terça-feira, outubro 03, 2006

Notas rápidas como a vida





Há um livro, sobre pegar a estrada e ir até um ponto onde não existe mais volta. Não uma volta em termos geográficos, mas um retorno existencial. Acordem, On The Road foi relançado no Brasil...
Bob Weir disse que seria um “rito de passagem”, algo nesse sentido. Trata-se de uma busca, uma viagem pessoal, à procura da individualidade esquecida em algum ponto - e tudo que isso implicaria: sexo livre, drogas e muita música, no caso do autor, o jazz . Jean-Louis Lébris de Kerouac, Jack Kerouac, também escreveu sobre a vida e a difícil passagem através dela...


Sob muitas dimensões, On The Road reflete o levante da Beat Generation, apesar de Jack Kerouac ser um cara inclassificável - no fundo um agregado dos Beatniks mais conceituais, como Ginsberg e Corso. EUA, anos 50...Os baby-boomers crescem com as TVs gigantes na frente da cara, o conservadorismo ía a mil por hora, a segurança do sistema ditava as normas na explosão de consumo e de intolerância velada, travestida em proteção, que eclodiu no pós-guerra. Os beatniks, marginais e poetas-marginais do final da década de 1940 e início dos anos 50, em Nova York e, logo em seguida, em San Francisco, eram os deslocados, também denominados Hipsters -, vinham desses subúrbios e dos imensos novos conjuntos habitacionais, reluzentes de novos, que surgiam ao logo das freeways e cercanias das grandes cidades. A vida artificial estalava suas novas maravilhas, TVs, eletrodomésticos, ídolos cinematográficos, revistas coloridas, carrões rabos-de-peixe, pessoas inexpressivas e vidas vazias...

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Kerouac foi, na verdade, um romântico extremado e radical; e sua vida, um percurso em busca do impossível: a concretização de seus ideais, de uma ética da pureza, a ressurreição de seus personagens queridos, a recuperação do tempo perdido, da infância idílica, da inocência original do ser humano, da vitória sobre a morte. Nesse percurso, viajou por seu país e por outros lugares do mundo, viveu e atuou intensamente, para, ao fim, fechar-se em copas, recolher-se até morrer, isolado e incompreendido, aos 47 anos de idade”.
Claudio Willer


On The Road (no Brasil, Pé na Estrada, disponível na série pocket da LP&M), escrito na denominada “prosódia bop” – a sua autoral forma de narrativa que buscava levar para o papel o fluxo da consciência, a sucessão de imagens e idéias, o fruir do som e o ritmo das palavras, os valores fonéticos e prosódicos da língua falada, vivos e pulsantes, desconectados de seu sentido imediato – e de sua melodia - como os acordes do free jazz que tanto adorava. Trata-se do relato definitivo de como a beat generation não poderia caber nos estritos liames do novo modo de vida que se aperfeiçoava. Sob muitos aspectos, a contracultura ainda engatinhava, diluída e crua nos subterrâneos, onde aos poucos as sementes das rebeliões juvenis da década de 1960 eram lançadas. Ainda não havia o rock – existia o rockabilly, que criava sua face – mas havia o tépido jazz, mais precisamente, o free jazz, e a mítica da estrada, das freeways, de que algo, algo ainda acontecia – mas muito longe...a Beat Generation acabou por se constituir na última grande revolução literária, e em sua fúria, demonstrou o declínio que acometia esse gênero artístico, que nunca mais se recuperou. On The Road deu uma voz confessional à geração crescida durante a Segunda Guerra mundial, para quem os resultados desta e o mundo surgido após o sangrento conflito não eram suficientes. Mantém-se ainda hoje como um libelo de discordância e da busca da libertação das amarras do complicado mundo moderno – fala, digamos, sobre um estado de espírito.
Kerouac foi realmente um beat? Isso não importa. Sua obra foi, naquilo que os beatniks tiveram de mais sincero e instigante. Em seu período de reclusão que estendeu-se de sua crise em 1961 até sua morte em 1969, ele acreditava que apenas fora um cronista e expectador do levante que aconteceu naqueles anos. Ele tinha divergências profundas, no plano ideológico e da moral, com Ginsberg e muitos outros de seus contemporâneos. Além disso, sua literatura “de estrada” – On the Road, The Dharma Bums, Tristessa , Big Sur, Lonesome Traveller, Desolation Angels – reflete apenas um período de sua vida, e uma das várias facetas de sua complexa e contraditória personalidade, uma cisão que apareceu em outros aspectos e momentos de sua vida. Kerouac sempre transitava nos extremos. Passos de sua via-crucis, por assim dizer; assim como sua pedestalização como arauto beatnik, algo que ele nunca quis.

Sua obra é universal. Em cada um de nós pode está, talvez adormecido, o beat aventureiro e o adulto que deseja recuperar a infância. A eterna derrota contra o Tempo inflexível, a contradição entre o sujeito e o mundo onde este deve viver, as barganhas que negociamos com nós mesmos: aí estão linhas que não são exclusivas de Kerouac, mesmo que soberbamente transcritas em suas frases longas e sem pontuação - que ele não poderia cortar, pois, se as cortasse, o sangue jorraria...e não seria só o dele, o nosso também.