Desvio para o vermelho
Francis Coppola forneceu mostras de seu gênio ao dar dimensões míticas a uma história cruel e atormentada sobre a juventude e a dilacerante passagem para a idade adulta. À sua maneira, quando estabeleceu seu set em Tulsa, no verão de 1983. Ele criou um clássico, um daqueles do cinema que vale a pena, uma jóia sobre a juventude perdida e a dura e desiludida visão de uma maturidade sem opções.Baseado no romance homônimo de S.E. Hinton, que co-roteirizou seu texto para a versão cinematográfica, Rumble Fish é um dos melhores filmes de todos os tempos. Encapsulado numa embalagem de um filme adolescente, Rumble Fish é uma fábula seminal de nossos tempos, um retrato magnífi
co e em preto e branco – com ênfase nas sombras – da impossibilidade da volta e da fragilidade de nossas opções diante da realidade que nos envolve.De início, o título em português, “O Selvagem da Motocicleta” é uma referência à imagem mítica do rapaz da motocicleta. Na verdade, o título “Rumble Fish”, significa peixe de briga, um peixe japonês capaz de atacar seu próprio reflexo na água. Trata-se uma metáfora fundamental para a compreensão do sentido da história.
Rusty-Jemes vive a romântica idealização da subcultura das gangues, que agoniza sem que ele o perceba. Participa de brigas e se projeta na fama mítica de seu irmão mais velho, o “Rapaz da Motocicleta” - a figura local lendária,que, depois de liderar as gangues da região, “nos bons velhos tempos”, foi embora para a Califórnia (aqui abre-se uma janela para a tradicional imagem da Califórnia como
um lugar de sonhos, um ensolarado ponto de fuga, no ideário de uma América sombria e repressiva). Mas ele um dia volta, como em um mito grego. Ele retorna diferente. Cínico, desiludido, amargo. A beleza de Rumble Fish está disponível apenas para quem consegue a ver. O filme é sutil, insinuante. Ele brinca conosco, com nossa capacidade de não enxergarmos nem o que se coloca bem diante de nós. O rapaz da motocicleta revê seu pai, Denis “Easy Rider” Hopper, dilacerado pelo álcool e pela dor do abandono; encontra uma antiga namorada, uma mulher mais velha, professora de literatura, viciada em heroína – escombros de seu passado, que afinal produziu quem ele é. Lawrence Fishburne está ótimo como o traficante local. Tom Waits, impagável como o barman com ondas de filósofo, Benny. Diane Lane, novinha, maravilhosa. Mickey Rourke e Matt Dilon, perfeitos. Os dois irmãos perambulam pelos ícones de uma América vazia e arruinada. Por suas ruas desertas, bares, atalhos apenas para o desespero e a total consciência do vazio da vida que lhes fora reservada. Rusty o vê como um estranho, mas ainda persegue o mito que criou em sua imaginação equivocada. Mas não pode o seguir em seu último ato desesperado.O visual estilizado do filme reproduz a visão do Rapaz da Motocicleta, "como uma TV em preto e branco com o volume baixo", que não consegue enxergar as cores e é quase surdo. Filmado quase inteiramente em preto e branco (com exceção em relação aos peixes, e uma e outra cena simbólica). Recursos eletrônicos são usados com moderação (cores, nuvens que passam velozes, o relógio que caminha inflexível, os travelings monocromáticos no céu) e trilha sombria de Stewart Coppland costura tudo de forma arrebatadora, nessa bela a angustiante viagem para uma fuga impossível. “Seu irmão é diferente de você, Rusty. Ele é louco” – adverte o pai, entre um gole e outro. Na bela seqüência final, os peixes coloridos explicam o porquê do nome do filme (Rumble Fish).












