Nosso espelho
A trajetória do The Velvet Underground, hoje, parece identificada com a mítica que emerge dos grandes clássicos. Sua influência onipresente no bom rock, que despontou de forma brutal nos saudosos anos 80, e que agora, retorna com força total, é o mais perceptível legado de seu caráter revolucionário, ao produzir, nos anos 60, uma nova cultura para a música, um som inédito que definiria o adult oriented rock, a cena indie e o lado mais experimental do filho mau do blues. Idolotrada e copiada sem limites, nem cerimônia, a banda novaiorquina tornou-se um monstro obscuro, cuja sombra conceitual é perceptível em todos os movimentos da música e da cultura pop que se seguiram.
Lembrada de forma simplista como a banda que revelou Lou Reed e John Cale (e Nico, claro), o Velvet Underground encarnou a fábula triste do grupo desconhecido que se reúne, tira um som e constrói algo eterno, cujo impacto apenas se torna objeto de análise muitos anos depois de sua retirada silenciosa de cena.
Voltemos aos sixties...nos EUA, a cena rock da costa oeste, em especial a da Califórnia, já decolara com bandas como o Quicksilver Messenger Service, o Jeferrson Airplene, e o Grateful Dead. Em São Francisco, a cena Hippie construía uma nova mitologia de “paz e amor”, baseada nas drogas psicodélicas, no amor livre e nas longas jams do então chamado West Coast Rock, que cruzava influências como o country elétrico, o jazz e o bluegrass. Havia um mote ideológico de retorno a uma vida simples e a uma sociedade artesanal, em contrapartida ao nacionalismo doentil do american way of life e a já perceptível derrocada dos EUA no Vietnam. Sem dúvida, essa busca de um novo modo de viver, baseado numa anarquia ingênua - até mesmo poética - e em vários proselitismos naturalistas, aliados à percepção da derrocada da ideologia do pós guerra (e ao desejo de fuga do front asiático) são identificados com fatores que fomentaram o fenômeno hippie.
Enquanto isso, no Reino Unido, o Blues norte americano servia de matéria prima para toda uma geração de bandas, que também buscavam referências no vaudeville e numa psicodelia mais social e muito mais literária, no caminho que desembocaria nas nascentes do chamado rock progressivo.
E havia New York.... a “grande maçã”. Como escreveu Tom Wolfe, mesmo para os norte americanos típicos, era um lugar à parte, quase mesmo um território estrangeiro. E, sob o aspecto cultural, era mesmo. New York era como um outro mundo, escuro, sujo, doentio. A cidade exagerada, a metrópole imunda, habitada por aquelas “pessoas cinzentas”, “sem cor nem emoções”, que enchiam suas ruas dia e noite, num ritmo frenético e incompreensível. Ali não havia “paz”; nem “amor”... a estética da sobrevivência era outra. Não havia o desejo de um retorno a algo semelhante a uma vida simples e agrária. Tudo ocorria em meio ao concreto, onde o paraíso aparentemente já existia... e era artificial, promovido pelas anfetaminas, pelo speed e pela heroína, drogas pesadas, encontradas facilmente no downtown e nas ruelas do Bronx e nos becos de Hell’s Kitchen. Naqueles bairros infinitos, gangs controlavam as ruas à noite, a violência era algo bem real e o vício, à parte de qualquer engajamento político ou naturalista, era uma realidade assustadora e quase sempre solitária, dissociada de contracultura e de qualquer tipo de poesia. Um caminho escuro, a ser percorrido sozinho...
No dia 11 de Dezembro de 1965, no Summit Institute, condado de Nova Jersey, município irmanado à New York, o judeu Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista) - ou mesmo Louis Firbank -, o galês John Cale (baixo,voz, viola elétrica, teclados), o esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, de pé por trás da bateria – disposta num curioso arranjo vertical-, a novata Maureen "Moe" Tucker, (que entrara no grupo dias antes, em razão da saída inesperada do baterista original, o doidaço Angus MacLise). Estavam todos vestidos de negro, plantados no meio de um amontoado de instrumentos de perfil estranhos (coisas como a ostrich guitar de Reed), com negros óculos de sol diante de uma platéia boquiaberta, que várias vezes levava às mãos ao rosto, protegendo seus olhos da fúria de um canhão de luz posicionado sadicamente por trás dos músicos, que executam de forma robótica uma extensa improvisação, “follow the leader”. O som que saía brutal dos amplificadores informava, com suas dissonâncias e progressões inovadoras, que uma nova era na música começava. Era o The Velvet Underground, o subterrâneo de veludo, nome pescado do título de um livro de Michael Leigh, um romance pornográfico vendido em sex shops baratas.
Em seguida veio "Venus in Furs" (uma das primeiras canções da banda, uma ode exótica, com sotaque árabe, à devassidão tediosa e sadomasoquista como uma única forma verdadeira de prazer – “(...) experimente o chicote, beije as botas de couro negro(...)” confirmava a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, “próprios do negócio perigoso que é o rock'n'roll”...
Inspirados nessa realidade marginal, as canções de Lou Reed transitavam pelas personagens da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Havia ali uma perceptível repulsa à beleza – uma sincronia com o affair “all beauty must die” – “toda a beleza deve morrer”, e uma negação à ingênua esperança de novos e melhores tempos surgiriam, temas propostos pela maioria das bandas hippies da década de 60. O lance do Velvet caminhava entre o irônico, o sombrio e o indiferente. E a crueldade. Nas palavras do escritor Stephen Koch, O Velvet criava um coquetel intolerante, onde “a liberação resultava ser uma humilhação; e a paz revela-se em forma de ira”, diante das limitações impostas pelo “status quo”.
Musicalmente, a banda constituiu uma evolução do rock, ao moldar um som novo, descomprometido com o blues e ligado à musica vanguardista de gente como John Cage e La Monte Young. Não existem paralelos entre o Velvet e a música boba do iê iê iê praticado por bandas muito mais famosas na época, como os Beatles, nem mesmo com as grandes bandas da cena hippie - as viagens eram outras. Lou Reed não escondia seu antagonismo pela cena da Costa Oeste, declarando em uma entrevista que “[...] tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas [...]"....Polêmicas à parte, e aqui não cabe discutir o legado do som de São Francisco, os acordes velvetianos, sem dúvida, levaram o rock à fronteiras nunca imaginadas, e é aí que está a matriz para muita gente que veio depois, achando que descobriu a roda. Lou Reed, como compositor, acreditava numa ligação entre o rock e a literatura. Aliás, numa sucessão. Para ele, que bem poderia ter sido um poeta ou um escritor adstrito ao mundo literário, calhou de ser o rock a forma de arte “de sua geração”. Os veículos que vieram antes, estariam obsoletos. O rock – o rock que eles faziam – seria também uma forma de grande arte, eterna e profundamente complexa.
As apresentações no Summit Institute, chamando a atenção do produtor Al Aronowitz, abriram caminho para shows numa espelunca chamada “Cafe Bizarre”. Apesar do nome, o local estava mais para um Dinner com som ao vivo, encravado no centro decadente. Nesse local, cercado dos personagens e dos aditivos que retratava em sua obra, o Velvet amadureceu muitas de suas composições e desenvolveu sem som, tornando-o coeso e orgânico. Também foi lá que a banda se encontrou com Andy Warholl, pintor e designer, mentor da pop art, naqueles dias já estabelecido no mundo artístico de New York. Warholl impressionou-se com a crueza das letras de Reed e com o som bruto e experimental da banda. Como um mecenas, ele abrigou o Velvet em seu ateliê The Factory - A Fábrica - e o integrou a seu projeto EPI, uma trupe abertamente homossexual de artistas marginais, cineastas independentes, profissionais de teatro, performers, artistas plásticos e...músicos. Apesar de efêmera, essa associação com Warholl possibilitou ao Velvet obter um contrato com uma gravadora, o selo jazzístico Verve, associado à MGM. Uma das maiores interferências de Warholl na banda foi a inclusão de Nico, uma jovem cantora e atriz, que desempenhava o papel de chanteuse .
Em março de 1967, saía The Velvet Undeground and Nico, uma das pedras de toque de tudo o que se pode chamar de música moderna, com aquela famosa capa de Andy Warhol - creditado como produtor - uma fálica e lustrosa banana, representando algo como a devassidão humana, de forma irônica e zombeteira - posição levada aos requintados extremos nas letras de Reed. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo pessoal de Lou Reed desde sua época universitária em Syracuse) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, possivelmente a faixa mais acessível).
Ao primeiro álbum se seguiu o inigualável “White light/white heat”, já sem o apadrinhamento de Warholl – que limitou-se a bolar a capa, na qual sob um fundo negro, destacava-se, em relevo, um braço tatuado com uma caveira, algo que se perdeu na versão em CD - , e sem Nico. Centrado no lado mais pesado e dissonante da banda, nele brilham pérolas do “lado escuro” como a assombrada faixa título, onde a luz branca e o calor branco podem ser interpretados como uma pegada de cocaína; “Sister Ray”, que sem nenhum pudor narra uma lasciva orgia envolvendo marinheiros e travestis e “I head her call my name”, clássico da guitarra ostrich.
No terceiro álbum ocorre a saída de John Cale – substituído por Doug Yule -, que discordava do líder Lou Reed. Durante as gravações, Reed procurou aproximar a sonoridade da banda de um folk rock mais convencional. De fato, o terceiro disco (e o quarto, já póstumo, Loaded), mesmo que brilhantes e com algumas grandes sacadas na forma de composição, representaram uma guinada para um som mais suave e contido, mas ainda visionário e muito, muito à frente do seu tempo. Loaded, o último disco “oficial” da banda, que foi lançado já após a saída do próprio Lou Reed - que partiu para uma brilhante carreira solo - ganhou uma versão dupla em CD, com muito material inédito e várias demos. Doug Yule, recusando-se a enterrar a banda – seu ganha-pão -, lança uma última cartada, o obscuro LP Squeeze – inédito em CD, só encontrado no mundo virtual da mp3 -, renegado pelos fãs - mas visto hoje, numa perspectiva puramente história, é um álbum regular de soft rock. E então o Velvet desaparece, até seu eco criativo o fazer ressurgir como uma das bandas de rock mais influentes da história.
Hoje, visto em seu conjunto, o legado do Velvet Underground é impressionante, algo que, mesmo díspare de seus contemporâneos, apenas poderia ter tomado lugar nos sixties, que para os ignorantes se resumem a Beatles, Rolling Stones, Joplin e Hendrix. E Doors. Mas as grandes mudanças não são perceptíveis senão quando vistas de longe. Como escreveu Lou Reed, “It’s the begining of a new age”. E foi mesmo. O início de uma nova era……
Para conhecer mais sobre a banda, acesse agora http://members.aol.com/olandem/vu.html
Venus In Furs
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart
Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Heroin
I don't know just where I'm going
But I'm gonna try for the kingdom, if I can
'Cause it makes me feel like I'm a man
When I put a spike into my vein
And I'll tell ya, things aren't quite the same
When I'm rushing on my run
And I feel just like Jesus' son
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I have made the big decision
I'm gonna try to nullify my life
'Cause when the blood begins to flow
When it shoots up the dropper's neck
When I'm closing in on death
And you can't help me now, you guys
And all you sweet girls with all your sweet talk
You can all go take a walk
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I wish that I was born a thousand years ago
I wish that I'd sail the darkened seas
On a great big clipper ship
Going from this land here to that
In a sailor's suit and cap
Away from the big city
Where a man can not be free
Of all of the evils of this town
And of himself, and those around
Oh, and I guess that I just don't know
Oh, and I guess that I just don't know
Heroin, be the death of me
Heroin, it's my wife and it's my life
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I'm better off and dead
Because when the smack begins to flow
I really don't care anymore
About all the Jim-Jim's in this town
And all the politicians makin' busy sounds
And everybody puttin' everybody else down
And all the dead bodies piled up in mounds
'Cause when the smack begins to flow
Then I really don't care anymore
Ah, when the heroin is in my blood
And that blood is in my head
Then thank God that I'm as good as dead
Then thank your God that I'm not aware
And thank God that I just don't care
And I guess I just don't know
And I guess I just don't know

Lembrada de forma simplista como a banda que revelou Lou Reed e John Cale (e Nico, claro), o Velvet Underground encarnou a fábula triste do grupo desconhecido que se reúne, tira um som e constrói algo eterno, cujo impacto apenas se torna objeto de análise muitos anos depois de sua retirada silenciosa de cena.
Voltemos aos sixties...nos EUA, a cena rock da costa oeste, em especial a da Califórnia, já decolara com bandas como o Quicksilver Messenger Service, o Jeferrson Airplene, e o Grateful Dead. Em São Francisco, a cena Hippie construía uma nova mitologia de “paz e amor”, baseada nas drogas psicodélicas, no amor livre e nas longas jams do então chamado West Coast Rock, que cruzava influências como o country elétrico, o jazz e o bluegrass. Havia um mote ideológico de retorno a uma vida simples e a uma sociedade artesanal, em contrapartida ao nacionalismo doentil do american way of life e a já perceptível derrocada dos EUA no Vietnam. Sem dúvida, essa busca de um novo modo de viver, baseado numa anarquia ingênua - até mesmo poética - e em vários proselitismos naturalistas, aliados à percepção da derrocada da ideologia do pós guerra (e ao desejo de fuga do front asiático) são identificados com fatores que fomentaram o fenômeno hippie.
Enquanto isso, no Reino Unido, o Blues norte americano servia de matéria prima para toda uma geração de bandas, que também buscavam referências no vaudeville e numa psicodelia mais social e muito mais literária, no caminho que desembocaria nas nascentes do chamado rock progressivo.
E havia New York.... a “grande maçã”. Como escreveu Tom Wolfe, mesmo para os norte americanos típicos, era um lugar à parte, quase mesmo um território estrangeiro. E, sob o aspecto cultural, era mesmo. New York era como um outro mundo, escuro, sujo, doentio. A cidade exagerada, a metrópole imunda, habitada por aquelas “pessoas cinzentas”, “sem cor nem emoções”, que enchiam suas ruas dia e noite, num ritmo frenético e incompreensível. Ali não havia “paz”; nem “amor”... a estética da sobrevivência era outra. Não havia o desejo de um retorno a algo semelhante a uma vida simples e agrária. Tudo ocorria em meio ao concreto, onde o paraíso aparentemente já existia... e era artificial, promovido pelas anfetaminas, pelo speed e pela heroína, drogas pesadas, encontradas facilmente no downtown e nas ruelas do Bronx e nos becos de Hell’s Kitchen. Naqueles bairros infinitos, gangs controlavam as ruas à noite, a violência era algo bem real e o vício, à parte de qualquer engajamento político ou naturalista, era uma realidade assustadora e quase sempre solitária, dissociada de contracultura e de qualquer tipo de poesia. Um caminho escuro, a ser percorrido sozinho...
No dia 11 de Dezembro de 1965, no Summit Institute, condado de Nova Jersey, município irmanado à New York, o judeu Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista) - ou mesmo Louis Firbank -, o galês John Cale (baixo,voz, viola elétrica, teclados), o esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, de pé por trás da bateria – disposta num curioso arranjo vertical-, a novata Maureen "Moe" Tucker, (que entrara no grupo dias antes, em razão da saída inesperada do baterista original, o doidaço Angus MacLise). Estavam todos vestidos de negro, plantados no meio de um amontoado de instrumentos de perfil estranhos (coisas como a ostrich guitar de Reed), com negros óculos de sol diante de uma platéia boquiaberta, que várias vezes levava às mãos ao rosto, protegendo seus olhos da fúria de um canhão de luz posicionado sadicamente por trás dos músicos, que executam de forma robótica uma extensa improvisação, “follow the leader”. O som que saía brutal dos amplificadores informava, com suas dissonâncias e progressões inovadoras, que uma nova era na música começava. Era o The Velvet Underground, o subterrâneo de veludo, nome pescado do título de um livro de Michael Leigh, um romance pornográfico vendido em sex shops baratas.
Em seguida veio "Venus in Furs" (uma das primeiras canções da banda, uma ode exótica, com sotaque árabe, à devassidão tediosa e sadomasoquista como uma única forma verdadeira de prazer – “(...) experimente o chicote, beije as botas de couro negro(...)” confirmava a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, “próprios do negócio perigoso que é o rock'n'roll”...
Inspirados nessa realidade marginal, as canções de Lou Reed transitavam pelas personagens da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Havia ali uma perceptível repulsa à beleza – uma sincronia com o affair “all beauty must die” – “toda a beleza deve morrer”, e uma negação à ingênua esperança de novos e melhores tempos surgiriam, temas propostos pela maioria das bandas hippies da década de 60. O lance do Velvet caminhava entre o irônico, o sombrio e o indiferente. E a crueldade. Nas palavras do escritor Stephen Koch, O Velvet criava um coquetel intolerante, onde “a liberação resultava ser uma humilhação; e a paz revela-se em forma de ira”, diante das limitações impostas pelo “status quo”.
Musicalmente, a banda constituiu uma evolução do rock, ao moldar um som novo, descomprometido com o blues e ligado à musica vanguardista de gente como John Cage e La Monte Young. Não existem paralelos entre o Velvet e a música boba do iê iê iê praticado por bandas muito mais famosas na época, como os Beatles, nem mesmo com as grandes bandas da cena hippie - as viagens eram outras. Lou Reed não escondia seu antagonismo pela cena da Costa Oeste, declarando em uma entrevista que “[...] tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas [...]"....Polêmicas à parte, e aqui não cabe discutir o legado do som de São Francisco, os acordes velvetianos, sem dúvida, levaram o rock à fronteiras nunca imaginadas, e é aí que está a matriz para muita gente que veio depois, achando que descobriu a roda. Lou Reed, como compositor, acreditava numa ligação entre o rock e a literatura. Aliás, numa sucessão. Para ele, que bem poderia ter sido um poeta ou um escritor adstrito ao mundo literário, calhou de ser o rock a forma de arte “de sua geração”. Os veículos que vieram antes, estariam obsoletos. O rock – o rock que eles faziam – seria também uma forma de grande arte, eterna e profundamente complexa.
As apresentações no Summit Institute, chamando a atenção do produtor Al Aronowitz, abriram caminho para shows numa espelunca chamada “Cafe Bizarre”. Apesar do nome, o local estava mais para um Dinner com som ao vivo, encravado no centro decadente. Nesse local, cercado dos personagens e dos aditivos que retratava em sua obra, o Velvet amadureceu muitas de suas composições e desenvolveu sem som, tornando-o coeso e orgânico. Também foi lá que a banda se encontrou com Andy Warholl, pintor e designer, mentor da pop art, naqueles dias já estabelecido no mundo artístico de New York. Warholl impressionou-se com a crueza das letras de Reed e com o som bruto e experimental da banda. Como um mecenas, ele abrigou o Velvet em seu ateliê The Factory - A Fábrica - e o integrou a seu projeto EPI, uma trupe abertamente homossexual de artistas marginais, cineastas independentes, profissionais de teatro, performers, artistas plásticos e...músicos. Apesar de efêmera, essa associação com Warholl possibilitou ao Velvet obter um contrato com uma gravadora, o selo jazzístico Verve, associado à MGM. Uma das maiores interferências de Warholl na banda foi a inclusão de Nico, uma jovem cantora e atriz, que desempenhava o papel de chanteuse .
Em março de 1967, saía The Velvet Undeground and Nico, uma das pedras de toque de tudo o que se pode chamar de música moderna, com aquela famosa capa de Andy Warhol - creditado como produtor - uma fálica e lustrosa banana, representando algo como a devassidão humana, de forma irônica e zombeteira - posição levada aos requintados extremos nas letras de Reed. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo pessoal de Lou Reed desde sua época universitária em Syracuse) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, possivelmente a faixa mais acessível).
Ao primeiro álbum se seguiu o inigualável “White light/white heat”, já sem o apadrinhamento de Warholl – que limitou-se a bolar a capa, na qual sob um fundo negro, destacava-se, em relevo, um braço tatuado com uma caveira, algo que se perdeu na versão em CD - , e sem Nico. Centrado no lado mais pesado e dissonante da banda, nele brilham pérolas do “lado escuro” como a assombrada faixa título, onde a luz branca e o calor branco podem ser interpretados como uma pegada de cocaína; “Sister Ray”, que sem nenhum pudor narra uma lasciva orgia envolvendo marinheiros e travestis e “I head her call my name”, clássico da guitarra ostrich.
No terceiro álbum ocorre a saída de John Cale – substituído por Doug Yule -, que discordava do líder Lou Reed. Durante as gravações, Reed procurou aproximar a sonoridade da banda de um folk rock mais convencional. De fato, o terceiro disco (e o quarto, já póstumo, Loaded), mesmo que brilhantes e com algumas grandes sacadas na forma de composição, representaram uma guinada para um som mais suave e contido, mas ainda visionário e muito, muito à frente do seu tempo. Loaded, o último disco “oficial” da banda, que foi lançado já após a saída do próprio Lou Reed - que partiu para uma brilhante carreira solo - ganhou uma versão dupla em CD, com muito material inédito e várias demos. Doug Yule, recusando-se a enterrar a banda – seu ganha-pão -, lança uma última cartada, o obscuro LP Squeeze – inédito em CD, só encontrado no mundo virtual da mp3 -, renegado pelos fãs - mas visto hoje, numa perspectiva puramente história, é um álbum regular de soft rock. E então o Velvet desaparece, até seu eco criativo o fazer ressurgir como uma das bandas de rock mais influentes da história.
Hoje, visto em seu conjunto, o legado do Velvet Underground é impressionante, algo que, mesmo díspare de seus contemporâneos, apenas poderia ter tomado lugar nos sixties, que para os ignorantes se resumem a Beatles, Rolling Stones, Joplin e Hendrix. E Doors. Mas as grandes mudanças não são perceptíveis senão quando vistas de longe. Como escreveu Lou Reed, “It’s the begining of a new age”. E foi mesmo. O início de uma nova era……
Para conhecer mais sobre a banda, acesse agora http://members.aol.com/olandem/vu.html
Venus In Furs
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart
Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Heroin
I don't know just where I'm going
But I'm gonna try for the kingdom, if I can
'Cause it makes me feel like I'm a man
When I put a spike into my vein
And I'll tell ya, things aren't quite the same
When I'm rushing on my run
And I feel just like Jesus' son
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I have made the big decision
I'm gonna try to nullify my life
'Cause when the blood begins to flow
When it shoots up the dropper's neck
When I'm closing in on death
And you can't help me now, you guys
And all you sweet girls with all your sweet talk
You can all go take a walk
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I wish that I was born a thousand years ago
I wish that I'd sail the darkened seas
On a great big clipper ship
Going from this land here to that
In a sailor's suit and cap
Away from the big city
Where a man can not be free
Of all of the evils of this town
And of himself, and those around
Oh, and I guess that I just don't know
Oh, and I guess that I just don't know
Heroin, be the death of me
Heroin, it's my wife and it's my life
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I'm better off and dead
Because when the smack begins to flow
I really don't care anymore
About all the Jim-Jim's in this town
And all the politicians makin' busy sounds
And everybody puttin' everybody else down
And all the dead bodies piled up in mounds
'Cause when the smack begins to flow
Then I really don't care anymore
Ah, when the heroin is in my blood
And that blood is in my head
Then thank God that I'm as good as dead
Then thank your God that I'm not aware
And thank God that I just don't care
And I guess I just don't know
And I guess I just don't know


