terça-feira, outubro 24, 2006

Desvio para o vermelho

Francis Coppola forneceu mostras de seu gênio ao dar dimensões míticas a uma história cruel e atormentada sobre a juventude e a dilacerante passagem para a idade adulta. À sua maneira, quando estabeleceu seu set em Tulsa, no verão de 1983. Ele criou um clássico, um daqueles do cinema que vale a pena, uma jóia sobre a juventude perdida e a dura e desiludida visão de uma maturidade sem opções.

Baseado no romance homônimo de S.E. Hinton, que co-roteirizou seu texto para a versão cinematográfica, Rumble Fish é um dos melhores filmes de todos os tempos. Encapsulado numa embalagem de um filme adolescente, Rumble Fish é uma fábula seminal de nossos tempos, um retrato magnífico e em preto e branco – com ênfase nas sombras – da impossibilidade da volta e da fragilidade de nossas opções diante da realidade que nos envolve.
De início, o título em português, “O Selvagem da Motocicleta” é uma referência à imagem mítica do rapaz da motocicleta. Na verdade, o título “Rumble Fish”, significa peixe de briga, um peixe japonês capaz de atacar seu próprio reflexo na água. Trata-se uma metáfora fundamental para a compreensão do sentido da história.

Rusty-Jemes vive a romântica idealização da subcultura das gangues, que agoniza sem que ele o perceba. Participa de brigas e se projeta na fama mítica de seu irmão mais velho, o “Rapaz da Motocicleta” - a figura local lendária,que, depois de liderar as gangues da região, “nos bons velhos tempos”, foi embora para a Califórnia (aqui abre-se uma janela para a tradicional imagem da Califórnia como um lugar de sonhos, um ensolarado ponto de fuga, no ideário de uma América sombria e repressiva). Mas ele um dia volta, como em um mito grego. Ele retorna diferente. Cínico, desiludido, amargo. A beleza de Rumble Fish está disponível apenas para quem consegue a ver. O filme é sutil, insinuante. Ele brinca conosco, com nossa capacidade de não enxergarmos nem o que se coloca bem diante de nós. O rapaz da motocicleta revê seu pai, Denis “Easy Rider” Hopper, dilacerado pelo álcool e pela dor do abandono; encontra uma antiga namorada, uma mulher mais velha, professora de literatura, viciada em heroína – escombros de seu passado, que afinal produziu quem ele é. Lawrence Fishburne está ótimo como o traficante local. Tom Waits, impagável como o barman com ondas de filósofo, Benny. Diane Lane, novinha, maravilhosa. Mickey Rourke e Matt Dilon, perfeitos. Os dois irmãos perambulam pelos ícones de uma América vazia e arruinada. Por suas ruas desertas, bares, atalhos apenas para o desespero e a total consciência do vazio da vida que lhes fora reservada. Rusty o vê como um estranho, mas ainda persegue o mito que criou em sua imaginação equivocada. Mas não pode o seguir em seu último ato desesperado.

O visual estilizado do filme reproduz a visão do Rapaz da Motocicleta, "como uma TV em preto e branco com o volume baixo", que não consegue enxergar as cores e é quase surdo. Filmado quase inteiramente em preto e branco (com exceção em relação aos peixes, e uma e outra cena simbólica). Recursos eletrônicos são usados com moderação (cores, nuvens que passam velozes, o relógio que caminha inflexível, os travelings monocromáticos no céu) e trilha sombria de Stewart Coppland costura tudo de forma arrebatadora, nessa bela a angustiante viagem para uma fuga impossível. “Seu irmão é diferente de você, Rusty. Ele é louco” – adverte o pai, entre um gole e outro. Na bela seqüência final, os peixes coloridos explicam o porquê do nome do filme (Rumble Fish).

domingo, outubro 22, 2006

Novidades no front (e um velho conhecido)

O bom e velho rock já teve sua morte clínica decretada pelos antenados de plantão muitas vezes. Vez por outra tem um coitado repetindo por aí a ultrapassada ladainha de que rock é sinônimo de música “jovem” e de novidade – parâmetros que identificam a música pop, que, claro, o rock revolucionou completamente, embora hoje siga seu caminho peculiar, vez por outra, claro, adentrando nessas conhecidas searas. Quanto tempo vamos ter que engolir babaquices de quem não conhece nada de rock arrotando gratuitamente baboseiras como “o hip hop é o novo rock”, “o techno é o novo rock”, “a minha mãe é o novo rock” (sic), kkkkk...esse pessoal nem sequer percebe a contradição desgastada que emerge dessa comparação, esse papo de “ X é o novo rock”. Rock é rock, meus filhos...quem tá vindo agora, depois de tudo, que faça a sua própria História – carona só ontem. Que vivam as “revoluções” retrógadas que pululam por aí. Nesse tumultuado front, é interessante observar alguns trabalhos recentes. Sediado em Londres, O Razorlight, apresenta seu segundo álbum, homônimo. O disco vai muito bem na Inglaterra, e talvez com ele a banda ascenda ao primeiro escalão, o que seria salutar para cena britânica – mas aí a qualidade estaria em xeque, claro. Note-se que foi usado o termo sediada em Londres, pois o line-up do Razorlight conta com um sueco e um norte americano, ao lado dos bretões. O som da banda pode ser considerado retrô, eighties old style, o que sempre é muito bom de se ouvir. De cara, o play engana, parece uma banda obscura lá de 87. As guitarras limpas, estaladas, a bateria marcial, urgente, o vocal solto e cool, as letras sentimentais.... tá tudo lá, numa nova exploração daquele universo fascinante. As composições são muito boas, e tendem para um som pop muito mais americano do que inglês. Esse é o momento da banda. Ao falar em som americano, o rock clássico ganha mais uma obra de grande qualidade, o “Highway Companion”, do sempre bom Tom Petty. Discípulo do rock fundamentalista ianque, Petty pela terceira vez consecutiva grava sem os seus Heartbreakers (da banda só diz presente o guitarrista Mike Campbell), mas, nesse particular, acredito que os seus dois últimos álbuns, “Full Moon Fever” de 1989 e “Wildflowers” de 1994, são seus melhores trabalhos, numa análise orgânica - não estou falando de hits. Mas “Highway Companion”, apesar de recente, já demonstra capacidade de se unir a eles. A mesclagem de diferentes estilos, embalada pelos clássicos acordes abertos da Rickenbaker de Petty, sem falar em sua voz Dylanesca, continua no ponto. Ainda bem. Vindo da Austrália, assíduo celeiro de boas bandas, o Wolfmother vive seu hype com um precocemente clássico primeiro álbum, editado localmente no ano de 2004 e lançado no mercado norte-americano e europeu esse ano. Também homônimo, o trabalho de estréia do power trio é impressionante, por várias razões. De início, provoca uma sensação de que descobrimos uma cápsula do tempo, como ocorre com o Razorlight, só que nesse caso a viagem é mais profunda, nos levando para o hardão progressivo dos 70 – mudanças rítmicas, estruturas recortadas, stoner sound, órgão hammond, Les Pauls, letras místicas. Depois, ao se constatar que a a banda foi formada em 2000, décadas depois do que se acredita ao ouvir seu som, exala uma maturidade difícil de encontrar em uma banda iniciante, apesar do vocal emular ostensivamente Ozzy. Para quem se sentia órfão de lendas como o Blue Cheer, vale conferir. AGORA, ATENÇÃO: é hora de catar a obra-prima do Jesus and Mary Chain, Psychocandy (1985), a pedra de toque da geração sônica, e um dos grandes clássicos do rock. Para a minha geração, esse álbum foi o Velvet Underground and Nico. Claro que depois eu conheci o pai de todos, e então vi como tudo começou. Mas o lance do Psychocandy é afetivo, mesmo – era ouvir e adorar loucamente, simples assim. Ali tá o mapa da mina, a urgência e o barulho branco que mais uma vez tornaram toda uma cena musical possível, a ponte entre o Velvet, Phil Spector e o Beach Boys, entre o texto e a música, entre o silêncio e o barulho, o amor e a pornografia. A bateria seca, o baixo limpo e abafado...e aquela parede maravilhosa de guitarras noise... Esse som magnífico, construído pelos irmãos Reid (Jim, voz, e William, guitarras) com Douglas Hart no baixo e Bobby Gillespie (que depois formou o Primal Scream) na bateria, sai agora pela primeira vez no Brasil. Dá pena ver nos supermercados da vida. É como se um pedaço de nossa alma estivesse no balcão do açougue.

domingo, outubro 15, 2006

Outras viagens


O que é um rebelde?
- Um homem que sabe dizer não
Albert Camus
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Estradas, paisagens novas, distância de referências ...o imaginário sempre encontra um nova maneira de se expressar através das janelas que os grandes espaços vazios constroem. A simples vontade de partir remete a uma eterna redescoberta, um novo começo. Nesse tipo de jornada, três livros dionisíacos muito interessantes, que encerram diferentes viagens e diferentes descobertas...e que se combinam de uma forma apenas percebida após sua leitura. Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas (Ed. Paz e Terra, 1984)., de Robert M. Pirsig, é um achado, um livro único que deve ser compreendido em suas várias dimensões. O autor, acompanhado por seu filho de 12 anos, Chris, realizou uma extensa viagem de motocicleta através da América. A tônica não seria para onde ele ía, mas como ía. O título do livro não entrega seu conteúdo altamente filosófico – não, não se trata de guia para motociclistas budistas -, pois, além da viagem concreta a factual, uma grande viagem imaginária, do pensamento, também avança através das desérticas rodovias, uma fina análise do nosso pós modernismo social, em uma busca por algum tipo de equilíbrio e sobre o que seriam valores. “A motocicleta funciona inteiramente de acordo com leis racionais, e o estudo da arte da manutenção de motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade”, com esse norte, o autor trabalha na busca de uma funcionalidade da vida, diante das contradições de nossas idéias, observando que as pessoas mergulham em áreas irracionais do pensamento (ocultismo, misticismo, drogas) porque sentem que a razão clássica já não sabe lidar com os novos fatos que são cada vez mais reais – Ora, o mundo inteiro estaria apenas em nossa mente. Como lembramos de Kant, embora todo conhecimento comece com a experiência, não se pode deduzir que ele tenha origem na mesma...em suas páginas encontramos profundas reflexões sobre as grandes verdades analíticas que o senso comum nos impõe - e o que essas mesmas verdades analíticas nos fazem perder, através das observações do autor, pontuadas pelas intervenções de um personagem imaginário, o fantasmagórico Fedro. Pirsig constrói uma narrativa cativante e de final extraordinário. Dreamland - Viagens no Mundo Secreto de Roswell e Área 51(2000), de Phil Patton, mais conhecido como colunista da Esquire. Aqui, trata-se de um relato sobre uma viagem a um local onde o autor não poderia de fato ir - um lugar no deserto de Nevada do tamanho da Bélgica, e que oficialmente não existe. Lá estaria a base aérea onde são feitos os testes de vôo de aeronaves militares experimentais norte-americanas ultra-secretas (as lendárias séries - X) e ao mesmo tempo, o local onde as pessoas que crêem em teorias de conspiração acreditam que o Pentágono esconderia OVNIs e alienígenas. Esse lugar é chamado Dreamland - ou Área 51. Trata-se de uma região interditada, protegida por um perímetro de silêncio denominado “The Box”, uma Disneylândia hi-tech, onde pilotos lendários e fantásticos aviões secretos dividiriam o espaço aéreo com espaçonaves alienígenas...um estudo apaixonado sobre o imaginário dos adeptos das teorias da conspiração, dos fanáticos por tecnologia e dos gênios aeronáuticos, tribos divergentes e altamente sectárias, mas que convergiram continuamente para Dreamland, criando uma mítica própria e fascinante para o local, um mundo à parte da realidade e governado por regras bem peculiares. Patton examina como esse lugar foi construído, quem foram os seus criadores e seus principais atores. Para mim, um grande fã da engenharia aeronáutica radical da Skunk Works, Dreamland é um retrato de um mundo estranho e intrigante, onde cada página misteriosa pode ser saboreada como o ruído daqueles motores fantásticos e o prazeroso gosto de novas descobertas. Por fim, a Conrad lançou no Brasil Memórias de um Anarquista Japonês, de Osugi Sakae. Além da história da formação de um rebelde, um retrato dos primórdios do movimento socialista e anarquista no Japão, cuja sociedade é famosa pela rigidez. Sakae viveu os tempos do final do século XIX e início do século XX. Suas memórias são um raro canal para apreciarmos os desconhecidos movimentos revolucionários japoneses, da coragem daqueles que os perpetuaram e da fluidez de suas idéias pessoais. Individualista e irônico, escreveu pérolas como “Eu gosto do espírito. Seja como for, geralmente detesto quando o espírito é transformado em teoria. Detesto porque nessa passagem para a teoria, ele freqüentemente se torna servil, um colaborador em harmonia com a realidade social presente. Porque isso é uma fraude. Eu odeio o que os cientistas políticos e filósofos chamam democracia e humanismo. Fico doente só de ouvi-los. Eu odeio o socialismo também. E pela mesma razão, eu odeio um pouco o anarquismo. O que eu mais gosto é a ação cega da humanidade: a explosão de espírito."

segunda-feira, outubro 09, 2006

AD ASTRA ET ULTRA




"TODOS SÃO LIVRES PARA ESPECULAR À VONTADE SOBRE O SIGNIFICADO FILOSÓFICO E ALEGÓRICO DE 2001" - Stanley Kubrick



Dizer que 2001 – Uma Odisséia no Espaço é o melhor filme de Ficção Científica já feito pode parecer redundante, mas confesso que me sobram algumas dúvidas para afirmar algo nesse sentido. Entretanto, isso não importa. Ele é um dos filmes eternos do gênero, e a obra mais radical de Kubrick – e justa para com o mais radical gênero literário.
2001 não é um filme fácil, suas idéias complexas e sua visão da evolução permanecem instigantes e abertas a mil interpretações – é pegar ou largar. Seu conceito mítico, fruto da colaboração de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, é visionário e nunca depois foi igualado – e é emocionante, à sua maneira peculiar.
Em linhas gerais, seu argumento é baseado no conto “A Sentinela” (The Sentinel), de Clarke. Poucas vezes a Ficção Científica encontrou, no cinema, um veículo tão bem-acabado quando 2001. O conceito do enigmático monolito negro que permeia a história nasceu de um outro conto seu, “A Muralha das Trevas”: "Quando Shervane olhou para cima, em direção àquela monstruosa chapa de ébano que tanto perturbara sua mente, ela lhe pareceu suspensa e prestes a esmagá-lo com seu peso. Com dificuldade, ele afastou os olhos da visão hipnótica e se aproximou para examinar o material de que era constituída. (...) era fria ao toque. Na verdade, mais fria do que deveria ser (...) Não parecia nem dura nem macia, já que a textura iludia o tato de um modo difícil de analisar." ("A Muralha das Trevas", de "O Outro Lado do Céu", p. 84, Ed. Nova Fronteira), sendo que o primeiro contato com o intrigante objeto negro, em 2001, ocorre na pré-historia.
Desenvolvida a quatro mãos, a história de 2001 permanece, no fundo, como uma grande indagação. O que é o monolito? Quais os limites do infinito? Qual o sentido da existência da humanidade? O que é a memória? Existe tempo? Ou apenas morte? Por que a Discovery viaja até Júpiter? Por que HAL enlouquece? A inteligência desconhecida é esperta e letal, como a humana? É pior, é caprichosa e indiferente... E quer aprender mais ainda. Em paz com o gênero literário que representa, o fime é um exercício de imaginação. 2001 começa nos abismos do passado humano, quando um monolito negro transmite a inteligência na aurora do desenvolvimento dos primeiros hominídeos. Em seguida, viajamos para o futuro, onde a evolução é questionada diante da natureza inexplicável das relações do homem com sua tecnologia, com o Cosmos - quando o contato com o desconhecido e o sentido do seu destino, parece indicar que a nossa existência pode ser apenas um erro.
Os avanços cibernéticos e luta para sobreviver em meio às suas próprias criações, as teorias sobre o amanhecer dos tempos, o renascimento através de uma tecnologia não-humana e inexplicável - Dave Bowman morre ao completar sua missão em Júpiter e retorna à vida na forma embrionária, livre de seu corpo – uma nova mudança? Uma evolução demarcada no arrepiante final, o encontro com a morte, precedido pela emocionante “última ceia do homem” – solitário e despojado de suas memórias, abandonando a humanidade, num rito desprovido de sentido religioso? Quebra-se o cálice, mas o vinho permanece o mesmo, a bela metáfora para a dualidade corpo e espírito, vista numa concepção inovadora e original. Esses temas traçam as grandes linhas de 2001, sempre em paralelo com a grande FC literária. Salvo em raríssimas exceções, o cinema nunca foi tão longe. Mesmo que 2001, uma vez que trata de aspectos da História humana, não corresponda aos padrões da FC Hard, seu conceito corresponde. 2001 é uma típica narrativa de FC Hard, mesmo que ambientada em nosso sistema solar – apenas aparentemente, pois logo, literalmente desdobra-se para o infinito - "meu Deus! Está cheio de estrelas!!" – a essência da prosa hard. Na realidade, esse particular afasta 2001 de boa parte da produção de filmes de FC, pois sua história segue as linhas da FC literária – radical, que caminhou a passos largos para cada vez mais distante do cinema: a esmagadora maioria da produção de FC é meramente aventuresca e ridícula. Conheço gente que adora livros do gênero, mas acha todos os filmes sci-fi, com exceção de 2001 e de Solaris (o russo, claro – outra obra monumental já apresentada aqui), imbecis. Vendo 2001 é fácil concordar com eles, mesmo que a sedução do pulp seja grande, e em várias produções menores possamos identificar conceitos da boa FC. Mas a cisão entre a ficção científica literária e a cinematográfica, que 2001 provou ser lamentável, é cada vez mais acentuada.
Plasticamente, a estética do filme é revolucionária: cenas limpas, espetaculares, futurismo obsoleto sem pudores, longos planos de imagens subjetivas, perfeitamente sincronizados com a trilha sonora magnífica, a psicodelia do “túnel de luz” – a passagem para outro universo, ou uma outra visão do universo? – e a revelação de que a odisséia espacial ocorre num plano muito mais profundo do que se imagina. Curiosidades, como o fato de que apenas 25 minutos depois de iniciado o filme se ouve as primeiras palavras, e ninguém sente falta disso antes – inclusive, dos 139 minutos do filme, apenas em 40 existem diálogos. Em grande parte, 2001 é uma experiência não verbal, um filho único, um laboratório de como se produzir cinema de uma forma nova. A fusão de som/imagem de 2001 em si é um exercício de vanguarda da arte cinematográfica. Lançou muitas técnicas de filmagem utilizadas posteriormente, como a filmagem em vídeo simultânea à película, a câmera ser carregada nas mãos, para acentuar a tensão dos momentos de suspense, o contraste de cores, todas esas inovações, depois de 2001, foram assimilados pela técnica de se fazer cinema.

A odisséia espacial ocorre num plano tudo menos óbvio, e questiona os limites do infinito, nosso e do Cosmos que nos cerca, na sua viagem através da própria eternidade – há melhor definição para a Ficção Científica?




terça-feira, outubro 03, 2006

Notas rápidas como a vida





Há um livro, sobre pegar a estrada e ir até um ponto onde não existe mais volta. Não uma volta em termos geográficos, mas um retorno existencial. Acordem, On The Road foi relançado no Brasil...
Bob Weir disse que seria um “rito de passagem”, algo nesse sentido. Trata-se de uma busca, uma viagem pessoal, à procura da individualidade esquecida em algum ponto - e tudo que isso implicaria: sexo livre, drogas e muita música, no caso do autor, o jazz . Jean-Louis Lébris de Kerouac, Jack Kerouac, também escreveu sobre a vida e a difícil passagem através dela...


Sob muitas dimensões, On The Road reflete o levante da Beat Generation, apesar de Jack Kerouac ser um cara inclassificável - no fundo um agregado dos Beatniks mais conceituais, como Ginsberg e Corso. EUA, anos 50...Os baby-boomers crescem com as TVs gigantes na frente da cara, o conservadorismo ía a mil por hora, a segurança do sistema ditava as normas na explosão de consumo e de intolerância velada, travestida em proteção, que eclodiu no pós-guerra. Os beatniks, marginais e poetas-marginais do final da década de 1940 e início dos anos 50, em Nova York e, logo em seguida, em San Francisco, eram os deslocados, também denominados Hipsters -, vinham desses subúrbios e dos imensos novos conjuntos habitacionais, reluzentes de novos, que surgiam ao logo das freeways e cercanias das grandes cidades. A vida artificial estalava suas novas maravilhas, TVs, eletrodomésticos, ídolos cinematográficos, revistas coloridas, carrões rabos-de-peixe, pessoas inexpressivas e vidas vazias...

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Kerouac foi, na verdade, um romântico extremado e radical; e sua vida, um percurso em busca do impossível: a concretização de seus ideais, de uma ética da pureza, a ressurreição de seus personagens queridos, a recuperação do tempo perdido, da infância idílica, da inocência original do ser humano, da vitória sobre a morte. Nesse percurso, viajou por seu país e por outros lugares do mundo, viveu e atuou intensamente, para, ao fim, fechar-se em copas, recolher-se até morrer, isolado e incompreendido, aos 47 anos de idade”.
Claudio Willer


On The Road (no Brasil, Pé na Estrada, disponível na série pocket da LP&M), escrito na denominada “prosódia bop” – a sua autoral forma de narrativa que buscava levar para o papel o fluxo da consciência, a sucessão de imagens e idéias, o fruir do som e o ritmo das palavras, os valores fonéticos e prosódicos da língua falada, vivos e pulsantes, desconectados de seu sentido imediato – e de sua melodia - como os acordes do free jazz que tanto adorava. Trata-se do relato definitivo de como a beat generation não poderia caber nos estritos liames do novo modo de vida que se aperfeiçoava. Sob muitos aspectos, a contracultura ainda engatinhava, diluída e crua nos subterrâneos, onde aos poucos as sementes das rebeliões juvenis da década de 1960 eram lançadas. Ainda não havia o rock – existia o rockabilly, que criava sua face – mas havia o tépido jazz, mais precisamente, o free jazz, e a mítica da estrada, das freeways, de que algo, algo ainda acontecia – mas muito longe...a Beat Generation acabou por se constituir na última grande revolução literária, e em sua fúria, demonstrou o declínio que acometia esse gênero artístico, que nunca mais se recuperou. On The Road deu uma voz confessional à geração crescida durante a Segunda Guerra mundial, para quem os resultados desta e o mundo surgido após o sangrento conflito não eram suficientes. Mantém-se ainda hoje como um libelo de discordância e da busca da libertação das amarras do complicado mundo moderno – fala, digamos, sobre um estado de espírito.
Kerouac foi realmente um beat? Isso não importa. Sua obra foi, naquilo que os beatniks tiveram de mais sincero e instigante. Em seu período de reclusão que estendeu-se de sua crise em 1961 até sua morte em 1969, ele acreditava que apenas fora um cronista e expectador do levante que aconteceu naqueles anos. Ele tinha divergências profundas, no plano ideológico e da moral, com Ginsberg e muitos outros de seus contemporâneos. Além disso, sua literatura “de estrada” – On the Road, The Dharma Bums, Tristessa , Big Sur, Lonesome Traveller, Desolation Angels – reflete apenas um período de sua vida, e uma das várias facetas de sua complexa e contraditória personalidade, uma cisão que apareceu em outros aspectos e momentos de sua vida. Kerouac sempre transitava nos extremos. Passos de sua via-crucis, por assim dizer; assim como sua pedestalização como arauto beatnik, algo que ele nunca quis.

Sua obra é universal. Em cada um de nós pode está, talvez adormecido, o beat aventureiro e o adulto que deseja recuperar a infância. A eterna derrota contra o Tempo inflexível, a contradição entre o sujeito e o mundo onde este deve viver, as barganhas que negociamos com nós mesmos: aí estão linhas que não são exclusivas de Kerouac, mesmo que soberbamente transcritas em suas frases longas e sem pontuação - que ele não poderia cortar, pois, se as cortasse, o sangue jorraria...e não seria só o dele, o nosso também.