Eclipse
Bom, é isso aí. Após 14 anos, o velho e bom Gilmour reapareceu, dessa vez com um álbum solo. 14 anos do último álbum de estúdio do Pink Floyd, o Division Bell. Dele mesmo, o último solo saiu em 1984 - About Face-, ou seja, há 22 anos. “Em uma ilha” é o título perfeito pra o trabalho, que apresenta um clima de descompromisso e nostalgia de alguém que parece isolado de seu tempo. A identificação é imediata. A viagem sonora está lá, aquele maravilhoso som floydiano que só as guitarras de Gilmour sabem construir. A presença de Rick Wright faz pensar, aqui e ali, que estamos ouvindo algum som esquecido do lado B de um disco imaginário do Pink, existente num limbo paralelo onde a fase Syd Barret/trilhas sonoras e o período pós Roger Waters dividissem a mesma realidade. Ao vislumbre de nuances daquelas paisagens sonoras que tantas madrugadas, tardes e manhãs psicodélicas embalaram, estranhas emoções afloram de novo. Naqueles tempos eu descia para a praia, ouvindo o Relics, o More....Em algumas curvas da estrada, ainda dá para ouvir “Cymbaline”, ou mesmo “Seamus”, se o som estiver desligado, kkk. Gilmour sabe construir seu som atemporal como poucos. Passagens instrumentais delicadas e viajantes, entrecortadas por uma lisergia triste e inspirada criam uma obra orgânica, para ser escutada na íntegra, e não aos pedaços. Como uma boa viagem. O reencontro com o Floyd antigo torna o som mais progressivo, e os contrastes sonoros explorados evitam a previsibilidade e revelam o cuidadoso trabalho com os timbres no estúdio, que tornam a audição com fones obrigatória. Barret já se foi. Avançando para o futuro, o Floyd está vivo, e da forma que as grandes bandas sempre quiseram viver: apenas através de seu som.

