segunda-feira, setembro 25, 2006

Maior de que o sol....






John Coltrane é o saxtenorista mais fantástico do jazz. Nunca houve ninguém como ele. Nascido em Hamlet, Carolina do Norte, John William Coltrane começou a carreira tocando em big bands, após a Segunda Guerra Mundial. De 1955 a 1960 fez parte do histórico quinteto-sexteto de Miles Davis, tendo tocado em discos memoráveis, como Milestones e Kind of Blue, passando em seguida a liderar sua própria banda e gravar alguns dos mais arrepiantes momentos que o free jazz jamais conheceria.



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No post anterior eu falei sobre tempo, e como a luz viaja através dele. De como hoje podemos abservar no céu as luzes de estrelas distantes, que muito depois de extintas, só agora seu brilho ilumina nossas noites. De uma maneira irresistível, esses conceitos me fizeram lembrar de John Coltrane. Tinha um texto escrito sobre ele, mas refletindo nos termos de como o tempo e a distância nos pregam peças, percebi uma nova ótica para observar a música desse gigante, de como ela também viaja através do tempo e, ao brilhar forte e ofuscante na nossa escuridão, também parece parte da eternidade. Em suma, John Coltrane é isso - parte da eternidade. Houve a vida, e houve o que ele criou. Coltrane mudou a maneira de se perceber a música, o que, convenhamos, não é pouco. Pobre de quem permanece sem reação diante de sua música - ele apareceu para ser um divisor, um aviso de que un novo passo fora dado. Um dia, Coltrane veio e tornou a antiga visão ultrapassada, estabelecendo um tipo de relação metafísica com a seqüência de acordes que compõem uma melodia, muitas vezes totalmente abstrata e dissonante - uma relação de profunda identificação e abstração. Na verdade, numa análise fria, sua obra parece o produto de um outro mundo, de alguma coisa fora de nossa realidade – de um futuro distante e intangível. Pois o tempo de Coltrane sempre cada vez mais é o que está por vir.
Sua primeira grande fase musical, tocando com Miles Davis, foi marcada por profundos abismos pessoais, aliados a um destruidor vício em heroína. Houve também um período em que ele atuou como sideman e parecia destinado a desaparecer. Entretanto, Coltrane, de uma maneira inexplicável, um dia assombrosamente emergiu de seu pesadelo, e, em 1957 fez sua primeira gravação como líder de banda.
Deixando o conjunto de Miles em 1960, Coltrane iniciou uma nova etapa montando seu legendário quarteto com McCoy Tyner
ao piano, Jimmy Garrison no contrabaixo e o baterista Elvin Jones, deflagrando uma ousada exploração de insuspeitas dimensões sonoras jazzísticas. Coltrane estebeleceu um estilo absolutamente próprio, onde predominavam as chamadas sheets of sound (camadas de som), que se compunham de longas frases de notas rápidas tocadas em legato. Coltrane trabalhava a partir de uma técnica assombrosa, que envolvia a desconstrução harmônica, em longos travelings de improvisações que contruíam muitas vezes paisagens sonoras atonais e estranhas, onde linhas tortuosas e solos climáticos se sobressaíam como cânticos magníficos, num tipo de esplendor indescritível. Essa direção musical coloca a produção de seu quarteto, entre 1960 e 1965 como um marco na história do jazz. As várias, longuíssimas e impressionantes versões de Coltrane para My Favorite Things, tema banal de Rodgers e Hammerstein, são fragmentos de uma genialidade cada vez mais difícil de ser compreendida.
Em 1965 o quarteto cria aquela que é considerada sua obra-prima, a suíte em quatro movimentos A Love Supreme. Conheci o som fenomenal de Coltrane com esse disco fabuloso, por meio de um K-7 de um colega meu. O disco foi gravado em apenas uma noite. Que coisa! Poucas vezes me vi tomado por impressões tão intensas – e me vi obsoleto, retrógado e limitado. Coltrane foi demais para mim! O ano de lançamento de A Love Supreme, 1965, marcou sua ligação com a vanguarda jazzística mais radical, quando se une a músicos free como o baterista Rashied Ali, os saxtenoristas Archie Shepp e Pharoah Sanders, entre outros. Ascension é uma outra obra-prima desse período, já desvinculado de qualquer harmonia tonal, explorando territórios inimagináveis.... Coltrane imprimiu às suas obras de 1965-1967 um forte conteúdo metafísico, quase mesmo religioso – na verdade, um sentimento contemplativo superior, doce e caótico, que parecia destinado a estabelecer alguma forma de conexão entre o homem e o cosmos que o cerca – isso embalado em acordes e dissonâncias de, por assim dizer, uma modernidade nunca antes alcançada por nenhum outro artista. Nessa época, ele já pressentia o fim. Morreu em 1967, aos 40 anos, de câncer no fígado. Após sua partida, uma grande quantidade de gravações inéditas foi sendo localizada e sistematicamente lançada, permitindo ao menos uma avaliação mais objetiva do quão monumental e impressionante é sua obra.
Sobre John Coltrane, escreveu André Francis: "Não poucos medíocres julgaram poder imitar Coltrane. Os que o imitam não passam de aproveitadores. (...) Muitos há que tocam e agem como ele (...) Mas falta-lhes a mesma fé." Uma fé estranha, que regatou a música dos bares enfumaçados e das madrugadas insones, exauridas após as noites intermináveis de todos os excessos, assim, como mágica,
de volta para as estrelas...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Luzes através do Tempo





As setas e os quadrados coloridos indicam a posição de IOK-1.
Saiu semana passada na Reuters, 13 de setembro, o anúncio de que cientistas, através do Telescópio Subaru identificaram a galáxia mais distante até o momento, a quase 13 bilhões de anos-luz. Acredita-se que a descoberta pode ajudar a explicar como as estrelas se formaram nos primórdios da existência do universo.
A galáxia, denominada IOK-1, é tão distante que as ondas de luz que chegam à Terra mostram-na como um sistema de estrelas que existia pouco depois do Big Bang, a explosão de energia que supostamente criou o universo conhecido, há mais de treze bilhões de anos.
Esse período, denominado pelos astrônomos como Idades Negras, correspondeu a formação das primeiras estrelas e galáxias, a partir das partículas elementares. Os cientistas nunca haviam conseguido observar diretamente registros desse estágio da formação do universo até agora.
Os astrônomos que operam o Telescópio Subaru, em Hilo (no Havaí, Est
ados Unidos), desenvolveram um filtro para captar a luz que durante bilhões de anos foi "esmagada" para o espectro vermelho pela expansão do universo - o chamado "desvio para o vermelho".
Os cientistas, que publicam suas conclusões numa recente edição da revista Nature, esperavam encontrar pelo menos seis galáxias semelhantes à IOK-1, que está a 12,88 bilhões de anos-luz (registre-se: um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, o equivalente a 9,46 trilhões de quilômetros). Os pesquisadores acharam só um objeto que puderam identificar como uma galáxia. Independentemente disso, a descoberta mostra que o universo mudou muito nos 60 milhões de anos que separam a IOK-1 das próximas galáxias mais antigas observadas da Terra, conforme os astrônomos. Os cientistas encontraram outro objeto semelhante ao IOK-1, mas não puderam confirmar se se trata de uma galáxia distante ou de outra coisa, como talvez um buraco negro.

sábado, setembro 16, 2006

Marte para sonhadores



Essa semana eu tive o estranho prazer em encontrar uma reedição do clássico “As Crônicas Marcianas” (Martian Chronicles), de Ray Bradbury, novamente disponível no Brasil. Digo que o prazer foi estranho pois, ao mesmo tempo que enche os olhos uma nova edição estalando numa estante como algo novo, algo a ser descoberto, é invariável o reflexo de olhar para os lados, para as pessoas em busca de livros didáticos para as suas pseudo-formações, ou pior, para aqueles que avidamente buscam o refugo literário definido como auto-ajuda, e indagar a mim mesmo: para quem se destina essa edição? Com que propósito esses livros são lançados? O minguado público apreciador desse tipo de obra já está abastecido, via sebos e mercados livres da vida. Acredito que talvez, essas edições se destinem à confecção de trabalhos acadêmicos de literatura inglesa, norte americana, ou pós graduações amorfas, produtos da avacalhação do ensino superior, ou outros fenômenos indesejáveis congêneres. Só pode ser isso. A capacidade de se deixar levar, encantar com esse tipo de narrativa, há muito foi perdida. Tem que existir um louco, um professor “estranho”, para receitar esses títulos “complicados” e o futuro da nação (ou, já os seus líderes, claro) ir buscá-los, primeiro nos sites especializados (êpa, não tem tradução...), não encontrar nada, perguntar nas livrarias e pronto! - As nossas sábias editoras enxergam um nicho para venderem uns mil exemplares ao longo de alguns anos, à preços exorbitantes. Aí está a estranheza do prazer de encontrá-los por aí, pérolas aos porcos da ocasião. Superado o mal-estar, há o descaso estético na apresentação do produto, uma obra de mais de 50 anos de publicação, recheada do lirismo e do futurismo obsoleto típico dos dias de sua concepção, vem embalada numa modorrenta moldura atual: ta lá a foto preto e branco do solo marciano, como aquelas tiradas pelo robô-jipe da NASA. Talvez queiram vender o livro como algo novo, ao invés de algo atemporal, o que lhe faria bem mais justiça. É interessante observar que todas essas ratadas estão baseadas na própria visão que a literatura de Ficção Científica recebe no Brasil. A FC é um gênero maldito aqui, algo que destoa da nossa prosa geral por fatores óbvios, entre eles um acentuado complexo de inferioridade técnica. Nesse terreno não dá para brincar de bom, aí o pessoal ataca. Faço aqui uma citação do professor Gustavo Bernardo, da UERJ, em seu ensaio “A Ficção Cética”, de 2004: “Desconfio que este paradoxo deriva menos dos números do mercado e mais da contaminação de nossa baixa auto-estima em outro terreno: se não produzimos ciência, se não temos sequer um Prêmio Nobel, como poderíamos escrever e publicar ficção científica com um mínimo de qualidade?”. Pois bem, superados esses conclaves, podemos (?) apreciar o livro apenas como a obra literária que ele é.


O material que compõe as Crônicas Marcianas foi publicado originalmente em revistas de pulp fiction na metade final da década de 1950, nos EUA, como histórias autônomas. Em determinado momento, elas foram reunidas por seu autor em um livro único, interligadas por pequenas peças narrativas, lhes dando, assim, a forma final de uma obra unitária. Trata-se de um relato imaginário da colonização de marte pelos homens da terra, e de suas estranhas e problemáticas relações com uma suposta civilização existente nesse planeta nosso vizinho. Nesse aspecto, as 26 narrativas transcendem a visão de homenzinhos verdes com antenas, discos voadores e outros clichês associados ao gênero. Bradbury, antes um escritor de fantasia que de FC (houve um período em que ele se apaixonou pela FC, mas foi curto, em tão longa carreira), nessa sua obra fez uma ponte com a linha dos mestres da FC hard: ele não se deteve em prever o futuro nem muito menos em ser realista ou crítico do nosso cotidiano. Antes, usou um hipotético futuro e um planeta Marte igualmente hipotético, onírico e psicodélico, para apreender, à sua maneira, o “sense of wonder” intrínseco à prosa maior da FC. Compreendido nessa dimensão, seu texto se desdobra numa obra cativante, que ora emociona e ora até desilude. Faz rir e chorar. O Marte de Bradbury existe em seu livro - poderia ser qualquer mundo hipotético, isso não importa - e suas crônicas persistem vivas através dos anos, embalando nossa imaginação com notas cada vez mais distantes – e isso é o que importa.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Hasta siempre!!



Acho interessante como o apelo da mídia, em especial da mídia especializada, subliminar, possui uma força tremenda, principalmente em quem acha que está isento desse tipo de influência. Tenho conversado com algumas pessoas, umas até mesmo que sacam algo de rock brasileiro, e praticamente nenhuma ouviu ou procurou conhecer o novo CD do Marcelo Nova, o fabuloso “Galope do Tempo” (Selo Ouver, nas melhoras casas do ramo). Uns escutam, acham o máximo, e fica nisso, talvez esperando um queima do disco por R$ 3,00, afinal não tá na Bizz, o cara não é gringo, etc. Outros nem querem saber. Bom, essas são coisas da vida, e Marcelo, como sempre, voa bem além das idiossincrasias desse pessoal, que, enfim, não corresponde ao seu verdadeiro público.
Galope do Tempo marca a volta de Marcelo, após 13 anos de sua última aventura no estúdio. Para gente como eu, confesso que essa espera foi desagradável, agravada pela idéia de que talvez o cara desistisse, caísse fora. Muita coisa pode acontecer nesse tempo, afinal. Tiveram os discos ao vivo, solo e com o Camisa, mas a fome era mesmo por sons inéditos. O aguardado “disco existencialista” do cara perigava ficar no vale sombrio das promessas. Mas eis que, um dia, o disco aparece como que por encanto. Descobri pela internet, e dois minutos depois já encomendava o meu. Simplesmente não dava para esperar, “ouvir primeiro”, essas tolices. Como um bom vinho, Marcelo a gente compra já conhecendo o sabor. Mas, justiça seja feita, dessa vez o cara caprichou.

O disco é conceitual, e versa sobre a existência do seu autor. Nessa direção, é interessante notar que nele não há nada com o apelo pop de Robocop, por exemplo. Trata-se um trabalho muito mais maduro e superior. Musicalmente, ele até poderia ser considerado um retorno ao rock visceral do Camisa, com um belo trampo de guitarra e bateria, enriquecido por pianos, violoncelos e outros mimos. Mas ele vai além. Seu conceito também é mais sombrio e carregado que naqueles idos do boom da grande banda baiana. As letras do cara, cada vez maiores (e melhores), acentuam o paralelo que eu gosto de fazer, entre Marcelo e Lou Reed: anunciadas, como que lidas em um texto em prosa;os instrumentos às vezes apenas constroem o clima, a cena que as narrativas descrevem. Autobiográfico, o trabalho alterna melancolia, saudosismo, revolta e reflexões que giram em torno da trajetória de alguém que insiste em desafiar o tempo sem, no entanto, compreender sua lógica indefinida.
Faixas como “Ninguém vai sair vivo daqui”, em que o cantor narra o primeiro contato com o livro “As portas da percepção”, de Huxley, e a faixa que encerra o álbum, a arrepiante “Canção da morte”, percebemos a dimensão do esmero de Marcelo, em versos como “Hei vizinha morte, sinto o seu ruído / Irmã morte, doce o seu gemido / Hei pássaro morte, bata as suas asas / A mante morte, sua cova é rasa/ Amiga morte eu vou para casa/ Velho avô morte/ Seu cheiro não esqueço/ Professora morte, eu lhe agradeço/ Por me mostrar, tudo tem preço/ Hei pai morte, mais um adeus/ Você fez, então, meu Deus/ Seus traços agora... são meus”.

Superada a difícil espera, resta-nos saciar os instintos com essa obra-prima do nosso tão combalido e decadente rock nacional, ao mesmo tempo em que renascem as velhas indagações em nossas cabeças “como será o próximo??”, afinal, treze anos é tempo demais....

terça-feira, setembro 12, 2006

Sons da areia e da praia



Ontem eu conversava no Messenger com uma amiga minha que há algum tempo mora no Havaí. Incrível como a distância e a falta de experiências em comum afasta as pessoas. Mas, em um dado momento, ela, que sabe que eu sou um grande fã do Grateful Dead, me disse que esteve em uma casa noturna lá, onde tinha um grande pôster de uma banda chamada The TriChromes. Ela não conhecia a banda, mas me disse que tinha no cartaz “featuring Bill Kreutzmann from The Grateful Dead”. Era a propaganda para um Show realizado lá no ano de 2002. Eu estava navegando e ouvindo no meu mp3 player o novo álbum do Mark Knopfler, Shan-gri-la. Bom, eu conheço o TriChromes, e, por uma estranha coincidência, a música solta e ensolarada do Shan-gri-la, naquele momento, fez uma ponte com o som dessa banda, uma dos alumni do Dead, formada pelo grande Bill Kreutzmann.
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O The TriChromes nasceu em 2001. Quando o Grateful Dead deu uma parada em suas atividades, em conseqüência da morte de Jerry Garcia, Bill Kreutzmann experimentou uma mudança abrupta em sua vida: após 30 anos de atividade ininterrupta no Dead, ele mudou-se para o Havaí, e lá perdeu a noção do tempo, surfando, pescando, caminhando nas praias, lendo e “vendo a vida passar”. A paixão pela música o levou a participar de pequenos shows em casas noturnas e jams sem compromisso com músicos locais ou amigos de longa data que apareciam naquelas ilhas do pacífico, nada muito sério. O tempo seguiu e, aos poucos, a vontade de tocar foi ficando maior, como era de se esperar. No verão de 2000, Bill Kreutzmann participou da segunda encarnação do The Other Ones, reunida para o Furthur Festival daquele ano. Essa experiência reacendeu em Bill a vontade de partir para o seu meio de novo. Como ele disse após retornar ao Havaí, “Estou procurando voltar a tocar todas as noites...”. A fagulha fora lançada...
Ao mesmo tempo, Steve Parish, um dos mais antigos roadies do Dead, ensaiava febrilmente com Herbie Herbert, conhecido por trabalhar como manager de nomes como Santana, Steve Miller e Journey. Herbie, afastado dos mundo dos negócios, e um grande fã de jam bands além de músico não-profissional, desejava encarar o business musical “em cima de um palco, para variar...”, ele comentou, sorrindo, na Musician, depois da aventura do TriChromes. Na verdade, naquele tempo, Herbie havia produzido uma notável mudança em sua vida, reinventando a si mesmo como um bluesman e adotando o pseudônimo de Sy Klopps, para em seguida projetar-se no circuito de pequenos shows. Quando ocorreu de Parish e Herbie/Sy tocarem no Havaí, e de alguma forma encontrarem Bill Kreutzmann, a mágica se fez presente, surgindo daí o TriChromes. Após várias configurações, que incluiu até mesmo um velho conhecido de Herbie, o guitarrista Neal Schon - aquele que tocou com Santana no início dos anos 70 e depois foi para a corporate band Journey. Registre-se que Neal é uma figuraça, um cara que curte som de primeira e toca como poucos, sendo famoso por aparecer na noite de L.A. anônimo, para tocar em jams com músicos desconhecidos de casas noturnas locais. Outro cara que passou no TriChromes foi o conhecido baixista e doidaço Ira Walker. Oportunamente, a banda definiu um núcleo permanente, com o guitarrista Ralph Woodson (esse aí subiu no palco uma noite para uma jam e acabou ficando de vez com os caras) e o baixista Mike DiPirro. A química entre os músicos foi única e imediata, abastecida pelo amor à improvisação. Kreutzmann mergulhou com especial prazer naquele novo projeto. “A energia de Bill era simplesmente fantástica” Parish lembra. “Era como se fôssemos crianças de novo. Após ensaios de umas oito horas, Bill era o cara que chegava e dizia : ‘Ei, vamos, vamos adiante mais uma hora ou duas’”.

Aqueles shows sem compromisso no Havaí marcaram profundamente os músicos.

Em determinado momento, associados de longa data do Grateful Dead, como Robert Hunter e John Perry Barlow se aproximaram da banda, e contribuíram com letras e muitas idéias para o som. Em pouco tempo, eles já tinham material para um álbum, e assim foi feito, sendo o mesmo batizado com o nome da banda e produzido por L. Henry Sarmiento III, lançado de forma independente. The TriChromes é um biscoito fino, cheio de idéias iluminadas e forte instrumental. O som passa por óbvias influências do Grateful Dead, navegando pelo blues, surf music, música havaiana, e por aí vai. Os pontos altos são a inspirada “None So Blind,” a pujente “Iowa Soldier”, “Simply Nowhere”, com um estranho sabor de reggae e a Afro-pop “Stop, Drop and Roll”. Mas o disco todo é ótimo.

Após mais alguns shows, outros ventos sopraram. Nas estradas da vida, os velhos camaradas do Grateful Dead se reencontraram e decidiram continuar com a tradição da banda. Sem o Grateful, eles partiram de novo para a estrada, agora apenas como The Dead. E, mais uma vez, com eles partiram Bill Kreutzmann e Steve Parish, integrando a última (por ora) encarnação dos mortos agradecidos - uma história para um outro post. O TriChromes, assim, se dissipou em silêncio, e cada um seguiu seu caminho. Mas a memória das jams descontraídas e dos sons esculpidos nas areias das praias havaianas são um capítulo belo e instigante da história das bandas paralelas da profícua família do Grateful Dead....

sábado, setembro 09, 2006

Impressões em códigos

"Você viaja para reviver o seu passado? - Era, a esta altura, a pergunta do Kahn, que também podia ser formulada da seguinte maneira: Você viaja para reencontrar seu futuro?
Os outros lugares são um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá".

Ítalo Calvino
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Quando nos movemos através de idéias e conceitos, é interessante observar algumas singularidades que, a depender de cada raciocínio, deflagram diferentes reações naqueles que as vivenciam. Por exemplo, nós aprendemos que o acúmulo de conhecimento conduz a um aperfeiçoamento de um gênero de sabedoria, e que, às vezes, certos filamentos e rumos para um tipo de caminho podem se esgotar em si mesmos. Há uma contradição nesses dois caminhos para se chegar a algum tipo de conhecer. Cada vez mais é perceptível o impasse que deflagrou o declínio de nossa civilização. Ontem, numa conversa casual, tive mais uma vez a oportunidade refletir sobre os limites que, após amordaçarem a alma, agora destroem as últimas setas que identificam os caminhos e os atalhos para as jornadas que faziam a vida ainda valer a pena. Isso me lembra como o ser humano é conservador e cada vez mais atávico. Como em coloquei no post anterior, a depender da estrada, os caminhos de volta já foram fechados - nossa meta tem que ser seguir adiante. Ficamos apenas com as trilhas desbravadas, e a cada dia nossa capacidade de nelas permanecer é menor. Ainda virá outra revolução? As pessoas sentem medo, ou são estúpidas demais para raciocinarem de forma própria. Elas compram Niezstche, Huxley, Blake, Morrison, etc, como meros itens para sinalizar um suposto status de que são cultas, ou no máximo, de que são interessantes, e continuam em suas existências amorfas, uma vez que, enfim, nada daquilo tudo lhe tem alguma outra utilidade. Ou seja, tudo o que se procurou criar, descrever e mudar vira finalmente uma peça de vaidade fútil e estéril. Há uma nota triste em tudo isso. Lembro agora de um poema de Jim Morrison:

"Já não temos os dançarinos, os possessos.
A clivagem dos homens em atores e espectadores
É o fato crucial do nosso tempo. Obcecam-nos
Heróis que por nós vivem e nós punimos.
Ah! Se todas as rádios e televisões fossem
Desligadas, e todos os livros e quadros
Queimados já, todas as salas de espetáculos encerradas...
Essas artes de viver por procuração...

Contentamo-nos com a oferta, na nossa procura de
Sensações. Deu-se a metamorfose do corpo enlouquecido
Pela dança nas colinas num par de olhos
Rasgando a treva”.

Para o Rei Lagarto, ainda poderia haver um recomeço, algo que partisse de novo do zero. Creio que não. Devemos prosseguir de onde paramos. Talvez, como na lenda grega dos primeiros Tebanos, que surgem da terra, semeados por Cadmo com os dentes de uma serpente que matara seus soldados. Muito a descobrir, a explorar – mas por quem? Deitamos e contamos as estrelas, muitas delas já mortas a tantos bilhões de anos. Quais seriam suas impressões de viagem?
Não sabemos. Sabemos que só agora sua luz chega para clarear nossa noite. Talvez tarde demais, para nós. Vivemos outra noite, agora.

domingo, setembro 03, 2006

Histórias de viajantes pt.01





Falar, ou escrever sobre liberdade, é algo impossível, sem lembrar de EASY RIDER. Poucos filmes, para mim, conseguem transmitir sentimentos tão intensos. Lançado no ano do festival de Woodstock, 1969, ele foi filmado no ano dos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy. Naqueles dias, os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnam, Nixon chegava à presidência. Era o colapso do sonho hippie dos sixties. Na verdade, era mais, era o ocaso do próprio sonho do pós guerra norte-americano, naquilo que ele teve de mais ingênuo e sincero. O filme, hoje quando a gente o assiste, deve ser compreendido em suas múltiplas dimensões. Easy Rider pode ser definido com um road movie, um dos primeiros do estilo, um filme independente, daquela nova geração de diretores, já rompida com os grandes estúdios (e em busca de independência), direcionado para o público alternativo, basicamante uma aventura trágica e de final chocante. Mas ele também pode ser percebido como um manifesto da agonia de sua era. Pois Easy Rider se cristalizou através do tempo como uma relíquia beat, um ícone, um instantâneo da contracultura do seu tempo, ao mostrar a jornada iconográfica de seus dois anti-heróis, que montados em suas Harleys e movidos à drogas diversas, penetram no sombrio e desolado território de uma América bem diversa daquela de seus sonhos, em busca de uma liberdade conceitual e sem limites. No Brasil, seu título é “Sem Destino”.
Em seu caminho, eles atravessaram paisagens míticas do inconsciente norte-americano, como o Mountain Valley, cruzam várias cidades através das freeways, conhecem figuras pitorescas, prostitutas e comunidades hippies, ao som primoroso de artistas como Steppenwolf, Jimi Hendrix, The Band, Fraternity Of Man, The Byrds e Bob Dylan. A trilha sonora é extraordinária. Tenho a sorte de ter o LP, um dos mais bem conservados de minha coleção. O CD também saiu no Brasil, é perfeito para ouvir no carro, na estrada, rodando por acaso.

Os nomes dos dois principais personagens, Wyatt, apelidado de “Captain America” e Bill, evocam os lendários cowboys Wyatt Earp e Billy The Kid, ou mesmo Wild Bill Hickcock. Nossos heróis também buscam a fronteira, o território desconhecido do verdadeiro american dream. A trama, em si é simples de resumir: Wyatt e Bill compram cocaína no México, a vendem a um almofadinha norte-americano e, com a grana, partem para o festival Mardi Grass, em New Orleans. Na volta, São mortos por caipiras nos ermos do sul dos estados unidos. O sonho morria com eles.

Peter Fonda e Dennis Hopper estão perfeitos. Karen Black também está presente, ótima como sempre. A participação de Jack Nicholson, como um advogado alcoólatra de uma cidadezinha do interior é brilhante, e é de seu personagem, George Hanson, um dos mais marcantes diálogos, ao advertir os viajantes sobre a mentalidade à margem das freeways:

“Eles não têm medo de vocês, mas do que vocês representam. Para eles vocês representam a liberdade. Mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca diga a alguém que ele não é livre...porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é. Você é que corre perigo.”

Precisa dizer mais?