domingo, agosto 05, 2007

A persistência da memória

O rock nacional persiste, e nos subterrâneos continuam a correr veios musicais criativos, completamente ignorados pela grande mídia. Agora que a primeira década do século XXI começa a aproximar-se do final, percebe-se melhor que, ao lado da turma high tech da música eletrônica e de outros ritmos da moda, afirmou-se também o legado de um passado não tão recente do rock nacional, dos grupos mais esquecidos do nosso “roque”: bandas que se moveram entre a psicodelia sessentista e o progressivo da década posterior, mesclando-os com a cena da tropicália e o bucolismo lisérgico da cena a independente inglesa dos anos 70, ao lado de fatores como com a pop art, a nouvelle vague e o cinema de Stanley Kubrick.

É sintomático que revistas musicais publiquem matérias sobre o relançamento da discografia de artistas como o Steve Hillage. Ocorre que, redescobrindo os caminhos da independência, o rock nacional ganha mais algum oxigênio, ao olhar para trás, e, com as ferramentas desses tempos tão “futuristas” produzir sons que apontam caminhos para uma sobrevida ainda um pouco maior do gênero. Registro aqui o quão interessante é o fato de que as bandas que hoje abarcam o som progressivo sejam rotuladas como integrantes do chamado rock “regressivo”, mais um sinal de como o caráter de “moda” e “onda” ainda oxidam a verdadeira evolução de alguma música de qualidade por essas bandas tropicais. Em face da indústria, claro que hoje em dia os tempos são outros, a expectativa de um sucesso radiofônico, um disco por uma major, deixaram novamente de ser a tônica, nem se sabe quais caminhos rentáveis serão definidos no atual cenário de falência do modelo decadente de mercado imposto pelas grandes gravadoras. Restam, como sempre, os shows. Mas ainda há vitalidade na música, e isso é o que importa. Assumindo a independência, o profissionalismo de algumas bandas, novas e veteranas, permite a confecção de trabalhos que pintam em cores vivas um curioso retrato das sonoridades da melhor música feita no Brasil.

Formada em 2003 por dois egressos do Mopho, os alagoanos Hélio Pisca ((baterista, agora tocando outros instrumentos também e compondo) e Júnior Bocão (baixista/ guitarrista/ cantor e compositor) a Casa Flutuante, também como a primeira banda (Mopho), é um combo de flower power, rock progressivo brasileiro e MPB. Em seu primeiro CD, correspondem (e muito) às expectativas. Se surpreende também pela qualidade de gravação, artisticamente, “a terra é nossa casa flutuante”, é um disco que impressiona, muito bom mesmo, bem executado, lúdico, onde baixo, guitarra e a bateria têm a companhia de piano elétrico, sopros, um cravo, flauta doce (um cara ótimo, Billy Magno, dá uma força), numa sonoridade atualizada do rock brasilero dos anos 70 (o chamado “rock rural”) e além. Vinhetas aparecem, sons atemporais constroem uma rica paisagem criativa. As letras cuidam do resto, em achados como “olha / Já faz tempo / E o meu tempo não olha pra trás/ Perder tempo já não rola mais” (na lisérgica Olha o Tempo) e “Tudo simples / Tudo tão claro / Carrego, na bolsa, idéias / Que me fazem entender melhor / O poder / O caos...” (no clássico imediato Imaginação). Produzido pelos próprios caras e masterizado pelo Luiz Calanca, da clássica Baratos Afins, é um trabalho indispensável, visite www.casaflutuante.com.br.... citar Mopho me levou a rever o primeiro dos caras, e finalmente a conhecer o segundo CD dessa fantástica banda, já de volta à Alagoas, "Sine Diabolo Nullus Deus", lançado no final de 2004, quando o grupo voltou, após dissolver-se em São Paulo...a capa, clonada de “Rubber Soul” dos Beatles, antecipa o coquetel de psicodelia, folk rock, balad
as à Neil Young e rock pesado que o guitarrista e vocalista João Paulo e o tecladista e ótimo compositor Leonardo retornaram primorosos, em momentos de maravilhas como “A música que fiz para você’, e “O amor é feito de plástico”. E fora da mídia, mesmo da mídia antenada, a banda - que nunca interrompeu as atividades- recuperou parte de seu espaço em 2006, com o lançamento do filme "Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock'n'Roll", longa de animação dirigido por Otto Guerra, com os personagens do cartunista Angeli, que teve uma música da banda incluída na trilha (a canção "Quando Você me disse Adeus", desse segundo álbum). A pré-estréia do filme em Maceió, realizada no Cine Sesi, foi seguida de um concerto superlotado e visceral da banda... De Alagoas ao Acre, o Los Porongas conquistam seu justo espaço na cena independente nacional, inclusive nas revistas especializadas, o que é bom, por trazer mais visibilidade a este grupo formado em 2003, e expoente da moderna música urbana do norte do Brasil. Como escreve Terrence Machado (videoblog.com.br), “Se com uma chama acesa sobre a cabeça, num artefato feito um chapéu de latão, denominado poronga, o seringueiro abre trilhas na floresta e cria varadouros pra extrair da mata seu sustento, o Los Porongas é capaz de um feito semelhante, mantendo o mesmo fogo com lampejos musicais e literários intensos[...]”, numa bela síntese do substrato da banda acreana formada por Diogo Soares (vocal), João Eduardo (guitarra), Márcio Magrão (Baixo) e Jorge Anzol (Bateria). Também aqui encontramos o rock setentista brasileiro, ancorado no imaginário amazônico, mas totalmente dissociado de um mero regionalismo. Trata-se de personalidade. As letras são mesmo ótimas, muito bem construídas e introspectivas. O som algo peculiar dos Porongas valoriza o trampo legal e criativo da guitarra, e o baixo e bateria revelam uma dose amadurecida de boas influências, movendo as canções por progressões e viradas para além das esquinas do rock convencional, ao passo que o vocal – com ecos de Renato Russo – detém a dose exata de melancolia e força. Que sigam por esses caminhos....dentro da tradição lisérgica sessentista, outra banda integra o panteão dos novos clássicos da psicodelia nacional. Trata-se do Laranja Freak, quarteto de Porto Alegre formado por Ricardo (teclado, voz e guitarra), Evandro (baixo), Ivanez (guitarra e voz) e Miro (bateria), em ação desde 1997. O som da banda que emerge do CD “Brasas Lisérgicas” remete a uma mistura de flower power e Jovem Guarda, um tipo de marca registrada dos caras. O título entrega o espírito da coisa. De fato, arranjos "nuggetianos", lisergia, guitarras nervosas e estridentes convivem com as harmonias vocais típicas do rock comercial sessentista brasileiro, notadamente a jovem guarda, influência que emerge também nas letras simples e sentimentais, num pacote atual e instigante. Nesse panorama dos bons álbuns de rock nacional que rolam por aí, não poderia faltar o esperado novo trabalho do lendário Violeta de Outono, “Volume 7”, lançado no dia 21 de junho último. São 22 anos de estrada, afinal. Dessa vez, a atual encarnação da banda (Fabio Golfetti - guitarra & vocal, Gabriel Costa - baixo, Claudio Souza - bateria, Fernando Cardoso - órgão Hammond, piano & synth), para gravar esse novo disco, atacou o conceituado estúdio MOSH, o maior da América Latina, onde registrou todas as músicas ao vivo (apenas a voz e alguns pianos foram gravados posteriormente, em "overdub"), de modo a captar toda a ambiência, energia e interação de sua hipnótica performance ao vivo, sempre viajante e permeada por longas passagens instrumentais de uma introspecção às vezes triste, às vezes de uma largação cativante. O clima é mesmo o de um live, mesmo que em estúdio – é isso, fala-se aqui de uma música efetivamente “viva”. E só com inéditas (oito composições ao todo)... em tais termos, o lirismo melancólico e a psicodelia do Violeta, nesse formato mais cru e despojado que o registrado nos últimos lançamentos da banda em CD, revelam as pontes primordiais que unem o som próprio da banda com a cena setentista de Canterbury (Camel / Caravan/ Soft Machine/etc), o que é bem realçado pelo baixão melódico de Gabriel e pelo belo trabalho do órgão Hammond de Cardoso, ao lado do som iluminado de Golfetti e Souza. Essa viagem orgânica produz incríveis momentos, algo abstratos, gentilmente congelados para nós no som magnífico e límpido que escapa do CD, que ainda e traz como bônus um videoclipe em MPEG gravado no estúdio. Segundo Golfetti, essa nova fase está apenas no começo. Que bom...