domingo, setembro 03, 2006

Histórias de viajantes pt.01





Falar, ou escrever sobre liberdade, é algo impossível, sem lembrar de EASY RIDER. Poucos filmes, para mim, conseguem transmitir sentimentos tão intensos. Lançado no ano do festival de Woodstock, 1969, ele foi filmado no ano dos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy. Naqueles dias, os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnam, Nixon chegava à presidência. Era o colapso do sonho hippie dos sixties. Na verdade, era mais, era o ocaso do próprio sonho do pós guerra norte-americano, naquilo que ele teve de mais ingênuo e sincero. O filme, hoje quando a gente o assiste, deve ser compreendido em suas múltiplas dimensões. Easy Rider pode ser definido com um road movie, um dos primeiros do estilo, um filme independente, daquela nova geração de diretores, já rompida com os grandes estúdios (e em busca de independência), direcionado para o público alternativo, basicamante uma aventura trágica e de final chocante. Mas ele também pode ser percebido como um manifesto da agonia de sua era. Pois Easy Rider se cristalizou através do tempo como uma relíquia beat, um ícone, um instantâneo da contracultura do seu tempo, ao mostrar a jornada iconográfica de seus dois anti-heróis, que montados em suas Harleys e movidos à drogas diversas, penetram no sombrio e desolado território de uma América bem diversa daquela de seus sonhos, em busca de uma liberdade conceitual e sem limites. No Brasil, seu título é “Sem Destino”.
Em seu caminho, eles atravessaram paisagens míticas do inconsciente norte-americano, como o Mountain Valley, cruzam várias cidades através das freeways, conhecem figuras pitorescas, prostitutas e comunidades hippies, ao som primoroso de artistas como Steppenwolf, Jimi Hendrix, The Band, Fraternity Of Man, The Byrds e Bob Dylan. A trilha sonora é extraordinária. Tenho a sorte de ter o LP, um dos mais bem conservados de minha coleção. O CD também saiu no Brasil, é perfeito para ouvir no carro, na estrada, rodando por acaso.

Os nomes dos dois principais personagens, Wyatt, apelidado de “Captain America” e Bill, evocam os lendários cowboys Wyatt Earp e Billy The Kid, ou mesmo Wild Bill Hickcock. Nossos heróis também buscam a fronteira, o território desconhecido do verdadeiro american dream. A trama, em si é simples de resumir: Wyatt e Bill compram cocaína no México, a vendem a um almofadinha norte-americano e, com a grana, partem para o festival Mardi Grass, em New Orleans. Na volta, São mortos por caipiras nos ermos do sul dos estados unidos. O sonho morria com eles.

Peter Fonda e Dennis Hopper estão perfeitos. Karen Black também está presente, ótima como sempre. A participação de Jack Nicholson, como um advogado alcoólatra de uma cidadezinha do interior é brilhante, e é de seu personagem, George Hanson, um dos mais marcantes diálogos, ao advertir os viajantes sobre a mentalidade à margem das freeways:

“Eles não têm medo de vocês, mas do que vocês representam. Para eles vocês representam a liberdade. Mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca diga a alguém que ele não é livre...porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é. Você é que corre perigo.”

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