segunda-feira, abril 02, 2007

Tem que ver!!!




Circula pelo Brasil, em cópia única, um filme imperdível: Amantes Constantes ( Les Amants Réguliers” França/Alemanha, 2005. 178 mins), 27º filme do cineasta francês Philippe Garrel, onde, sob o pano de fundo do movimento estudantil revolucionário de 1968, na França, adentramos nos territórios cada vez mais esquecidos da rebeldia, do sonho e da liberdade.


De início, é necessário atentar que o filme felizmente não segue um padrão didático, com ares de cultura oficial, daqueles que viram material de cursos universitários, mas, antes de tudo, é uma obra livre e apenas comprometida com sua própria existência. Há uma beleza estranha em suas cenas em preto e branco, um toque extremamente cuidadoso em sua fotografia, que nos faz crer que o longa simplesmente estava perdido por décadas nos arquivos de alguma distribuidora, e que finalmente encontrou o caminho dos cinemas. Sim, porque a película não tem cara de coisa atual, e, por isso mesmo, imagine-se, ela não é datada. Sob esse aspecto, esse tipo de linguagem nunca foi tão vanguardista...

Há no filme algo suave, e algo doloroso; esperança e lamentação parecem transitar nas mesmas cenas, como a crônica de algo que já aconteceu, mesmo ainda estando ocorrendo. Antes de ser um filme “mais difícil” sobre amor e política, como seria de se esperar, mesmo num circuito dito de “cinema de arte”, é uma peça sobre a criação e sobre a tentativa de se alterar a vida, sobre a possibilidade de se vivenciar uma mudança. Sobre o tempo, e sobre a construção e destruição de sonhos. Ele ergue-se como uma sombra do passado, golpeando de forma magistral a modorrenta e conservadora época atual. Em suma, representa uma fábula sobre resistência.

Naqueles dias, os jovens nas ruas de Paris acreditam ser possível substituir o governo de Charles de Gaulle (1890-1970) por um Estado socialista, algo ao mesmo tempo distante da burocracia repressora da União Soviética e próximo de uma modalidade política ligada à imaginação...e ao sonho. Algo como o “Socialismo como ele deveria ter sido”, numa fascinação contida, como se tal fosse um passo inevitável....pois, enfim, a história nunca termina...

Sob tal mote, percebe-se a armadilha em que tal tipo de narrativa pode cair, o que, de forma magistral, não ocorre no filme. Garrel constrói seus personagens e os aborda de forma corajosa, sem prender-se aos clichês que seriam esperados no gênero. Se há uma ligação elementar entre o filme de Garrel e, por exemplo, Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, outra obra sobre aquele maio de 68 - e citado no filme, para deleite dos cinéfilos -, que também descarna a forma como as drogas, o desejo, o prazer e o sexo são combustíveis para a revolta política, ao recriar o ambiente das “cápsulas revolucionárias” do período, é também como se Les Amants Réguliers fosse além, quase como uma segunda visão, ou mesmo uma continuação da obra de Bertolucci.

Dervieux (Louis Garrel, filho do diretor) é um jovem que integra um tipo de trupe de poetas, escritores e pintores que orbita em torno de um mecenas fascinado pelo ópio, Antoine. As discussões da turma, pitando o cachimbo de bambu, para muita gente, vão ter uma força emotiva e biográfica muito forte, pela identificação total. Dervieux então conhece Lilie (Clotilde Hesme), e os caminhos dos dois, por algum tempo, coincidem. Mas o confronto com a realidade passa a se dar em outros níveis.....
Iimperdível.