quinta-feira, março 08, 2007

Mesa farta


"Kim nunca havia duvidado da existência de deuses ou da possibilidade de vida após a morte. Ele considerava a imortalidade como o único objetivo que valia a pena. Ele sabia que ela não é algo que você atinge automaticamente por acreditar em algum dogma arbitrário como Cristianismo ou Islã. É algo que você tem que trabalhar e batalhar, como tudo mais nessa vida ou na outra".
("The Western Lands")
_____________________________
Volta às livrarias brasileiras o clássico de William Burroughs, Almoço Nu - o inigualável Naked Lunch, que reaparece numa edição caprichada e com cuidadosa tradução, com ares versão definitiva.



O livro, claro, é inclassificável. Produto de um período particularmente conturbado da vida do escritor de obras como Dead City Radio, Alemeda Tornado, Junky e The Soft Machine (de onde a banda pescou o nome) - ele havia saído de um pesado tratamento de desintoxicação (um de muitos, a trajetória do cara, que inclui a trágica morte da esposa, numa tentativa de realizar um "WilliamTell", poderia ser descrita em livro bem semelhante aos seus), Naked Lunch teve seu texto final revisado e organizado por uma turma e tanto: Allen Ginsberg, Alan Ansen e Peter Orlovsky. Sem se preocupar com uma linha de raciocínio lógica – Borroughs encarnava a teoria do caos, na versão de K. J. Hansen – o livro, ao narrar as aventuras do vendedor de inseticida Bill Lee e descrever locais aberrantes como a Interzone (no álbum Unknow Pleasures do Joy Division há uma canção com esse nome - mais um reflexo da obra de Burroughs no rock), nos deleita com uma prosa bruta e irresistível - um fluxo lascivo e tonitruante de pseudo-ficção científica, experiências sexuais e orgias bizarras, paranóia, pintura (a segunda principal atividade de Burroughs), mitologia, estudos complexos sobre narcóticos, pop art, revelações sobre o tráfico de entorpecentes, retratos grotescos dos desvios da cultura de consumo e do instinto humano, barbárie, sonhos repletos de criaturas fantásticas e muita barra pesada de junkie desesperado. Aqui não há redenção, nem liçõezinhas de moral para os control freaks de plantão. Só uma prosa suja e maravilhosa, capaz de fazer qualquer bicho-grilo metido a rebelde e outside corar feito seminarista virgem.

Rejeitado por Lawrence Ferlinghetti, da City Lights, Naked Lunch foi publicado pela editora francesa Olympia Press, em 1959, e saiu nas livrarias dos EUA dois anos depois, pelas mãos da conhecida Grove Press, apresentando uma versão mais light do texto, compilada de uma revisão anterior à edição francesa.

Burroughs, falecido em 1997, aos 83 anos, cunhou termos chavões da literatura pós-moderna extrema, como o cyberpunk e Blade Runner; batizou gêneros musicais, como o Heavy Metal e o free style. Respeitado por gente fundamental- entre outros, Lou Reed, Brian Eno, Tom Waits (que com o cara, + Robert Wilson, gravou o inigualável The Black Rider, legado sonoro insuperável e insubstituível de nossa civilização), David Bowie, Patti Smith, David Cronenberg (que levou o livro para as telas - no Brasil, traduzido como "Mistérios e Paixões", onde junto das pirações de Bill Lee são inercalados eventos reais da vida do escritor, e também conceitos de outras obras suas. Infelizmente, o filme, muito bom, não obteve sucesso - mas está disponível em DVD no Brasil), o escritor foi mais um dos visionários que emergiram no início dos anos 60 para a moldar a estética do que se chama arte contemporânea (não confundir com arte moderna), cujas estruturas selvagens e atemporais continuam ainda hoje servindo de matéria prima para o roubo contínuo e a deturpação desmesurada por parte de nossos “escritores malditos”.

Dizia Burroughs: "Desde o começo eu tenho me preocupado, enquanto escritor, com o vício em si (seja a drogas, sexo, dinheiro, ou poder) como um modelo de controle, e com a decadência máxima das potencialidades biólogicas da humanidade, pervertida pela estupidez e malícia desumanas". Segundo Rodrigo Garcia Lopes (Revista Cult) "Se, como escreveu Michel Serres, a chave da modernidade está na relação parasítica, a obra de Burroughs chega a ser didática. Em sua narrativa grotesca, escatológica, distópica, o parasita se torna uma metáfora para todas as relações de poder". Sua obra visceral confronta os costumes, ridiculariza a “rebeldia aceitável” e a ingenuidade do estruturalismo - para Burroughs, não havia "literatura experimental sem vida experimental". Vista hoje, sua narrativa é fundamental para entender as transformações sociais, políticas e comportamentais da última metade do século 20. Digamos que, se uma catástrofe natural destruísse a terra, e com ela a nossa civilização, Naked Lunch, uma vez encontrado entre os destroços do planeta e degustado por mentes científicas de arqueólogos extraterrestres, transmitiria o inconfundível sabor de nossa vida tão ordinária, sem abrir mão do que muitos de nós gostariam de esconder...

A edição disponível é fantástica, contém trechos e fragmentos originais datilografados, capítulos imensos e inéditos, descobertos em 1998 na Ohio State Universitity, reunidos num super anexo, que inclui ainda sobras datadas do início do processo de escrita do livro, seqüências perdidas entre os últimos originais datilografados para a edição da Olympia, petiscos reveladores e de uma força inacreditável.

Ao banquete.