domingo, outubro 15, 2006

Outras viagens


O que é um rebelde?
- Um homem que sabe dizer não
Albert Camus
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Estradas, paisagens novas, distância de referências ...o imaginário sempre encontra um nova maneira de se expressar através das janelas que os grandes espaços vazios constroem. A simples vontade de partir remete a uma eterna redescoberta, um novo começo. Nesse tipo de jornada, três livros dionisíacos muito interessantes, que encerram diferentes viagens e diferentes descobertas...e que se combinam de uma forma apenas percebida após sua leitura. Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas (Ed. Paz e Terra, 1984)., de Robert M. Pirsig, é um achado, um livro único que deve ser compreendido em suas várias dimensões. O autor, acompanhado por seu filho de 12 anos, Chris, realizou uma extensa viagem de motocicleta através da América. A tônica não seria para onde ele ía, mas como ía. O título do livro não entrega seu conteúdo altamente filosófico – não, não se trata de guia para motociclistas budistas -, pois, além da viagem concreta a factual, uma grande viagem imaginária, do pensamento, também avança através das desérticas rodovias, uma fina análise do nosso pós modernismo social, em uma busca por algum tipo de equilíbrio e sobre o que seriam valores. “A motocicleta funciona inteiramente de acordo com leis racionais, e o estudo da arte da manutenção de motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade”, com esse norte, o autor trabalha na busca de uma funcionalidade da vida, diante das contradições de nossas idéias, observando que as pessoas mergulham em áreas irracionais do pensamento (ocultismo, misticismo, drogas) porque sentem que a razão clássica já não sabe lidar com os novos fatos que são cada vez mais reais – Ora, o mundo inteiro estaria apenas em nossa mente. Como lembramos de Kant, embora todo conhecimento comece com a experiência, não se pode deduzir que ele tenha origem na mesma...em suas páginas encontramos profundas reflexões sobre as grandes verdades analíticas que o senso comum nos impõe - e o que essas mesmas verdades analíticas nos fazem perder, através das observações do autor, pontuadas pelas intervenções de um personagem imaginário, o fantasmagórico Fedro. Pirsig constrói uma narrativa cativante e de final extraordinário. Dreamland - Viagens no Mundo Secreto de Roswell e Área 51(2000), de Phil Patton, mais conhecido como colunista da Esquire. Aqui, trata-se de um relato sobre uma viagem a um local onde o autor não poderia de fato ir - um lugar no deserto de Nevada do tamanho da Bélgica, e que oficialmente não existe. Lá estaria a base aérea onde são feitos os testes de vôo de aeronaves militares experimentais norte-americanas ultra-secretas (as lendárias séries - X) e ao mesmo tempo, o local onde as pessoas que crêem em teorias de conspiração acreditam que o Pentágono esconderia OVNIs e alienígenas. Esse lugar é chamado Dreamland - ou Área 51. Trata-se de uma região interditada, protegida por um perímetro de silêncio denominado “The Box”, uma Disneylândia hi-tech, onde pilotos lendários e fantásticos aviões secretos dividiriam o espaço aéreo com espaçonaves alienígenas...um estudo apaixonado sobre o imaginário dos adeptos das teorias da conspiração, dos fanáticos por tecnologia e dos gênios aeronáuticos, tribos divergentes e altamente sectárias, mas que convergiram continuamente para Dreamland, criando uma mítica própria e fascinante para o local, um mundo à parte da realidade e governado por regras bem peculiares. Patton examina como esse lugar foi construído, quem foram os seus criadores e seus principais atores. Para mim, um grande fã da engenharia aeronáutica radical da Skunk Works, Dreamland é um retrato de um mundo estranho e intrigante, onde cada página misteriosa pode ser saboreada como o ruído daqueles motores fantásticos e o prazeroso gosto de novas descobertas. Por fim, a Conrad lançou no Brasil Memórias de um Anarquista Japonês, de Osugi Sakae. Além da história da formação de um rebelde, um retrato dos primórdios do movimento socialista e anarquista no Japão, cuja sociedade é famosa pela rigidez. Sakae viveu os tempos do final do século XIX e início do século XX. Suas memórias são um raro canal para apreciarmos os desconhecidos movimentos revolucionários japoneses, da coragem daqueles que os perpetuaram e da fluidez de suas idéias pessoais. Individualista e irônico, escreveu pérolas como “Eu gosto do espírito. Seja como for, geralmente detesto quando o espírito é transformado em teoria. Detesto porque nessa passagem para a teoria, ele freqüentemente se torna servil, um colaborador em harmonia com a realidade social presente. Porque isso é uma fraude. Eu odeio o que os cientistas políticos e filósofos chamam democracia e humanismo. Fico doente só de ouvi-los. Eu odeio o socialismo também. E pela mesma razão, eu odeio um pouco o anarquismo. O que eu mais gosto é a ação cega da humanidade: a explosão de espírito."