sábado, setembro 09, 2006

Impressões em códigos

"Você viaja para reviver o seu passado? - Era, a esta altura, a pergunta do Kahn, que também podia ser formulada da seguinte maneira: Você viaja para reencontrar seu futuro?
Os outros lugares são um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá".

Ítalo Calvino
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Quando nos movemos através de idéias e conceitos, é interessante observar algumas singularidades que, a depender de cada raciocínio, deflagram diferentes reações naqueles que as vivenciam. Por exemplo, nós aprendemos que o acúmulo de conhecimento conduz a um aperfeiçoamento de um gênero de sabedoria, e que, às vezes, certos filamentos e rumos para um tipo de caminho podem se esgotar em si mesmos. Há uma contradição nesses dois caminhos para se chegar a algum tipo de conhecer. Cada vez mais é perceptível o impasse que deflagrou o declínio de nossa civilização. Ontem, numa conversa casual, tive mais uma vez a oportunidade refletir sobre os limites que, após amordaçarem a alma, agora destroem as últimas setas que identificam os caminhos e os atalhos para as jornadas que faziam a vida ainda valer a pena. Isso me lembra como o ser humano é conservador e cada vez mais atávico. Como em coloquei no post anterior, a depender da estrada, os caminhos de volta já foram fechados - nossa meta tem que ser seguir adiante. Ficamos apenas com as trilhas desbravadas, e a cada dia nossa capacidade de nelas permanecer é menor. Ainda virá outra revolução? As pessoas sentem medo, ou são estúpidas demais para raciocinarem de forma própria. Elas compram Niezstche, Huxley, Blake, Morrison, etc, como meros itens para sinalizar um suposto status de que são cultas, ou no máximo, de que são interessantes, e continuam em suas existências amorfas, uma vez que, enfim, nada daquilo tudo lhe tem alguma outra utilidade. Ou seja, tudo o que se procurou criar, descrever e mudar vira finalmente uma peça de vaidade fútil e estéril. Há uma nota triste em tudo isso. Lembro agora de um poema de Jim Morrison:

"Já não temos os dançarinos, os possessos.
A clivagem dos homens em atores e espectadores
É o fato crucial do nosso tempo. Obcecam-nos
Heróis que por nós vivem e nós punimos.
Ah! Se todas as rádios e televisões fossem
Desligadas, e todos os livros e quadros
Queimados já, todas as salas de espetáculos encerradas...
Essas artes de viver por procuração...

Contentamo-nos com a oferta, na nossa procura de
Sensações. Deu-se a metamorfose do corpo enlouquecido
Pela dança nas colinas num par de olhos
Rasgando a treva”.

Para o Rei Lagarto, ainda poderia haver um recomeço, algo que partisse de novo do zero. Creio que não. Devemos prosseguir de onde paramos. Talvez, como na lenda grega dos primeiros Tebanos, que surgem da terra, semeados por Cadmo com os dentes de uma serpente que matara seus soldados. Muito a descobrir, a explorar – mas por quem? Deitamos e contamos as estrelas, muitas delas já mortas a tantos bilhões de anos. Quais seriam suas impressões de viagem?
Não sabemos. Sabemos que só agora sua luz chega para clarear nossa noite. Talvez tarde demais, para nós. Vivemos outra noite, agora.