terça-feira, setembro 12, 2006

Sons da areia e da praia



Ontem eu conversava no Messenger com uma amiga minha que há algum tempo mora no Havaí. Incrível como a distância e a falta de experiências em comum afasta as pessoas. Mas, em um dado momento, ela, que sabe que eu sou um grande fã do Grateful Dead, me disse que esteve em uma casa noturna lá, onde tinha um grande pôster de uma banda chamada The TriChromes. Ela não conhecia a banda, mas me disse que tinha no cartaz “featuring Bill Kreutzmann from The Grateful Dead”. Era a propaganda para um Show realizado lá no ano de 2002. Eu estava navegando e ouvindo no meu mp3 player o novo álbum do Mark Knopfler, Shan-gri-la. Bom, eu conheço o TriChromes, e, por uma estranha coincidência, a música solta e ensolarada do Shan-gri-la, naquele momento, fez uma ponte com o som dessa banda, uma dos alumni do Dead, formada pelo grande Bill Kreutzmann.
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O The TriChromes nasceu em 2001. Quando o Grateful Dead deu uma parada em suas atividades, em conseqüência da morte de Jerry Garcia, Bill Kreutzmann experimentou uma mudança abrupta em sua vida: após 30 anos de atividade ininterrupta no Dead, ele mudou-se para o Havaí, e lá perdeu a noção do tempo, surfando, pescando, caminhando nas praias, lendo e “vendo a vida passar”. A paixão pela música o levou a participar de pequenos shows em casas noturnas e jams sem compromisso com músicos locais ou amigos de longa data que apareciam naquelas ilhas do pacífico, nada muito sério. O tempo seguiu e, aos poucos, a vontade de tocar foi ficando maior, como era de se esperar. No verão de 2000, Bill Kreutzmann participou da segunda encarnação do The Other Ones, reunida para o Furthur Festival daquele ano. Essa experiência reacendeu em Bill a vontade de partir para o seu meio de novo. Como ele disse após retornar ao Havaí, “Estou procurando voltar a tocar todas as noites...”. A fagulha fora lançada...
Ao mesmo tempo, Steve Parish, um dos mais antigos roadies do Dead, ensaiava febrilmente com Herbie Herbert, conhecido por trabalhar como manager de nomes como Santana, Steve Miller e Journey. Herbie, afastado dos mundo dos negócios, e um grande fã de jam bands além de músico não-profissional, desejava encarar o business musical “em cima de um palco, para variar...”, ele comentou, sorrindo, na Musician, depois da aventura do TriChromes. Na verdade, naquele tempo, Herbie havia produzido uma notável mudança em sua vida, reinventando a si mesmo como um bluesman e adotando o pseudônimo de Sy Klopps, para em seguida projetar-se no circuito de pequenos shows. Quando ocorreu de Parish e Herbie/Sy tocarem no Havaí, e de alguma forma encontrarem Bill Kreutzmann, a mágica se fez presente, surgindo daí o TriChromes. Após várias configurações, que incluiu até mesmo um velho conhecido de Herbie, o guitarrista Neal Schon - aquele que tocou com Santana no início dos anos 70 e depois foi para a corporate band Journey. Registre-se que Neal é uma figuraça, um cara que curte som de primeira e toca como poucos, sendo famoso por aparecer na noite de L.A. anônimo, para tocar em jams com músicos desconhecidos de casas noturnas locais. Outro cara que passou no TriChromes foi o conhecido baixista e doidaço Ira Walker. Oportunamente, a banda definiu um núcleo permanente, com o guitarrista Ralph Woodson (esse aí subiu no palco uma noite para uma jam e acabou ficando de vez com os caras) e o baixista Mike DiPirro. A química entre os músicos foi única e imediata, abastecida pelo amor à improvisação. Kreutzmann mergulhou com especial prazer naquele novo projeto. “A energia de Bill era simplesmente fantástica” Parish lembra. “Era como se fôssemos crianças de novo. Após ensaios de umas oito horas, Bill era o cara que chegava e dizia : ‘Ei, vamos, vamos adiante mais uma hora ou duas’”.

Aqueles shows sem compromisso no Havaí marcaram profundamente os músicos.

Em determinado momento, associados de longa data do Grateful Dead, como Robert Hunter e John Perry Barlow se aproximaram da banda, e contribuíram com letras e muitas idéias para o som. Em pouco tempo, eles já tinham material para um álbum, e assim foi feito, sendo o mesmo batizado com o nome da banda e produzido por L. Henry Sarmiento III, lançado de forma independente. The TriChromes é um biscoito fino, cheio de idéias iluminadas e forte instrumental. O som passa por óbvias influências do Grateful Dead, navegando pelo blues, surf music, música havaiana, e por aí vai. Os pontos altos são a inspirada “None So Blind,” a pujente “Iowa Soldier”, “Simply Nowhere”, com um estranho sabor de reggae e a Afro-pop “Stop, Drop and Roll”. Mas o disco todo é ótimo.

Após mais alguns shows, outros ventos sopraram. Nas estradas da vida, os velhos camaradas do Grateful Dead se reencontraram e decidiram continuar com a tradição da banda. Sem o Grateful, eles partiram de novo para a estrada, agora apenas como The Dead. E, mais uma vez, com eles partiram Bill Kreutzmann e Steve Parish, integrando a última (por ora) encarnação dos mortos agradecidos - uma história para um outro post. O TriChromes, assim, se dissipou em silêncio, e cada um seguiu seu caminho. Mas a memória das jams descontraídas e dos sons esculpidos nas areias das praias havaianas são um capítulo belo e instigante da história das bandas paralelas da profícua família do Grateful Dead....