Assim como nós.....
Ignorado nos cinemas, Blade Runner construiu sua reputação de grande cult nas locadoras. Baseado no livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip Kindred Dick, publicado em 1967, o filme de Ridley Scott traçou linhas profundas em temas abissais como a vida artificial, a morte e o encontro com a própria identidade, influenciando bastante o cinema de FC do século passado - e mantendo-se, cada vez mais, como um dos grandes clássicos do gênero.Sombrio, pessimista e de clima notadamente noir, o primeiro filme hollywoodiano do diretor britânico Ridley Scott nos conduz através de cidades noturnas e úmidas, com recorrentes imagens de trânsito com hovercars, gigantescos outdoors, anúncios de Coca-Cola e de fast foods japoneses para nos situar em uma terra futurista do século XXI (o retrato típico do futuro próximo ciberpunk – magistralmente temperado com influências estético-visuais que vão da pintura flamenga às histórias em quadrinhos, passando pela pintura moderna americana, ricamente emolduradas pela hipnótica trilha de Vangelis), relegada aos seres humanos incapazes de viver no espaço – no caso, uma L.A. do ano de 2019, high tech e terrivelmente opressora, estilizada como um rápido comercial de TV. Nesse cenário, uma grande corporação desenvolve um tipo de andróide plasticamente igual, porém mais forte e ágil que o ser humano - e com ele equiparando em inteligência. São empregados como escravos na colonização e exploração de outros planetas. Essas máquinas fascinantes não têm passado, pois elas já nascem “prontas”, para durar apenas quatro anos, são emocionalmente virgens e reúnem incansavelmente um contínuo acervo de memória visual – memórias ou simples fotografias, que são colecionadas como um bem precioso, algo que lhes confere dimensão humana: a prova que eles vivem e atravessam as vidas uns dos outros. Eles são denominados “replicantes” – o nome alude a réplica - mas aqui não falamos de clonagem, e sim da criação de vida puramente artificial, dotada de inteligência, visão de si e consciência de sua existência transitória. Não seriam essas grandezas que definem o ser humano co
mo um fim, para Kant, e, assim, o dotam de dignidade humana? Nesses termos, muitos dos dilemas morais envolvidos na tecnologia da clonagem (caso típico de um desenvolvimento por caminhos próprios, eterno anátema da FC especulativa) valem para o caso dos replicantes, pois o que se trabalha é a inteligência – o próprio nome do livro já questiona sobre o conteúdo dos sonhos dos andróides, numa clara referência ao seu subconsciente...Um dia, um grupo de replicantes provoca um motim em uma colônia, com trágicas conseqüências para os humanos. Em razão disso, são banidos e considerados proibidos na Terra – é formado um grupo especial de policiais, os Blade Runners (termo “emprestado” de William S. Burroughs), que é encarregado de encontrar e eliminar – remover é o termo usado – os andróides que, depois da proibição, conseguem viver na Terra fazendo-se passar por seres humanos...
Rick Deckard (Harrison Ford, muito bom no papel) é um desses bounty hunters, que um dia é destacado para caçar seis replicantes de uma série especial, muito aprimorada. Nessa sua incrível jornada em busca aos andróides, sob o pano de fundo de um filme de ação, discute-se a transcendência do que identifica, afinal, a própria vida, o que ela significa, com todas as suas ansiedades e desilusões. E essa jornada conduz Deckard através de profundas descobertas acerca de si próprio...
Há muito da boa ficção científica em Blade Runner (no Brasil, “O Caçador de Andróides”), que conta também no elenco, além de Ford, com gente como Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh. O livro de 1967 foi um dos precursores da estética ciberpunk, que posteriormente se cristalizou como uma nova escola de FC. O filme, lançado em 1982 lhe faz justiça, apesar das óbvias adaptações e alterações para a estética do cinema. Em 1992, ele reapareceu em uma segunda e definitiva versão, um director’s cut com cenas a mais – e a menos, também facilmente identificável pela ausência do voice over da versão original.
A versão de 1992, afora várias cenas de tráfego com carros voadores, altera em profundidade o conceito desenvolvido na versão de 1982, para uma ótica mais radical. Numa das cenas acrescentadas, Dackard sonha com um unicórnio – sendo que, na cena anterior o Blade Runner encontra um origami de um unicórnio deixado num elevador por Rachel – a pista para que se admita que o caçador e as presas pertencem à mesma espécie. A cena retirada na segunda versão é uma bem no final, quando Rick comenta com Rachel que ela é especial, por não ter o prazo de vida fixado em 04 anos, como os demais replicantes – e por isso mesmo, mais humana, porque não teria um prazo certo para deixar de funcionar...
Simplesmente imperdível.
