sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Parece cocaína
Mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito
Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção
Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa

Fonte: Legião Urbana

terça-feira, dezembro 07, 2010

Traveller in time...




Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.


W.B. Yeats





quinta-feira, fevereiro 12, 2009

The sound of silence


Por motivos mil, esse blog hiberna desde 2007. Obrigado a todos pelas mensagens e pelas indicações. Breve algumas novidades para quem procura aqui algum alimento para o espírito.

Nada mais no momento.

domingo, agosto 05, 2007

A persistência da memória

O rock nacional persiste, e nos subterrâneos continuam a correr veios musicais criativos, completamente ignorados pela grande mídia. Agora que a primeira década do século XXI começa a aproximar-se do final, percebe-se melhor que, ao lado da turma high tech da música eletrônica e de outros ritmos da moda, afirmou-se também o legado de um passado não tão recente do rock nacional, dos grupos mais esquecidos do nosso “roque”: bandas que se moveram entre a psicodelia sessentista e o progressivo da década posterior, mesclando-os com a cena da tropicália e o bucolismo lisérgico da cena a independente inglesa dos anos 70, ao lado de fatores como com a pop art, a nouvelle vague e o cinema de Stanley Kubrick.

É sintomático que revistas musicais publiquem matérias sobre o relançamento da discografia de artistas como o Steve Hillage. Ocorre que, redescobrindo os caminhos da independência, o rock nacional ganha mais algum oxigênio, ao olhar para trás, e, com as ferramentas desses tempos tão “futuristas” produzir sons que apontam caminhos para uma sobrevida ainda um pouco maior do gênero. Registro aqui o quão interessante é o fato de que as bandas que hoje abarcam o som progressivo sejam rotuladas como integrantes do chamado rock “regressivo”, mais um sinal de como o caráter de “moda” e “onda” ainda oxidam a verdadeira evolução de alguma música de qualidade por essas bandas tropicais. Em face da indústria, claro que hoje em dia os tempos são outros, a expectativa de um sucesso radiofônico, um disco por uma major, deixaram novamente de ser a tônica, nem se sabe quais caminhos rentáveis serão definidos no atual cenário de falência do modelo decadente de mercado imposto pelas grandes gravadoras. Restam, como sempre, os shows. Mas ainda há vitalidade na música, e isso é o que importa. Assumindo a independência, o profissionalismo de algumas bandas, novas e veteranas, permite a confecção de trabalhos que pintam em cores vivas um curioso retrato das sonoridades da melhor música feita no Brasil.

Formada em 2003 por dois egressos do Mopho, os alagoanos Hélio Pisca ((baterista, agora tocando outros instrumentos também e compondo) e Júnior Bocão (baixista/ guitarrista/ cantor e compositor) a Casa Flutuante, também como a primeira banda (Mopho), é um combo de flower power, rock progressivo brasileiro e MPB. Em seu primeiro CD, correspondem (e muito) às expectativas. Se surpreende também pela qualidade de gravação, artisticamente, “a terra é nossa casa flutuante”, é um disco que impressiona, muito bom mesmo, bem executado, lúdico, onde baixo, guitarra e a bateria têm a companhia de piano elétrico, sopros, um cravo, flauta doce (um cara ótimo, Billy Magno, dá uma força), numa sonoridade atualizada do rock brasilero dos anos 70 (o chamado “rock rural”) e além. Vinhetas aparecem, sons atemporais constroem uma rica paisagem criativa. As letras cuidam do resto, em achados como “olha / Já faz tempo / E o meu tempo não olha pra trás/ Perder tempo já não rola mais” (na lisérgica Olha o Tempo) e “Tudo simples / Tudo tão claro / Carrego, na bolsa, idéias / Que me fazem entender melhor / O poder / O caos...” (no clássico imediato Imaginação). Produzido pelos próprios caras e masterizado pelo Luiz Calanca, da clássica Baratos Afins, é um trabalho indispensável, visite www.casaflutuante.com.br.... citar Mopho me levou a rever o primeiro dos caras, e finalmente a conhecer o segundo CD dessa fantástica banda, já de volta à Alagoas, "Sine Diabolo Nullus Deus", lançado no final de 2004, quando o grupo voltou, após dissolver-se em São Paulo...a capa, clonada de “Rubber Soul” dos Beatles, antecipa o coquetel de psicodelia, folk rock, balad
as à Neil Young e rock pesado que o guitarrista e vocalista João Paulo e o tecladista e ótimo compositor Leonardo retornaram primorosos, em momentos de maravilhas como “A música que fiz para você’, e “O amor é feito de plástico”. E fora da mídia, mesmo da mídia antenada, a banda - que nunca interrompeu as atividades- recuperou parte de seu espaço em 2006, com o lançamento do filme "Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock'n'Roll", longa de animação dirigido por Otto Guerra, com os personagens do cartunista Angeli, que teve uma música da banda incluída na trilha (a canção "Quando Você me disse Adeus", desse segundo álbum). A pré-estréia do filme em Maceió, realizada no Cine Sesi, foi seguida de um concerto superlotado e visceral da banda... De Alagoas ao Acre, o Los Porongas conquistam seu justo espaço na cena independente nacional, inclusive nas revistas especializadas, o que é bom, por trazer mais visibilidade a este grupo formado em 2003, e expoente da moderna música urbana do norte do Brasil. Como escreve Terrence Machado (videoblog.com.br), “Se com uma chama acesa sobre a cabeça, num artefato feito um chapéu de latão, denominado poronga, o seringueiro abre trilhas na floresta e cria varadouros pra extrair da mata seu sustento, o Los Porongas é capaz de um feito semelhante, mantendo o mesmo fogo com lampejos musicais e literários intensos[...]”, numa bela síntese do substrato da banda acreana formada por Diogo Soares (vocal), João Eduardo (guitarra), Márcio Magrão (Baixo) e Jorge Anzol (Bateria). Também aqui encontramos o rock setentista brasileiro, ancorado no imaginário amazônico, mas totalmente dissociado de um mero regionalismo. Trata-se de personalidade. As letras são mesmo ótimas, muito bem construídas e introspectivas. O som algo peculiar dos Porongas valoriza o trampo legal e criativo da guitarra, e o baixo e bateria revelam uma dose amadurecida de boas influências, movendo as canções por progressões e viradas para além das esquinas do rock convencional, ao passo que o vocal – com ecos de Renato Russo – detém a dose exata de melancolia e força. Que sigam por esses caminhos....dentro da tradição lisérgica sessentista, outra banda integra o panteão dos novos clássicos da psicodelia nacional. Trata-se do Laranja Freak, quarteto de Porto Alegre formado por Ricardo (teclado, voz e guitarra), Evandro (baixo), Ivanez (guitarra e voz) e Miro (bateria), em ação desde 1997. O som da banda que emerge do CD “Brasas Lisérgicas” remete a uma mistura de flower power e Jovem Guarda, um tipo de marca registrada dos caras. O título entrega o espírito da coisa. De fato, arranjos "nuggetianos", lisergia, guitarras nervosas e estridentes convivem com as harmonias vocais típicas do rock comercial sessentista brasileiro, notadamente a jovem guarda, influência que emerge também nas letras simples e sentimentais, num pacote atual e instigante. Nesse panorama dos bons álbuns de rock nacional que rolam por aí, não poderia faltar o esperado novo trabalho do lendário Violeta de Outono, “Volume 7”, lançado no dia 21 de junho último. São 22 anos de estrada, afinal. Dessa vez, a atual encarnação da banda (Fabio Golfetti - guitarra & vocal, Gabriel Costa - baixo, Claudio Souza - bateria, Fernando Cardoso - órgão Hammond, piano & synth), para gravar esse novo disco, atacou o conceituado estúdio MOSH, o maior da América Latina, onde registrou todas as músicas ao vivo (apenas a voz e alguns pianos foram gravados posteriormente, em "overdub"), de modo a captar toda a ambiência, energia e interação de sua hipnótica performance ao vivo, sempre viajante e permeada por longas passagens instrumentais de uma introspecção às vezes triste, às vezes de uma largação cativante. O clima é mesmo o de um live, mesmo que em estúdio – é isso, fala-se aqui de uma música efetivamente “viva”. E só com inéditas (oito composições ao todo)... em tais termos, o lirismo melancólico e a psicodelia do Violeta, nesse formato mais cru e despojado que o registrado nos últimos lançamentos da banda em CD, revelam as pontes primordiais que unem o som próprio da banda com a cena setentista de Canterbury (Camel / Caravan/ Soft Machine/etc), o que é bem realçado pelo baixão melódico de Gabriel e pelo belo trabalho do órgão Hammond de Cardoso, ao lado do som iluminado de Golfetti e Souza. Essa viagem orgânica produz incríveis momentos, algo abstratos, gentilmente congelados para nós no som magnífico e límpido que escapa do CD, que ainda e traz como bônus um videoclipe em MPEG gravado no estúdio. Segundo Golfetti, essa nova fase está apenas no começo. Que bom...

segunda-feira, julho 30, 2007

Grandes esperanças


O cinema de FC - de boa FC – atravessa uma fase terrível. A infantilização dos roteiros, a ótica aventuresca que destrói aqui e ali uma idéia interessante e o declínio da matriz literária esvaziam quase que por completo o conteúdo das produções que arriscam navegar pelos agitados e controversos mares da última fronteira da imaginação.

No entanto, em tempos de marés tão vazantes, Alerta Solar (Sunshine, Reino Unido, 2007 - 107 min ), do cineasta inglês Danny Boyle (Transpointing, Extermínio), carrega com alguma dignidade a responsabilidade de não deixar a FC cinematográfica permanecer na barbárie.

50 anos no futuro, o Sol está morrendo...e a última esperança da humanidade é depositada na missão da nave Ícaro II. Uma espécie de Rawana, a espaçonave foi concebida para praticar um experimento astrofísico difícil e assustador, capaz de provocar um mini-big-bang dentro da estrela moribunda, o que voltaria a fazê-la arder de novo. A abordagem das dificuldades de navegação espacial numa rota que conduz a uma estrela é séria e cientificamente coerente. Nesse aspecto, é introduzido na trama o fracasso de uma expedição anterior, realizada pela Ícaro I. A localização dessa última nave, que voara 7 anos antes com idêntico objetivo, divide a tripulação, que, logicamente, influenciada pelo físico Capa (o bom Cillian Murphy), decide ir até ela...e terá que arcar com as conseqüências...

Essa é a linha que conduz as aventuras da tripulação que tentará reacender a fornalha solar. O visual do filme é fantástico, a direção de arte é magnífica. Nesse tipo de narrativa, quando bem sucedida, o imaginário de tudo o que cerca o argumento em si voa, e a imaginação do espectador cria para si um filme diverso, onde a linha central resvala apenas num roteiro de deleites sucessivos. A plasticidade fascinante de Alerta Solar o faz um parente de obras como 2001 e Solaris, cavalos de batalha ainda invencíveis da FC cinematográfica, mas ele também padece de um DNA mutante, semelhante ao bem mais recente “Enigma do Horizonte” - um filme bom, mas que prometia muito mais, ao menos para quem curte FC: até a primeira metade é impressionante, até se render aos clichês do terror barato, deformando seu bom argumento FC para uma praia frustantemente convencional, a do terror genérico.... Introspectivo, Sunshine é um tipo de remanescente de um tempo pretérito em que a FC tinha um cordal filosófico, tratava de idéias; as explosões e as correrias eram incidentes subalternos – para os fãs da boa FC hard, “Alien” seria um dos culpados dessa funesta mudança de rumo, que transformou a FC numa muleta para gêneros bem mais pobres, como terror e a aventura. Pontos para o filme de Boyle. Em Sunshine, ao menos, o conteúdo central da história ganha contornos grandiosos nos longos travelings espaciais da câmera – que parece filmar numa gravidade zero – e das estupendas imagens da estrela agonizante e da sua complexa relação com aqueles que cruzam o vácuo ao seu encontro, lentamente ameaçando sua sanidade mental...e aqui ele segue a boa FC, até as soluções fáceis aparecerem com ares de “final surpreendente”, genérico e clichê, através da inclusão de um novo personagem na trama. A FC perde mais uma.

Mas isso não tira o brilho do filme, como não tira dessas outras produções citadas acima. Mas há algo triste nesse brilho, pois o filme que imaginamos é muito melhor...
No elenco estão nomes como Michelle Yeoh ("O Tigre e o Dragão"), Chris Evans (o Tocha Humana de "Quarteto Fantástico") além de Cillian Murphy (o Espantalho de "Batman Begins", que já trabalhou com Boyle em "Extermínio"), Rose Byrne ("Tróia"), Cliff Curtis ("A Encantadora de Baleias"), Troy Garity ("Ladrão de Diamantes"), Hiroyuki Sanada ("O Último Samurai") e Benedict Wong ("Coisas Belas e Sujas"). Vale ver, sim. Mas podia valer algo mais.

domingo, julho 22, 2007

Nosso espelho



A trajetória do The Velvet Underground, hoje, parece identificada com a mítica que emerge dos grandes clássicos. Sua influência onipresente no bom rock, que despontou de forma brutal nos saudosos anos 80, e que agora, retorna com força total, é o mais perceptível legado de seu caráter revolucionário, ao produzir, nos anos 60, uma nova cultura para a música, um som inédito que definiria o adult oriented rock, a cena indie e o lado mais experimental do filho mau do blues. Idolotrada e copiada sem limites, nem cerimônia, a banda novaiorquina tornou-se um monstro obscuro, cuja sombra conceitual é perceptível em todos os movimentos da música e da cultura pop que se seguiram.



Lembrada de forma simplista como a banda que revelou Lou Reed e John Cale (e Nico, claro), o Velvet Underground encarnou a fábula triste do grupo desconhecido que se reúne, tira um som e constrói algo eterno, cujo impacto apenas se torna objeto de análise muitos anos depois de sua retirada silenciosa de cena.

Voltemos aos sixties...nos EUA, a cena rock da costa oeste, em especial a da Califórnia, já decolara com bandas como o Quicksilver Messenger Service, o Jeferrson Airplene, e o Grateful Dead. Em São Francisco, a cena Hippie construía uma nova mitologia de “paz e amor”, baseada nas drogas psicodélicas, no amor livre e nas longas jams do então chamado West Coast Rock, que cruzava influências como o country elétrico, o jazz e o bluegrass. Havia um mote ideológico de retorno a uma vida simples e a uma sociedade artesanal, em contrapartida ao nacionalismo doentil do american way of life e a já perceptível derrocada dos EUA no Vietnam. Sem dúvida, essa busca de um novo modo de viver, baseado numa anarquia ingênua - até mesmo poética - e em vários proselitismos naturalistas, aliados à percepção da derrocada da ideologia do pós guerra (e ao desejo de fuga do front asiático) são identificados com fatores que fomentaram o fenômeno hippie.
Enquanto isso, no Reino Unido, o Blues norte americano servia de matéria prima para toda uma geração de bandas, que também buscavam referências no vaudeville e numa psicodelia mais social e muito mais literária, no caminho que desembocaria nas nascentes do chamado rock progressivo.

E havia New York.... a “grande maçã”. Como escreveu Tom Wolfe, mesmo para os norte americanos típicos, era um lugar à parte, quase mesmo um território estrangeiro. E, sob o aspecto cultural, era mesmo. New York era como um outro mundo, escuro, sujo, doentio. A cidade exagerada, a metrópole imunda, habitada por aquelas “pessoas cinzentas”, “sem cor nem emoções”, que enchiam suas ruas dia e noite, num ritmo frenético e incompreensível. Ali não havia “paz”; nem “amor”... a estética da sobrevivência era outra. Não havia o desejo de um retorno a algo semelhante a uma vida simples e agrária. Tudo ocorria em meio ao concreto, onde o paraíso aparentemente já existia... e era artificial, promovido pelas anfetaminas, pelo speed e pela heroína, drogas pesadas, encontradas facilmente no downtown e nas ruelas do Bronx e nos becos de Hell’s Kitchen. Naqueles bairros infinitos, gangs controlavam as ruas à noite, a violência era algo bem real e o vício, à parte de qualquer engajamento político ou naturalista, era uma realidade assustadora e quase sempre solitária, dissociada de contracultura e de qualquer tipo de poesia. Um caminho escuro, a ser percorrido sozinho...

No dia 11 de Dezembro de 1965, no Summit Institute, condado de Nova Jersey, município irmanado à New York, o judeu Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista) - ou mesmo Louis Firbank -, o galês John Cale (baixo,voz, viola elétrica, teclados), o esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, de pé por trás da bateria – disposta num curioso arranjo vertical-, a novata Maureen "Moe" Tucker, (que entrara no grupo dias antes, em razão da saída inesperada do baterista original, o doidaço Angus MacLise). Estavam todos vestidos de negro, plantados no meio de um amontoado de instrumentos de perfil estranhos (coisas como a ostrich guitar de Reed), com negros óculos de sol diante de uma platéia boquiaberta, que várias vezes levava às mãos ao rosto, protegendo seus olhos da fúria de um canhão de luz posicionado sadicamente por trás dos músicos, que executam de forma robótica uma extensa improvisação, “follow the leader”. O som que saía brutal dos amplificadores informava, com suas dissonâncias e progressões inovadoras, que uma nova era na música começava. Era o The Velvet Underground, o subterrâneo de veludo, nome pescado do título de um livro de Michael Leigh, um romance pornográfico vendido em sex shops baratas.

Em seguida veio "Venus in Furs" (uma das primeiras canções da banda, uma ode exótica, com sotaque árabe, à devassidão tediosa e sadomasoquista como uma única forma verdadeira de prazer – “(...) experimente o chicote, beije as botas de couro negro(...)” confirmava a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, “próprios do negócio perigoso que é o rock'n'roll”...

Inspirados nessa realidade marginal, as canções de Lou Reed transitavam pelas personagens da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Havia ali uma perceptível repulsa à beleza – uma sincronia com o affair “all beauty must die” – “toda a beleza deve morrer”, e uma negação à ingênua esperança de novos e melhores tempos surgiriam, temas propostos pela maioria das bandas hippies da década de 60. O lance do Velvet caminhava entre o irônico, o sombrio e o indiferente. E a crueldade. Nas palavras do escritor Stephen Koch, O Velvet criava um coquetel intolerante, onde “a liberação resultava ser uma humilhação; e a paz revela-se em forma de ira”, diante das limitações impostas pelo “status quo”.

Musicalmente, a banda constituiu uma evolução do rock, ao moldar um som novo, descomprometido com o blues e ligado à musica vanguardista de gente como John Cage e La Monte Young. Não existem paralelos entre o Velvet e a música boba do iê iê iê praticado por bandas muito mais famosas na época, como os Beatles, nem mesmo com as grandes bandas da cena hippie - as viagens eram outras. Lou Reed não escondia seu antagonismo pela cena da Costa Oeste, declarando em uma entrevista que “[...] tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas [...]"....Polêmicas à parte, e aqui não cabe discutir o legado do som de São Francisco, os acordes velvetianos, sem dúvida, levaram o rock à fronteiras nunca imaginadas, e é aí que está a matriz para muita gente que veio depois, achando que descobriu a roda. Lou Reed, como compositor, acreditava numa ligação entre o rock e a literatura. Aliás, numa sucessão. Para ele, que bem poderia ter sido um poeta ou um escritor adstrito ao mundo literário, calhou de ser o rock a forma de arte “de sua geração”. Os veículos que vieram antes, estariam obsoletos. O rock – o rock que eles faziam – seria também uma forma de grande arte, eterna e profundamente complexa.

As apresentações no Summit Institute, chamando a atenção do produtor Al Aronowitz, abriram caminho para shows numa espelunca chamada “Cafe Bizarre”. Apesar do nome, o local estava mais para um Dinner com som ao vivo, encravado no centro decadente. Nesse local, cercado dos personagens e dos aditivos que retratava em sua obra, o Velvet amadureceu muitas de suas composições e desenvolveu sem som, tornando-o coeso e orgânico. Também foi lá que a banda se encontrou com Andy Warholl, pintor e designer, mentor da pop art, naqueles dias já estabelecido no mundo artístico de New York. Warholl impressionou-se com a crueza das letras de Reed e com o som bruto e experimental da banda. Como um mecenas, ele abrigou o Velvet em seu ateliê The Factory - A Fábrica - e o integrou a seu projeto EPI, uma trupe abertamente homossexual de artistas marginais, cineastas independentes, profissionais de teatro, performers, artistas plásticos e...músicos. Apesar de efêmera, essa associação com Warholl possibilitou ao Velvet obter um contrato com uma gravadora, o selo jazzístico Verve, associado à MGM. Uma das maiores interferências de Warholl na banda foi a inclusão de Nico, uma jovem cantora e atriz, que desempenhava o papel de chanteuse .

Em março de 1967, saía The Velvet Undeground and Nico, uma das pedras de toque de tudo o que se pode chamar de música moderna, com aquela famosa capa de Andy Warhol - creditado como produtor - uma fálica e lustrosa banana, representando algo como a devassidão humana, de forma irônica e zombeteira - posição levada aos requintados extremos nas letras de Reed. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo pessoal de Lou Reed desde sua época universitária em Syracuse) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, possivelmente a faixa mais acessível).

Ao primeiro álbum se seguiu o inigualável “White light/white heat”, já sem o apadrinhamento de Warholl – que limitou-se a bolar a capa, na qual sob um fundo negro, destacava-se, em relevo, um braço tatuado com uma caveira, algo que se perdeu na versão em CD - , e sem Nico. Centrado no lado mais pesado e dissonante da banda, nele brilham pérolas do “lado escuro” como a assombrada faixa título, onde a luz branca e o calor branco podem ser interpretados como uma pegada de cocaína; “Sister Ray”, que sem nenhum pudor narra uma lasciva orgia envolvendo marinheiros e travestis e “I head her call my name”, clássico da guitarra ostrich.

No terceiro álbum ocorre a saída de John Cale – substituído por Doug Yule -, que discordava do líder Lou Reed. Durante as gravações, Reed procurou aproximar a sonoridade da banda de um folk rock mais convencional. De fato, o terceiro disco (e o quarto, já póstumo, Loaded), mesmo que brilhantes e com algumas grandes sacadas na forma de composição, representaram uma guinada para um som mais suave e contido, mas ainda visionário e muito, muito à frente do seu tempo. Loaded, o último disco “oficial” da banda, que foi lançado já após a saída do próprio Lou Reed - que partiu para uma brilhante carreira solo - ganhou uma versão dupla em CD, com muito material inédito e várias demos. Doug Yule, recusando-se a enterrar a banda – seu ganha-pão -, lança uma última cartada, o obscuro LP Squeeze – inédito em CD, só encontrado no mundo virtual da mp3 -, renegado pelos fãs - mas visto hoje, numa perspectiva puramente história, é um álbum regular de soft rock. E então o Velvet desaparece, até seu eco criativo o fazer ressurgir como uma das bandas de rock mais influentes da história.

Hoje, visto em seu conjunto, o legado do Velvet Underground é impressionante, algo que, mesmo díspare de seus contemporâneos, apenas poderia ter tomado lugar nos sixties, que para os ignorantes se resumem a Beatles, Rolling Stones, Joplin e Hendrix. E Doors. Mas as grandes mudanças não são perceptíveis senão quando vistas de longe. Como escreveu Lou Reed, “It’s the begining of a new age”. E foi mesmo. O início de uma nova era……
Para conhecer mais sobre a banda, acesse agora
http://members.aol.com/olandem/vu.html

Venus In Furs

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart
Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart


Heroin

I don't know just where I'm going
But I'm gonna try for the kingdom, if I can
'Cause it makes me feel like I'm a man
When I put a spike into my vein
And I'll tell ya, things aren't quite the same
When I'm rushing on my run
And I feel just like Jesus' son
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I have made the big decision
I'm gonna try to nullify my life
'Cause when the blood begins to flow
When it shoots up the dropper's neck
When I'm closing in on death
And you can't help me now, you guys
And all you sweet girls with all your sweet talk
You can all go take a walk
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know

I wish that I was born a thousand years ago
I wish that I'd sail the darkened seas
On a great big clipper ship
Going from this land here to that
In a sailor's suit and cap
Away from the big city
Where a man can not be free
Of all of the evils of this town
And of himself, and those around
Oh, and I guess that I just don't know
Oh, and I guess that I just don't know

Heroin, be the death of me
Heroin, it's my wife and it's my life
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I'm better off and dead
Because when the smack begins to flow
I really don't care anymore
About all the Jim-Jim's in this town
And all the politicians makin' busy sounds
And everybody puttin' everybody else down
And all the dead bodies piled up in mounds
'Cause when the smack begins to flow
Then I really don't care anymore
Ah, when the heroin is in my blood
And that blood is in my head
Then thank God that I'm as good as dead
Then thank your God that I'm not aware
And thank God that I just don't care
And I guess I just don't know
And I guess I just don't know

segunda-feira, abril 02, 2007

Tem que ver!!!




Circula pelo Brasil, em cópia única, um filme imperdível: Amantes Constantes ( Les Amants Réguliers” França/Alemanha, 2005. 178 mins), 27º filme do cineasta francês Philippe Garrel, onde, sob o pano de fundo do movimento estudantil revolucionário de 1968, na França, adentramos nos territórios cada vez mais esquecidos da rebeldia, do sonho e da liberdade.


De início, é necessário atentar que o filme felizmente não segue um padrão didático, com ares de cultura oficial, daqueles que viram material de cursos universitários, mas, antes de tudo, é uma obra livre e apenas comprometida com sua própria existência. Há uma beleza estranha em suas cenas em preto e branco, um toque extremamente cuidadoso em sua fotografia, que nos faz crer que o longa simplesmente estava perdido por décadas nos arquivos de alguma distribuidora, e que finalmente encontrou o caminho dos cinemas. Sim, porque a película não tem cara de coisa atual, e, por isso mesmo, imagine-se, ela não é datada. Sob esse aspecto, esse tipo de linguagem nunca foi tão vanguardista...

Há no filme algo suave, e algo doloroso; esperança e lamentação parecem transitar nas mesmas cenas, como a crônica de algo que já aconteceu, mesmo ainda estando ocorrendo. Antes de ser um filme “mais difícil” sobre amor e política, como seria de se esperar, mesmo num circuito dito de “cinema de arte”, é uma peça sobre a criação e sobre a tentativa de se alterar a vida, sobre a possibilidade de se vivenciar uma mudança. Sobre o tempo, e sobre a construção e destruição de sonhos. Ele ergue-se como uma sombra do passado, golpeando de forma magistral a modorrenta e conservadora época atual. Em suma, representa uma fábula sobre resistência.

Naqueles dias, os jovens nas ruas de Paris acreditam ser possível substituir o governo de Charles de Gaulle (1890-1970) por um Estado socialista, algo ao mesmo tempo distante da burocracia repressora da União Soviética e próximo de uma modalidade política ligada à imaginação...e ao sonho. Algo como o “Socialismo como ele deveria ter sido”, numa fascinação contida, como se tal fosse um passo inevitável....pois, enfim, a história nunca termina...

Sob tal mote, percebe-se a armadilha em que tal tipo de narrativa pode cair, o que, de forma magistral, não ocorre no filme. Garrel constrói seus personagens e os aborda de forma corajosa, sem prender-se aos clichês que seriam esperados no gênero. Se há uma ligação elementar entre o filme de Garrel e, por exemplo, Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, outra obra sobre aquele maio de 68 - e citado no filme, para deleite dos cinéfilos -, que também descarna a forma como as drogas, o desejo, o prazer e o sexo são combustíveis para a revolta política, ao recriar o ambiente das “cápsulas revolucionárias” do período, é também como se Les Amants Réguliers fosse além, quase como uma segunda visão, ou mesmo uma continuação da obra de Bertolucci.

Dervieux (Louis Garrel, filho do diretor) é um jovem que integra um tipo de trupe de poetas, escritores e pintores que orbita em torno de um mecenas fascinado pelo ópio, Antoine. As discussões da turma, pitando o cachimbo de bambu, para muita gente, vão ter uma força emotiva e biográfica muito forte, pela identificação total. Dervieux então conhece Lilie (Clotilde Hesme), e os caminhos dos dois, por algum tempo, coincidem. Mas o confronto com a realidade passa a se dar em outros níveis.....
Iimperdível.