fadas remanescente da idade média com as mitologias orientais, estabelecendo um novo padrão de exotismo. Especialmente a exploração do panteão greco-romano em Machen, ao lado de semelhante temática em Lovecraft. Algernon Blackwood é creditado como o criador de um novo estilo de prosa pagã, mesmo que hoje em dia, seus textos pareçam conservadores dentro da estética da narrativa fantástica. Seus heróis sentem fascinação pelos elementos naturais, como a neve, o bosque, a água, os mitos da floresta e da criação. Essa concepção de foco sedimentou a narrativa sustentada na força de envolver o leitor em seu universo, fator mais importante do que a narrativa em si mesma. Machen, como quase todos os escritores de Gales, se sentiu atraído desde criança pelo paganismo sobrenatural, pelos vestígios celtas e lendas do interior intocado pelo catolicismo ou protestantismo. Em seus escritos se percebe o mal e o horror como algo ancestral, ligado ao início dos tempos. Fascinado por tal concepção, ele considerava que o caos primitivo ainda poderia ser evocado a partir de ritos ancestrais. Bierce enfocou especialmente o grotesco, o humor negro e a criação de mundos míticos como Carcosa. Chambers, em seu “King of Amarillo”, fala de um livro que não pode ser lido sem despertar forças ancestrais insuspeitas ao homem. Lovecraft integra todos esses elementos com o mundo onírico de Lord Dunsany, como de percebe em narrativas como "Celephais". Em sua obra, se percebe o horror e o fascínio do homem atual, que mesmo armado com a ciência, reconhece sua impotência em face de forças que estão além da razão - o inominável. Nesse caminho, ele se depara com entes ancestrais que reinaram na terra em épocas remotas, cuja existência convertem o homem em um parasita que se desenvolveu à sobra de entidades como Cthulhu, Azathot, Hastur, Dagon, Ithaqua e tantos outros. Um importante grupo de escritores entre os quais se destacam Robert Bloch, Frank Belknap Long, August Derleth e Clark Ashton Smith, entre outros, continuaram desenvolvendo suas idéias, demarcando o horror contemporâneo, que tem suas raízes na ficção científica mística.

Como disse Bachelard "(...) à medida que o horror submerge no inconsciente, à medida que perde seus contornos de terror clássico e se torna ainda mais pagão, se torna cada vez mais factível(...)”. Nesse rumo, o conto materialista de horror vai deixando de lado o aspecto gótico: o cadáver, o castelo, o zumbi, as portas que rangem, os fantasmas, para avançar no horror cotidiano e tecnológico, onde ele invariavelmente encontra a ficção científica.

Hodgson foi um dos pioneiros desse estilo. Em sua obre se encontram duas linhas definidas: os contos do mar, e a linha do horror cósmico, que surge do espaço profundo, unidas em alguns casos (como em Night Land) a técnicas que se identificam com a ficção científica. É possível que nenhum autor, exceto, talvez, Joseph Conrad (1857-1924) ou Herman Melville (1819-1891), expressassem de forma tão ardente a paixão pelo mar. A diferença entre eles está no sentido do mistério que as profundezas dos oceanos abrigam. Dois de seus romances tratam extensamente desse tema: The Boats of the "Glen Carrig" e Ghost Pirates. No último, a tripulação de uma escuna mercante se depara com um tipo de força estranha e mitológica, algo muito diverso do que o título sugere - piratas fantasmas - , enquanto o primeiro introduz uma modalidade estrutural inédita: o corte abrupto de situações. Escrito como o diário de um dos marinheiros náufragos em um gigantesco mar de sargaços povoado de monstros, começa de repente num adiantado momento do relato, como se as primeiras páginas houvessem sido perdidas. Acaba de forma trágica e abrupta, construindo um clima de fato real e verossímil. Night Land, é uma obra de ficção científica monumental, de umas duzentas mil palavras, que se passa em um mundo futuro milhões de anos à frente do nosso. O sol está morto e as trevas reinam sobre a terra. A humanidade se refugiou em um último reduto, uma pirâmide de metal impermeável. Trata-se da última e maior de todas as cidades humanas. E também será seu local de extinção. Após milhões de anos, estranhas criaturas se desenvolveram nas trevas e dominam o mundo escuro. Por séculos eles esperaram, até que as defesas dos homens caiam diante de suas investidas. O pesadelo de imagens em Night Land tem similaridade com alguns dos quadros apocalípticos de Hieronymus Bosch.

E, quanto a House on the Borderland, ("talvez a mais importante das obras de Hodgson", segundo H.P. Lovecraft), sem dúvida representa um marco bastante significativo da narrativa fantástica e livre de formas estilísticas estreitas. Aqui, o real e o que apenas pode ser imaginado brigam pela definição da completa dimensão do enredo. Trata-se de uma obra extraordinária.
Podemos dizer que esse texto apresenta influências notáveis, que passam por Stoker e H.G. Wells. Bram Stoker, também em seu livro Dracula (1897) utiliza um estilo indireto de inserir a narrativa no contexto da realidade. As informações sempre provêem de terceiros, que assim se prevalecem do truque psicológico de o próprio narrador, em princípio, não estar envolvido na trama fantástica, permitindo uma identificação maior do leitor. Da obra de H. G. Wells e de outros precursores da moderna ficção científica ele recorre a inúmeros elementos: a concepção da viagem no tempo, que em sua narrativa, ao invés de ser obtida por meios mecânicos, como uma máquina do tempo, tal evento se deve a forças misteriosas da natureza, mais de acordo com as concepções da fantasia clássica. Como na ilha do dr. Moreau, seres monstruosos e animais conceptos lutam com o homem. Em relação a Wells, observamos, também um sentido apocalíptico, a conduta enlouquecida dos invasores, a idéia de que uma destruição total se aproxima – o sol negro a que tudo consome num futuro indefinível. Claro que Hodgson utiliza tais elementos de forma única, e a narrativa em questão adianta técnicas inéditas ou pouco usuais para a sua época: o acúmulo de expectativas através de coisas comuns, cuidadosamente apresentadas, o horror físico, que aparece através de ruídos suspeitos, de sombras estranhas “(...)um reflexo distorcido da casa, cheio de possibilidades(...)”, que deságuam no fantástico em todo o seu esplendor. Dentro dessa nuance estilística, é necessário observar alguns aspectos importantes: O uso da primeira pessoa, que permite, aos olhos do leitor, a percepção da ambigüidade física e psicológica do narrador. A descrição do narrador é frugal e evasiva. Nem seu nome e apresentado, ele pode ser o próprio Hodgson, ou qualquer um. A presença da irmã do narrador (Mary) funciona como um fabuloso elemento de contraste, através de uma dúvida permanente: Mary parece uma personagem alheia aos caos que se instala. Afinal, qual a realidade que está se passando? O fantástico ocorre de fato ou provém da loucura febril do narrador? A esse respeito, W.Todorov escreveu: "o fantástico advém de um tipo de impressão variada ... frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural... (aquele que) que percebe o acontecimento opta intelectualmente, de forma instintiva, por uma das soluções possíveis, o que foge a regra constitui às vezes uma ilusão para os sentidos... a percepção humana cientificamente é um produto variado entre a percepção e o que a realidade objetivamente produziu”. Ainda sobre a questão da descrição breve dos caracteres e da ambientação, trata-se de um elemento narrativo fundamental de seu período, em tal corrente literária. Esse método consiste em narrar por omissão, onde aspectos que revelem época em que o texto foi escrito são omitidos. Essa técnica permite o estabelecimento de um élan essencial com a narrativa - e não com a História. Quem tentar da sua leitura vampirizar os fatos de sua época, fracassa miseravelmente. Se o texto de Hodgson fosse reescrito para os dias de hoje, ele poderia ser exatamente igual. É uma constatação desconcertante. A relação com a realidade é irrelevante para a história. Essa característica é uma das principais definidoras da science fiction hard, que parte do ponto de não especular sobre a nossa realidade, mas de criar uma outra. O texto é repetitivo, criando a impressão de um relato autêntico. O autor, na apresentação, avisa ao leitor que se absteve de literalizar o manuscrito, permitindo sua apreciação como algo autêntico e verossímil. Por fim, o final abrupto, utilizado anteriormente em "Glen Carrig". Hodgosn utiliza o tempo presente no final, para potencializar o horror final de sua narrativa. Até mesmo Lovecraft se viu atraído por essa técnica primorosa de construção narrativa. Encontramos esses elementos, por exemplo, no final de seu magnífico conto Dagon (1917). Diante dessa argumentação, é importante observar que Hodgson é um dos criadores da verve literária dos múltiplos estados de existência, da existência de dimensões sobrepostas que poderiam ser acessadas por passagens míticas. Diz R. Caillois : "... (o fantástico) trata de negar o espaço essencialmente geométrico: infinito, homogêneo, tridimensional, equivalente; ele trabalho com o tempo abstrato: infinito, irreversível, irreparável". Nesses termos, a “História de Ela” parece revelar também una influencia notável de Rider Haggard (1856-1925), na construção de uma personalidade indefinível, a personificação de um pensamento.

House on the Borderland, com o passar dos anos, tornou-se um tesouro esquecido pelos leitores comuns, e um marco fundamental da narrativa aberrante. R. Llopis disse que o mundo dos arquétipos coletivos de Jung nasceu dos pesadelos do horror moderno, e é mesmo notável como Hodgson utiliza esses mecanismos: nota-se a presença da noite espacial, o abismo insondável de onde surgem monstros híbridos, o proscrito que, na busca de conhecimento, encontra nada senão mais mistérios: o saber sobrenatural, que no homem clássico apenas pode provocar a morte ou a loucura. A presença da água como algo primordial e quase dotada de vida e índole própria. As viagens oníricas que despertam sentimentos indefinidos, de sonhos e pesadelos profundos. A completa impotência do homem e sua ciência presunçosa diante do cosmos indefinível, que por fim o destrói através de um evento natural, apenas para demonstrar que algo muito pior que a morte reclama seu lugar. Trata-se do que aqui se falou sobre percepção, afinal.
No Brasil, House on the Borderland permaneceu criminosamente inédita até 1996, em virtude de seu autor não está no panteão dos nomes mais populares nos mundos literários do Horror e da Ficção Científica. A única edição brasileira, traduzida como “A Casa Sobre o Abismo” saiu no estilo pulp, através da série Newton, desaparecendo logo em seguida. Na época, eu a conheci numa banca de revistas junto a outras preciosidades da mesma série, como Rimbaud e Stevenson. O texto era integral, e o livro, mesmo impresso na Itália e traduzido, custava R$ 2,00. O fato de não ser uma obra de um escritor conhecido como Poe a fez passar desapercebida pela crítica e público, como ocorre com a maioria das obras de fato relevantes. O próprio formato pulp da coleção não atraiu o interesse de nossos intelectualóides. Entusiasmado com o texto, só teria minha curiosidade saciada através da internet, onde por meio de e-books em espanhol e inglês, pude conhecer uma fração maior da obra brilhante e instigadora de William Hope Hogdson. Anos depois, em 2002, a Opera Graphica lançou uma adaptação quadrinizada da obra, dessa vez com o título traduzido como “A Casa do Fim do Mundo” desenhada por Richard Corben. O texto foi imperdoavelmente mexido por Simon Revelstroke, mas muito de sua força primitiva ainda está lá, emoldurado pelas cenas fortes, em preto e branco, criadas pelo traço refinado de Corben. Na verdade, recomendo a leitura dessa graphic novel apenas pelo excelente texto de introdução, a cargo do conhecido Alan Moore. Pois, com alguma sorte, quem tiver interesse, acha o exemplar da Newton em algum mercado livre da vida, ou até num sebo convencional. Talvez não o encontre, mas não é viagem em si o que importa. É o estado de espírito que ela provoca. Nessa busca, o leitor pode se deparar com um Lovecraft, um Arthur Machen, e tantos outros magníficos caminhos para tantas outras viagens. E seguir pelos aberrantes caminhos que sua imaginação (ou sua moral) puder permitir....