Maior de que o sol....
John Coltrane é o saxtenorista mais fantástico do jazz. Nunca houve ninguém como ele. Nascido em Hamlet, Carolina do Norte, John William Coltrane começou a carreira tocando em big bands, após a Segunda Guerra Mundial. De 1955 a 1960 fez parte do histórico quinteto-sexteto de Miles Davis, tendo tocado em discos memoráveis, como Milestones e Kind of Blue, passando em seguida a liderar sua própria banda e gravar alguns dos mais arrepiantes momentos que o free jazz jamais conheceria.
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No post anterior eu falei sobre tempo, e como a luz viaja através dele. De como hoje podemos abservar no céu as luzes de estrelas distantes, que muito depois de extintas, só agora seu brilho ilumina nossas noites. De uma maneira irresistível, esses conceitos me fizeram lembrar de John Coltrane. Tinha um texto escrito sobre ele, mas refletindo nos termos de como o tempo e a distância nos pregam peças, percebi uma nova ótica para observar a música desse gigante, de como ela também viaja através do tempo e, ao brilhar forte e ofuscante na nossa escuridão, também parece parte da eternidade. Em suma, John Coltrane é isso - parte da eternidade. Houve a vida, e houve o que ele criou. Coltrane mudou a maneira de se perceber a música, o que, convenhamos, não é pouco. Pobre de quem permanece sem reação diante de sua música - ele apareceu para ser um divisor, um aviso de que un novo passo fora dado. Um dia, Coltrane veio e tornou a antiga visão ultrapassada, estabelecendo um tipo de relação metafísica com a seqüência de acordes que compõem uma melodia, muitas vezes totalmente abstrata e dissonante - uma relação de profunda identificação e abstração. Na verdade, numa análise fria, sua obra parece o produto de um outro mundo, de alguma coisa fora de nossa realidade – de um futuro distante e intangível. Pois o tempo de Coltrane sempre cada vez mais é o que está por vir.
Sua primeira grande fase musical, tocando com Miles Davis, foi marcada por profundos abismos pessoais, aliados a um destruidor vício em heroína. Houve também um período em que ele atuou como sideman e parecia destinado a desaparecer. Entretanto, Coltrane, de uma maneira inexplicável, um dia assombrosamente emergiu de seu pesadelo, e, em 1957 fez sua primeira gravação como líder de banda.
Deixando o conjunto de Miles em 1960, Coltrane iniciou uma nova etapa montando seu legendário quarteto com McCoy Tyner ao piano, Jimmy Garrison no contrabaixo e o baterista Elvin Jones, deflagrando uma ousada exploração de insuspeitas dimensões sonoras jazzísticas. Coltrane estebeleceu um estilo absolutamente próprio, onde predominavam as chamadas sheets of sound (camadas de som), que se compunham de longas frases de notas rápidas tocadas em legato. Coltrane trabalhava a partir de uma técnica assombrosa, que envolvia a desconstrução harmônica, em longos travelings de improvisações que contruíam muitas vezes paisagens sonoras atonais e estranhas, onde linhas tortuosas e solos climáticos se sobressaíam como cânticos magníficos, num tipo de esplendor indescritível. Essa direção musical coloca a produção de seu quarteto, entre 1960 e 1965 como um marco na história do jazz. As várias, longuíssimas e impressionantes versões de Coltrane para My Favorite Things, tema banal de Rodgers e Hammerstein, são fragmentos de uma genialidade cada vez mais difícil de ser compreendida.
No post anterior eu falei sobre tempo, e como a luz viaja através dele. De como hoje podemos abservar no céu as luzes de estrelas distantes, que muito depois de extintas, só agora seu brilho ilumina nossas noites. De uma maneira irresistível, esses conceitos me fizeram lembrar de John Coltrane. Tinha um texto escrito sobre ele, mas refletindo nos termos de como o tempo e a distância nos pregam peças, percebi uma nova ótica para observar a música desse gigante, de como ela também viaja através do tempo e, ao brilhar forte e ofuscante na nossa escuridão, também parece parte da eternidade. Em suma, John Coltrane é isso - parte da eternidade. Houve a vida, e houve o que ele criou. Coltrane mudou a maneira de se perceber a música, o que, convenhamos, não é pouco. Pobre de quem permanece sem reação diante de sua música - ele apareceu para ser um divisor, um aviso de que un novo passo fora dado. Um dia, Coltrane veio e tornou a antiga visão ultrapassada, estabelecendo um tipo de relação metafísica com a seqüência de acordes que compõem uma melodia, muitas vezes totalmente abstrata e dissonante - uma relação de profunda identificação e abstração. Na verdade, numa análise fria, sua obra parece o produto de um outro mundo, de alguma coisa fora de nossa realidade – de um futuro distante e intangível. Pois o tempo de Coltrane sempre cada vez mais é o que está por vir.
Sua primeira grande fase musical, tocando com Miles Davis, foi marcada por profundos abismos pessoais, aliados a um destruidor vício em heroína. Houve também um período em que ele atuou como sideman e parecia destinado a desaparecer. Entretanto, Coltrane, de uma maneira inexplicável, um dia assombrosamente emergiu de seu pesadelo, e, em 1957 fez sua primeira gravação como líder de banda.
Deixando o conjunto de Miles em 1960, Coltrane iniciou uma nova etapa montando seu legendário quarteto com McCoy Tyner ao piano, Jimmy Garrison no contrabaixo e o baterista Elvin Jones, deflagrando uma ousada exploração de insuspeitas dimensões sonoras jazzísticas. Coltrane estebeleceu um estilo absolutamente próprio, onde predominavam as chamadas sheets of sound (camadas de som), que se compunham de longas frases de notas rápidas tocadas em legato. Coltrane trabalhava a partir de uma técnica assombrosa, que envolvia a desconstrução harmônica, em longos travelings de improvisações que contruíam muitas vezes paisagens sonoras atonais e estranhas, onde linhas tortuosas e solos climáticos se sobressaíam como cânticos magníficos, num tipo de esplendor indescritível. Essa direção musical coloca a produção de seu quarteto, entre 1960 e 1965 como um marco na história do jazz. As várias, longuíssimas e impressionantes versões de Coltrane para My Favorite Things, tema banal de Rodgers e Hammerstein, são fragmentos de uma genialidade cada vez mais difícil de ser compreendida.
Em 1965 o quarteto cria aquela que é considerada sua obra-prima, a suíte em quatro movimentos A Love Supreme. Conheci o som fenomenal de Coltrane com esse disco fabuloso, por meio de um K-7 de um colega meu. O disco foi gravado em apenas uma noite. Que coisa! Poucas vezes me vi tomado por impressões tão intensas – e me vi obsoleto, retrógado e limitado. Coltrane foi demais para mim! O ano de lançamento de A Love Supreme, 1965, marcou sua ligação com a vanguarda jazzística mais radical, quando se une a músicos free como o baterista Rashied Ali, os saxtenoristas Archie Shepp e Pharoah Sanders, entre outros. Ascension é uma outra obra-prima desse período, já desvinculado de qualquer harmonia tonal, explorando territórios inimagináveis.... Coltrane imprimiu às suas obras de 1965-1967 um forte conteúdo metafísico, quase mesmo religioso – na verdade, um sentimento contemplativo superior, doce e caótico, que parecia destinado a estabelecer alguma forma de conexão entre o homem e o cosmos que o cerca – isso embalado em acordes e dissonâncias de, por assim dizer, uma modernidade nunca antes alcançada por nenhum outro artista. Nessa época, ele já pressentia o fim. Morreu em 1967, aos 40 anos, de câncer no fígado. Após sua partida, uma grande quantidade de gravações inéditas foi sendo localizada e sistematicamente lançada, permitindo ao menos uma avaliação mais objetiva do quão monumental e impressionante é sua obra.Sobre John Coltrane, escreveu André Francis: "Não poucos medíocres julgaram poder imitar Coltrane. Os que o imitam não passam de aproveitadores. (...) Muitos há que tocam e agem como ele (...) Mas falta-lhes a mesma fé." Uma fé estranha, que regatou a música dos bares enfumaçados e das madrugadas insones, exauridas após as noites intermináveis de todos os excessos, assim, como mágica, de volta para as estrelas...









