segunda-feira, novembro 20, 2006

Em meu coração, o frio do outono

O interesse por bandas apenas preocupadas em tocar e produzir bom rock, sem modismos ou frescuras do gênero, é bastante pendular, de modo que nesse meio, a sobrevivência é bastante difícil.
Na cena brasileira, uma banda ímpar, o VIOLETA DE OUTONO continua na ativa, a cada novo movimento escrevendo uma História brilhante e arrojada, onde não há espaço para a mediocridade.

Num meio musical permeado pelo efêmero e descartável, é cômico ver uns e umas por aí “descobrindo” bandas e artistas “sensacionais”, em geral a partir de páginas de revistas antenadas, ao mesmo tempo que ignoram completamente as poucas e boas coisas disponíveis que ainda valem a pena. Talvez seja isso, o Violeta é bom demais para esse pessoal, não dá para estabelecer a ponte de mediocridade entre o público e o artista, vital para a visibilidade em nossa contínua idade das trevas.

O Violeta aglutina fãs de gêneros como o progressivo, gótico, pop, psicodélico e ainda assim mantém uma assinatura sonora inconfundível. E olhe, que inconfundível aqui passa longe de significar algo redundante como uma “marca brasileira” no som. Não, meus filhos, o som dos caras é pessoal mesmo – o que já é um mérito e tanto. O conjunto liderado pelo vocalista, guitarrista, compositor e produtor Fabio Golfetti, dá provas do que poderia ser (ou ter sido) a nossa cena independente, ao manter-se artisticamente instigante e conceitualmente tão longe da pasmaceria infantilóide/intelectualóide (há lixo para todas as idades e desgostos musicais) que inunda nossos sentidos, que acaba servindo de critério para separar quem curte boa música de quem não curte.

As origens da banda remontam ao ano de 1981, quando Fabio fazia parte de uma banda chamada Lux, voltada para o jazz experimental. O projeto Lux durou de maio daquele ano até março de 1982. Com o fim do Lux, Fabio tocou o projeto AMT-1, na mesma seara experimental, onde ficou até junho de 1983. Na aventura seguinte, a banda Ultimato - já influenciada pelo pos-punk do final dos anos 70 - ele topou com o baterista Claudio Souza. Os dois tocaram na primeira formação do Zero (a banda do Guilherme "agora eu sei" Isnard) até maio de 1985, e chegaram até a gravar um single com o grupo, "Heróis", antes de pularem do barco para formar uma banda com outra sonoridade, mais ligada aos anos 60. Chamaram o fotógrafo e baixista Angelo Pastorello, e "Scott" (o jornalista José Augusto Lemos, mais conhecido por seu trabalho na revista Bizz). Essa banda era o Violeta de Outono... “Scott” ficou apenas até outubro de 1985, quando o grupo se assumiu como um trio e lapidou continuamente sem som, que juntando adoração pelo Pink Floyd e o Led Zeppelin (em especial no que tange às harmonias orientais) - sem falar na cena de Canterbury -, com bandas eighties como o Echo and the Bunnymen, cristalizou um som complexo e ao mesmo tempo despojado. Vieram os shows, algum público e um convite da loja de discos/selo Wop-Bop para lançarem um EP. Fabio era cliente da loja desde 1975 e Claudio escrevia para um fanzine do René Ferri, Spalt.
O EP começou a ser disputado pelos fãs e a Wop-Bop acabou comercializando o que inicialmente seria um mero brinde. O disco, segundo Fabio, sedimentou toda a estética que o grupo sempre procurou, o instrumental progressivo/pós punk e as letras redundantes e soturnas... A música "Outono" inclusive virou um mini-hit e o grupo acabou caindo nas graças de uma major, a RCA, através de um selo menor da gravadora chamado "Plug". Nessa época eles poderiam, quem sabe, ter virado um estouro de mídia, pois consta que receberam um convite da Rede Globo para colocarem "Outono" em uma abertura de novela. A banda recusou o convite. A RCA ficou decepcionada com essa decisão, mas mesmo assim seguiu em frente com a banda. Lançaram um belo primeiro LP, homônimo, e que continha uma regravação de "Outono", uma cover de "Tomorrow Never Knows" dos Beatles, e ainda “Declínio de Maio”, outro eterno hino cult.

Em 1989 saiu o segundo disco pelo selo Plug, “Em Toda Parte”, que foi muito trabalhado – a produção foi excelente – mas que acabou ficando confuso e meio distante do som original que pretendiam fazer, mais uma vez em desacordo com a visão da RCA, que queria algo bem próximo do primeiro trabalho...Fabio informou que as idéias eram muitas e elas acabaram sendo mal traduzidas para o tape. Logo após o disco, o selo Plug foi extinto e a banda ficou sem o apoio da gravadora. Os dois discos venderam aproximadamente 40 mil cópias: 25 mil do primeiro e 15 mil do segundo.

Nesse período, o Violeta lançou uma fita K-7, The Early Years, pela Wop-Bop, contendo quatro canções de bandas dos anos 60: "Within You Without You" (Beatles), "Citadel" (Rolling Stones), Interstellar Overdrive (Pink Floyd) e "Blues for Findlay" (Gong), num pacote que incluía um zine com fotos, história e um flexi-disc solo de Fabio Golfetti, “Numa Pessoa Só”, sob a alcunha de "Opera Invisivel", na verdade um projeto "de anos" do guitarrista. Nesse período, Fabio lançou seu selo próprio, batizado também de “Invisível”.

Iniciou-se, então um verdadeiro período de invisibilidade da banda, que fez somente alguns shows. Naqueles dias, ocorreu o afastamanto de Cláudio Souza. Fabio voltou-se para o projeto "Invisible Opera of Tibet", idealizado por David Allen, do grupo inglês Gong. Os shows eram sempre vazios: os experimentalismos não estavam na moda...Em 1994 Fabio chama Souza e Pastorello para uma das jams do Invisible, e, por brincadeira, colocam no cartaz o nome “Violeta de Outono”. A casa lota, isso numa quarta-feira, com divulgação apenas de panfletos. Era o sinal de que a banda estava viva e o seu pequeno público, ávido por novidades. Em 1997, o grupo se apresenta no Rio Art Rock Festival, com participação especial do tecladista Fabio Ribeiro. Essa apresentação depois ganharia registro em CD. Em 1999, aparece o magnífico “Mulher na Montanha”, que foi editado pelo selo independente inglês Voiceprint, do qual Fabio se tornara representante comercial. Acessível, psicodélico e bem sintonizado com a linha de Canterbury, o álbum torna-se um clássico da música independente do Brasil. Nessa época, Claudio e Angelo deixaram novamente o grupo, frustrados com a pouca receptividade comercial e outros compromissos profissionais. Fabio agitou uma nova formação com Sandro Garcia (baixo) e Gregor Izidro (bateria), que afinal influiu na concepção sonora da Banda. Gregor era um baterista mais vigoroso do que Cláudio – que tocava bem no padrão marcial do pos punk inglês - e Sandro manejava habilmente um baixo Rickenbacker, que deu uma sonoridade mais sensual, gordurosa, ao som do grupo, quando comparamos com o som mais bruto do baixo Fender (Classic) de Angelo. Essa formação não lançou nenhum trabalho. Em julho de 2001, Sandro deixa a banda e Angelo volta. O grupo fez dezenas de apresentações, chegando a abrir para o Focus em São Paulo e tocar no Rio Art Rock Festival daquele ano. Em 2003 Gregor deixa a banda e retorna à bateria Claudio Souza, que havia praticamente abandonado o meio musical..

Em 2004 Fabio reativou o selo Invisivel e lançou, ao longo do ano, mais de 30 CDs, reunindo tudo que já gravou , desde o Lux até o Invisible Opera e projetos solos, inclusive uma extended version da Early Years - a Complete, com nada menos do que 14 canções, passando por sobras de estúdios e versões ao vivo. Na seqüência, o ano de 2005 trouxe grandes novidades, em especial o lançamento do CD “Ilhas”, gravado entre 2002 e 2003, contando ainda com Gregor, na bateria. Nesse ano, eu estava de passagem em São Paulo, e, apesar das difíceis circunstâncias, assisti a banda ao vivo pela primeira vez... Nos shows, com a volta de Claudio, o grupo deu um outro rumo ao som, trabalhando suas raízes progressivas, inclusive com a adição em tempo integral do tecladista Fernando Cardoso (Yessongs). “Ilhas” mostra a banda mais madura, em grandes momentos como "Blues","Língua de Gato em Gelatina" e a bela “Jupiter”. As apresentações que se seguiram permitiram ao Violeta inclusive gravar um DVD com uma orquestra, que saiu em 2006.

Em outubro de 2005 Angelo Pastorello deixou novamente o grupo, sendo substituído por Gabriel Costa, do Compacta Trio e Jack Rock Revival. Segundo fontes que assistiram shows em 2006, o estilo de Gabriel é mais próximo ao som de Canterbury... Fica a curiosidade de que vem por aí...
Não pare por aqui. Para saber mais sobre o Violeta de Outono, acesse o link
http://www.violetadeoutono.com.br/

domingo, novembro 05, 2006

Futuro atual








“Você pode matar um homem, mas não um ideal”.




V de Vingança (versão em português para V for Vendetta) é uma graphic novel escrita por Alan Moore, e em grande parte desenhada por David Lloyd. A obra foi publicada originalmente na Inglaterra entre 1982 e 1983, em preto e branco, pela Warrior, no entanto, sem finalização. Em 1988, por intermédio da DC Comics, a série foi finalizada e também ganhou uma edição colorida em sua versão norte-americana, para óbvio desagrado dos puristas. Fundamental, trata-se da maior obra já editada sob a forma de “quadrinhos”.

A história se desenvolve numa espécie de futuro/passado alternativo, no qual, após uma grande guerra que culmina em um hecatombe nuclear, a Inglaterra é governada por um regime fascista-totalitário. Nessa realidade alternativa, um anarquista, “V”, luta para destruir o regime, mesmo que tal intento leve à destruição da sociedade – ou a seu renascimento.

Triste e Sombria, dotada de uma visão política clara e radical sobre o papel do estado, “V” segue a linha de obras como 1984, de George Orwell - não como uma mera derivação, mas como um outro exemplar do gênero. Em seu mundo fascista fictício e noir, onde todos os aspectos da vida cotidiana são censurados (e também livros, músicas, teatro, cinema etc), os opositores ou indesejáveis são encarcerados em campos de concentração, torturados, mortos e submetidos a horripilantes “experiências” científicas e psicológicas, o texto de Alan Moore evidencia sempre a importância da cultura para a manutenção das liberdades individuais e ataca a ignorância dos detentores do poder, de seus instrumentos políticos/jurídicos e daqueles que os justificam, em várias seqüências e momentos memoráveis. Num sistema em que o estado vigia a liberdade, a pergunta primordial nasce espontaneamente: quem vigia os vigilantes? Tudo isso magistralmente representado nas páginas em preto e branco do original, compondo uma narrativa memorável e revolucionária.

Nesse contexto, surge um opositor do regime, uma personagem cativante e enigmática, “V”, que sempre se mostra com o rosto destruído recoberto por uma máscara -não, não se trata de um herói infantil como o Super Homem ou mesmo Batman – Moore vai muito além disso. Em tal aspecto, a história ganha mais pontos por não enveredar por um mero proselitismo messiânico, com tolices infantis como a idéia tosca de que “um libertador virá” e outras soluções abjetas . “V”, retratado pelo governo como um terrorista louco, antes de tudo, quer vingança...seu ódio irresistível e suas atuações teatrais, aliados ao fato de o mesmo não possuir um rosto próprio, o tornam uma das mais instigantes figuras literárias contemporâneas, uma idéia conceitual muito bem trabalhada por Moore.


Levada ao cinema pelos produtores de Matrix (os irmãos Wachowski), a história perdeu muito de seu impacto original, como se era de esperar, pois falamos aqui de uma trama que se desenrola no decurso de vários anos. O elenco está ok, Hugo Weaving, Natalie Portman e Stephen Rea estão muito bem - mas seus caracteres, vítimas do roteiro simplificante e supressivo, parecem meras sombras das personalidades que representam. “V” (Weaving) adquire ares românticos, apaixonando-se por Evey (Portman), que por sua vez já é mostrada como uma heroína decidida e questionadora, ao invés de uma adolescente atormentada que lentamente se transforma em uma mulher revolucionária, como na graphic novel. O detetive Finch (Rea) também é pintado com cores mais heróicas, ao invés do escombro atormentado do original, que compreende “V” a partir de uma viagem de LSD. Afora isso, no que tange ao aspecto ideológico, sai de cena o radical discurso anarquista do original, de um mundo sem líderes, para ganhar espaço a desgastada defesa da democracia. Entretanto, mesmo frisando que o próprio Moore declarou que sua oba fora desfigurada "completamente", o filme tem seus méritos, por não transformar “V” em um ser sobrenatural, um mutante ou outra coisa do gênero. Ao contrário, ele demonstra o insucesso da ação isolada em sua meta de destruir o presente e criar um novo futuro - mesmo que tal fururo seja trágico. Ainda que mitigada em sua força, e até mesmo algo infantilizada, a adaptação de “V” guarda alguns bons momentos. Mas, claro, o ideal é beber na fonte. No Brasil já foi editada de três formas distintas: uma minissérie em cinco capítulos coloridos, uma versão encadernada colorida e, por fim, em dois volumes em preto-e-branco. Basta escolher...

sexta-feira, novembro 03, 2006

Um pouco sobre a escuridão...

You know the day destroys the night Night divides the day Tried to run Tried to hide Break on through to the other side Break on through to the other side Break on through to the other side, yeah
Jim Morrison

Muitas das coisas que às vezes nos parecem óbvias na realidade carregam consigo mistérios e encantos insondáveis. Um dia desses, recebi um e-mail de uma leitora do blog, onde ela perguntava, ao final de sua mensagem: “por que a noite é escura?”...
Se a questão for encarada de um ponto de vista poético, ou mesmo filosófico, podemos compreender a resposta sob o seu aspecto de contraste, de mudança – e também de que trevas se levantam e obscurecem a luz (ponto de opinião negativo) ou de que a luz próxima – a do sol – se retrai e nos deixa contar as estrelas (ponto de opinião positivo), assim, obteríamos nossa resposta como uma explicação de que a natureza não admite a uniformidade, e nesse aspecto atribuímos valor à luz ou à escuridão. Entretanto, do ponto de vista científico, essa mesma questão, denominada tecnicamente de “O enigma da escuridão”, não apresenta facilidade em seu desmonte. Nem ao menos, na indicação do caminho que se possa seguir para por fim, explicá-lo.
Uma das constatações mais simples que podemos fazer é que o céu é escuro, à noite. É interessante notar que esse fato, sobre o qual ninguém opõe dúvidas, e que à primeira vista parece tão compreensível e óbvio para qualquer pessoa, tenha dado tanto o que pensar durante tanto tempo. Afinal, por que mesmo a noite é escura?
Avançando sobre o modelo Cartesiano, o primeiro estudioso que reconheceu as implicações da escuridão noturna foi o físico e astrônomo Johannes Kepler (1571-1630), em 1610. Kepler rejeitava veementemente a idéia de um universo infinito recoberto de estrelas, que nessa época estava ganhando vários adeptos principalmente depois da comprovação por Galileu Galilei de que a Via Láctea era composta de uma miríade de estrelas. Kepler usou o fato de que o céu é escuro à noite como argumento para provar que o universo era finito, como que encerrado por uma parede cósmica de matéria escura.

O tema foi revisitado por Edmund Halley (1656-1742) no século XVIII e por Heinrich Wilhelm Mattäus Olbers (1758-1840) em 1826 (ele também descobriu os dois asteróides, Palas (1802) e Vesta (1807)), quando passou a ser conhecido com o o“paradoxo de Olbers”.

Imaginemos o seguinte: primeiro, suponha que as estrelas estejam distribuídas de maneira uniforme em um espaço conceptualmente infinito. Para um observador em qualquer lugar (ponto de observação), o volume de uma esfera com centro nele aumentará com o quadrado do raio dessa esfera (dV = 4R2 dr). Portanto, à medida que ele olha mais longe, vê estrelas que crescem com o quadrado da distância. Como resultado, sua linha de visão sempre interceptará uma estrela, seja lá qual for a direção que ele olhe....


Como o brilho das estrelas cai com o quadrado da distância (conforme demonstrado por Johannes Kepler em Óptica, de 1604), enquanto o número de estrelas se incrementa com o quadrado da distância, podemos presumir que o céu deveria ser tão brilhante quanto a superfície de uma estrela média, pois estaria completamente coberto delas!

Mas obviamente não é isso que vemos e, portanto, o raciocínio está errado. Por que?
Algumas propostas de solução para o problema da escuridão:

1. A metéria interestelar (stardust) retém a luz das estrelas.

Essa foi a solução adotada pelo próprio Olbers. Seu problema é que, com o passar do tempo, à medida que fosse absorvendo radiação estelar, a matéria entraria em equilíbrio térmico com as estrelas, e passaria a brilhar tanto quanto elas....

2. A expansão do universo degrada a energia, de uma maneira que a luz de objetos muito distantes chega muito desviada para o vermelho e, portanto, muito fraca – e mesmo invisível (?)

O desvio para o vermelho ajuda na solução, pois sabe-se que o desvio é proporcional ao raio do Universo, mas a matemática contemporânea mostra que a degradação da energia pela expansão do universo não é suficiente para solucionar o paradoxo – afinal, falamos em desaparecimento e não apenas em escurecimento.

3. O universo não existiu por todo o sempre.
Essa é a solução por ora aceita para o Paradoxo de Olbers. Como o universo tem uma idade finita (iniciou-se com o dito big bang), e a luz tem uma velocidade finita, conclui-se a luz das estrelas mais distantes ainda não teve tempo de chegar até nós...Portanto, o universo que enxergamos é limitado no espaço, por ser finito no tempo – lembremos aqui que o tempo é a 5ª dimensão conhecida. Ora, sob esse ponto de vista, a escuridão da noite é uma prova de que o universo teve um início, um marco inicial, uma hora zero.

Usando-se a separação média entre as estrelas de 1 parsec, e o raio médio como o raio do Sol, de 700 000 km, obtém-se que o céu seria tão luminoso quanto a superfície do Sol se o Universo tivesse um raio de 2 ×1015 parsecs, equivalente a 6,6 ×1015 anos-luz. Como o Universo só tem 13,7 bilhões de anos, conclui-se que a idade finita do Universo é a principal explicação ao Paradoxo de Olbers. Por enquanto, claro.